Perspectiva de Scarlett
"A Faye está grávida."
Por um segundo, pensei que estava alucinando com aquelas palavras. Pisquei os olhos devagar, tentando processar o que o Alexander tinha dito. A sinceridade no rosto dele me dizia que ele não estava mentindo.
Olhei para o Alexander, esperando por um sorriso, um momento de revelação, qualquer sinal de que isso era uma piada de mau gosto. Mas os olhos dele estavam firmes — sem um pingo de vergonha.
Não só tinha trazido a amante de volta, como tinha dado a ela o que eu tentei dar a ele há anos.
Um herdeiro.
"Seu desgraçado!" O grito saiu de mim antes que eu pudesse me conter.
Então era isso.
A ardência na minha marca nas últimas semanas, a dor fantasma no pescoço — cada vez que o lobo dele se acasalava com outra, o meu corpo pagava o preço. E sempre que eu perguntava, ele me ignorava, dizendo que eu estava "pensando demais".
Levantei a mão na direção dele, mas ele a agarrou no ar. Os meus dedos cravaram-se na pele dele.
"Scarlett," ele disse com uma calma controlada, "não faça algo de que vai se arrepender."
A minha loba rosnou dentro de mim. "Larga-me, desgraçado!"
As garras dele surgiram, o suficiente para ameaçar, mas não para ferir. "Se desafiar minha autoridade outra vez, vou lembrá-la quem manda nesta alcateia."
Não somos nós.
Não juntos. Só ele.
A minha loba choramingou, ferida ainda mais do que eu. Ela tinha implorado pela aceitação do nosso companheiro durante três anos. Suplicado, se comprometido, suportado. Tudo para ser substituída pela mulher que ele realmente queria.
Engoli o sabor metálico que subiu à minha garganta.
"Vai nomeá-la como Luna?"
"Não."
A resposta foi imediata, quase desesperada. O lobo dele recuou, escondendo-se por trás dos seus olhos.
"Você continua sendo a Luna da Alcateia da Lua Crescente," ele insistiu.
Eu ri, não de diversão, mas de pura incredulidade. "Diz que me ama, mas engravidou outra."
A mandíbula dele apertou-se. "Não foi planejado."
"Isso é pior."
Os olhos dele escureceram. "Scarlett, me escute. A alcateia precisa de um herdeiro. Você não pôde me dar um."
As palavras doeram mais do que a própria infidelidade.
Você não pôde.
Como se o silêncio do meu corpo fosse uma falha moral, uma traição igual à dele.
"Você poderia ter falado comigo," eu disse, a voz tremendo. "Poderia ter tentado."
"Eu tentei," ele retrucou. "Durante anos. O conselho está nos pressionando. Os nossos aliados estão de olho. Não posso arriscar que a Lua Crescente desmorone porque você se recusa a abdicar."
"Abdicar?" repeti.
"Do seu papel como minha companheira. Não de Luna. Preciso de ambas. O meu poder e a minha linhagem."
Não havia arrependimento nas palavras dele, o que apertou o meu coração.
"Você quer o título de esposa e a mulher que dá filhos," sussurrei. "Duas mulheres, um trono."
"Pare com o drama. Ela está apenas carregando o herdeiro."
"E o que acontece depois que ela der à luz?"
O silêncio dele foi uma confissão.
A Faye o teria para sempre.
E ele sempre permitiria.
"Rejeite-me," eu disse, a voz quebrando. "Não vou ficar ao lado de um homem que me humilha."
"Não." A mão dele apertou com força dolorosa. "Não haverá rejeição. Nunca."
"Por quê?"
"Porque no momento em que eu a rejeito, metade da alcateia se torna leal a você, não a mim. E eu não vou arriscar uma rebelião."
E aí estava — finalmente, a verdade.
Não era amor.
Não era devoção.
Era controle.
A minha risada saiu oca. "Então eu sou a sua rede de segurança? A sua refém?"
"Você é a minha Luna," ele sibilou. "E não pode simplesmente ir embora."
Antes que eu pudesse proferir outra maldição, alguém bateu à porta.
O Alexander abriu.
A Faye estava lá, envolta num vestido de seda branca que convenientemente destacava o ligeiro inchaço da barriga — m*l visível, mas deliberadamente acentuado. O cabelo estava trançado, os lábios brilhantes, pó escondendo o cansaço do início da gravidez.
"Alexander," ela murmurou, docemente, entrando no recinto. "Fiquei preocupada. Você saiu tão de repente."
Os olhos de corça dela se voltaram para mim com uma preocupação claramente encenada. "Oh, Luna Scarlett, você está tão pálida. Não quis perturbar vocês. Apenas me preocupo por ter causado problemas. Sei que você tentou durante tanto tempo, e imagino que deve ser doloroso."
Ela acariciou a barriga, sorrindo suavemente. O gesto foi sutil, mas eu entendi a mensagem.
'Veja o que eu dei a ele. Veja o que você não conseguiu.'
Eu sorri de volta e respondi, pontualmente. "Doloroso? Não. Doloroso é você não compreender o seu lugar."
A expressão dela vacilou.
"Você é uma substituta, Faye. Nada mais do que isso. O seu filho pertence à alcateia — e a mim, como Luna. Você nunca será mais do que a amante oculta do Alfa."
Por um momento, o medo rachou a máscara perfeita dela, quase me fazendo rir.
Foi então que ela abraçou a barriga dramaticamente, ofegando.
"Alexander — a minha barriga —"
Ele correu para ela imediatamente.
O que me fez sentir m*l não foi o teatro dela.
Foi o dele.
"Scarlett," ele vociferou por cima do ombro, "cuidado com a forma como fala com ela. Ela está carregando o meu herdeiro."
O seu herdeiro.
Não o nosso herdeiro.
Enquanto a ajudava a sair, a voz dele baixou, mas não o suficiente para que eu não ouvisse. "Faye, não a escute. Você merece mais amor do que aquela Luna fria alguma vez me deu."
Engoli a mágoa e a fúria que fervilhavam dentro de mim e deixei o local. Enquanto descia as escadas, me obrigando a manter a cabeça erguida — eu era a Luna, e ainda assim os olhos me seguiam com pena, alguns até com satisfação —, os sussurros ecoavam atrás de mim.
"Ouvi dizer que a Luna não consegue conceber?"
"Talvez seja por isso que o Alfa escolheu a Faye."
"A nossa alcateia precisa de um herdeiro — ainda bem que a Faye estava lá para providenciar um."
"Tenho pena da nossa Luna."
Pena. Era a última coisa que eu queria que pensassem de mim. Queria gritar que eu tinha sido envenenada, que alguém tinha sabotado os meus ciclos. Queria lançar a verdade como uma arma.
Mas ninguém acreditaria em mim agora. Não depois de ele a exibir como um troféu, como se ela fosse a sua Luna.
As minhas pernas me levaram até ao meu escritório. Fechei a porta, tranquei-a e finalmente me permiti tremer.
Peguei no telefone e liguei para o Rei Lobo. Sem resposta.
Liguei para todos os Alfas que me deviam favores e até deixei uma mensagem pedindo que me contactassem assim que vissem o meu recado.
Então, desesperada, liguei para o meu tenente fiel.
Ele também não atendeu.
Me senti abandonada por todos os lados.
Finalmente, surgiu um nome familiar.
Alfa Reno.
Atendi rapidamente. "O Alexander me traiu. A Faye está grávida. Ele planeja criar a criança na alcateia — sem me rejeitar."
A respiração de Reno estava pesada. "Scarlett… lamento muito."
"As desculpas não me ajudam," sussurrei. "Me ajude a parar isto."
"Você sabe que não podemos interferir em assuntos internos de uma alcateia. A menos que haja abuso físico ou ameaça à vida."
Eu ri amargamente. "Então a infidelidade é aceitável, desde que ele não me mate?"
"Legalmente… sim."
"E os direitos da Luna? Perco tudo se sair?"
"Sim," ele admitiu. "A menos que você se torne Alfa. Mas o conselho ainda não aprovou a lei que permite Alfas femininas."
"Porque muitos homens votaram contra."
"Porque têm medo," Reno corrigiu. "Uma Alfa feminina ameaça a estrutura de poder."
Olhei para o teto e não pude evitar uma risada sarcástica.
"A não ser que…" Reno continuou, hesitante. "Se você conseguir o apoio do Alfa mais forte da região, outros poderão seguir."
"O Alfa da Nightshade," sussurrei.
Um homem temido, respeitado e impossível de manipular.
Reno suspirou. "Tenha cuidado, Scarlett. Assim que você der este passo, não há volta atrás."
"Eu sei."
Desliguei o telefone.
Desabei no sofá, tonta. Lágrimas queimavam nos cantos dos meus olhos. Enxuguei-as antes que caíssem.
"Kara… você está aí?"
A minha loba não respondeu.
O nosso vínculo de alma gêmea tinha destruído o espírito dela.
Pressionei a mão contra o peito. "Não vá. Eu preciso de você."
Ainda nada.
Então, me firmei.
Porque se ela não podia lutar — eu lutaria.
Abri uma gaveta e peguei nos documentos — leis da alcateia, regulamentos do conselho, velhos tratados que o meu pai um dia usara.
Li com os olhos embaçados, sublinhando seções, circulando brechas, procurando por armas disfarçadas de palavras.
Se o Alexander queria poder — eu o despojaria disso.
Se ele queria controle — eu o quebraria.
Se ele queria um legado — eu o reescreveria.
As minhas mãos tremiam, mas não de desespero.
De clareza.
O mundo achava que eu não tinha opções. O Alexander achava que me possuía.
Ele não fazia ideia de quem ele tinha acabado de empurrar para a guerra.
Agora, eu precisava contactar o único homem que poderia ajudar — o irmão da Kathleen. O único poderoso o suficiente para ficar ao meu lado.