SEIS ANOS DEPOIS
Eva
— Cory! Anthea! Anda logo, os amiguinhos de vocês tão esperando! — gritei, exausta, pro corredor vazio.
— Sim, mamãe! — responderam juntos, e logo ouvi passos se aproximando e quatro pezinhos correram até mim.
Sorri com carinho pros dois pirralhos animados na minha frente. Cory ainda tava mastigando o café da manhã que eu tinha feito, enquanto a Anthea tava com mancha de pasta de amendoim na bochecha e na mão.
Sem pensar duas vezes, me agachei na altura deles, limpei a mãozinha dela e fiquei na frente dos dois.
— Não esqueçam o que eu falei. Fiquem com os professores o tempo todo e se cuidem, tá?
— Sim, mamãe — responderam em coro, sorrindo sapecas. Não consegui evitar. Meus olhos encheram de lágrima.
Meu filho e minha filha. A luz da minha vida.
Para mim foi uma surpresa dar à luz não um, mas dois filhos. Ainda mais incrível era como eles eram parecidos, com a minha pele cor de mocha e só diferentes nos olhos e no cabelo.
Dei um beijo na bochecha de cada um e um abraço apertado antes de pegar a bagagenzinha deles.
Quando a gente saiu, entreguei as coisas pros professores e vi os dois subindo no ônibus para a excursão da escola. Eu não conseguia parar de olhar, ainda mais porque ia ficar um tempão sem ver eles.
Segurei as lágrimas enquanto dava tchau com a mão até o ônibus sumir da minha vista. Eu ia sentir muita falta deles.
De certo modo, era inacreditável. Em seis anos, minha vida tinha mudado muito. Nunca achei que ia ter amor e um coração curado, mas a existência deles trouxe uma esperança nova pro meu coração.
Só que eu não tinha tempo para ficar parada sem fazer nada; eu tinha trabalho para fazer.
Me virei, fui até a garagem, entrei no carro e dirigi até o meu trabalho.
Assim que entrei no prédio, fui cumprimentada de todos os lados. Assenti para todo mundo enquanto passava pelos meus colegas.
Ao entrar no meu corredor, encontrei a Lucy, minha secretária, na porta com uma caneca familiar na mão, e eu gemi.
— Você é um anjo — agradeci e peguei a caneca de café da mão dela enquanto ela sorria.
— Me chame se precisar de qualquer coisa, Sra. Greene — Ela fez uma reverência antes de sair.
Entrei na minha sala antes de dar um gole no café, contemplando a vista panorâmica que o vidro oferecia.
Enquanto olhava a vista, lembrei como eu tinha chegado até ali. Naquela época, conseguir uma entrevista na S. Corporation era um sonho, mas eu não desperdicei minhas chances. Em pouquíssimo tempo, provei meu valor e me tornei uma das executivas de mais alto escalão. Era algo que eu nunca teria imaginado antes, mas meus esforços valeram a pena.
Só que isso não ajudou a calar os boatos, ainda mais porque certa pessoa não fez nada para impedir.
Fechei os olhos quando ouvi as batidas ritmadas seguidas da porta se abrindo. Nem precisei me virar para saber quem era.
— As crianças tão na excursão da escola agora? — perguntou uma voz grave atrás de mim.
Assenti, murmurando baixo. Ouvi os passos dele se aproximando antes de sentir o calor do corpo dele contra o meu.
— Deu um beijo de despedida por mim? — perguntou.
Um sorriso apareceu nos meus lábios quando finalmente cedi. Me virei e olhei para ele.
Jonathan Salvador, presidente e dono da S. Corporation.
Também meu namorado e pretendente autoproclamado.
— Nem precisa. Eles já te adoram demais. Me pediram para mandar o carinho deles pro tio Jon, beijo nem precisa — falei, revirando os olhos.
— Então tá ótimo — ele sorriu, descarado, e o rosto lindo dele com o maxilar esculpido se transformou numa expressão sacana enquanto se inclinava para mim.
— Sem querer ofender, mas só tem uma boca que eu quero beijar.
Ele levantou as sobrancelhas, malicioso, e eu não consegui segurar a risada.
Nunca achei que ia me envolver nesse tipo de relação, ainda mais considerando que ele era meu chefe. No começo eu fiquei na defensiva quando ele se interessou por mim, mas ele se esforçou para provar seu valor e respeitar meus limites. Ele se dedicava com o mesmo carinho aos meus filhos, o que facilitou tudo. Só foi no ano passado que eu cedi e aceitei, mas a gente ainda tava indo devagar, só nos beijos e carinhos.
— Fala sério, Jon, o que te trouxe aqui? — perguntei.
Apesar de a gente estar junto, a gente ainda mantinha os limites profissionais no escritório e, mesmo ele passando um pouco da linha com um beijo roubado ou outro, ele nunca vinha sem motivo.
O rosto dele ficou sério na hora, sumindo toda a zoeira e o humor. Ele suspirou e passou os dedos pelo cabelo preto como a noite.
— Preciso viajar hoje por causa do acordo que te falei. Acontece que eles precisam que eu esteja lá pessoalmente e eu não sei quando volto — disse.
Meu coração afundou na hora. O acordo que ele tava falando já vinha se arrastando há vários meses e eu sabia o quanto era importante para a empresa, mas isso significava que ele ia ficar fora por Deus sabe quanto tempo.
— Preciso que você tome conta de tudo aqui por enquanto — continuou, sorrindo com carinho.
— Uma das coisas mais importantes é a fusão com outra empresa, e quero deixar isso nas suas mãos. Você é a única em quem eu confio para cuidar disso.
Assenti sem hesitar e apertei a mão dele.
— Pode deixar tudo comigo aqui, chefe. Você faz o que tem que fazer — Tentei brincar, apesar de tudo.
O rosto dele se iluminou na hora. Ele se inclinou e me deu um beijinho, acariciando minha bochecha antes de ir embora. Uma sensação de solidão me invadiu, mas eu reprimi.
Não tinha nada para temer. Ele ia voltar logo.
Em menos de uma hora, recebi todos os arquivos necessários. Enquanto eu revisava, Dave, o secretário do Jonathan, me explicou todos os detalhes que eu precisava saber.
— Eles são uma empresa grande, como a nossa. Sinceramente, eles são mais consolidados, já que têm uma posição influente e relativamente antiga. Mas a presença deles vem caindo nos últimos anos. Agora tão passando por problemas estruturais e financeiros. Eles que entraram em contato com a gente primeiro e aceitaram a parceria. A nossa ajuda em troca dos recursos deles.
— E quem é o chefe? — perguntei enquanto finalmente pegava o arquivo que eu tava procurando.
Li e congelei.
Ele falou alguma coisa, mas meu ouvido ficou s***o enquanto eu seguia as letras com o olhar. Meu sangue gelou quando vi o nome que tava no arquivo.