Perspectiva de Scarlett
Passei a noite toda me revirando na cama, pensando em quanto o Alexander me custara. Falar com a Kathleen foi como tirar um peso do peito. Não tudo, não o fardo esmagador da falta de amor, da traição e do isolamento, mas o suficiente. Suficiente para respirar de novo. Suficiente para me lembrar de quem eu era antes de deixar que o amor me vendasse os olhos e me conduzisse ao abismo. Isso reacendeu uma esperança no meu coração, e me agarrei a ela desesperadamente.
Eu ainda era a Luna desta alcateia, quer a Faye quisesse ou não. Não importava se ela tinha o Alexander nas mãos ou se achavam que podiam me apagar, me prendendo nos meus aposentos.
Quase não preguei o olho naquela noite, e agora estava acordada cedo, ainda antes da Ruby. Levantei-me lentamente da cama, com os pensamentos descontrolados, e percebi que tinha cometido um erro muito maior do que me apaixonar.
Eu me tinha esquecido de quem era.
Esquecera a garota que treinava mais tempo, que lutava com mais garra, que insistia em se destacar nas reuniões para ser levada a sério. Esquecera a loba que uivara sob luas de sangue e enfrentara machos mais velhos e fortes com desafio. Esquecera a mulher que fora antes das belas palavras do Alexander e dos olhos azuis ardentes derreterem os limites da minha determinação.
Esquecera os meus amigos. A mim mesma.
E o Alexander? Ele nunca se esquecera de quem era. Tomou tudo o que dei e só devolveu controle.
Mas não mais. Agora, eu esperaria. A Kathleen prometera falar com o irmão em meu nome. Até lá, eu precisava manter a cabeça baixa, a boca fechada e as mãos firmes.
O dia se arrastou, demasiado lento para o meu gosto. Finalmente saí da cama depois de a Ruby me trazer o café da manhã. Eu não tinha apetite; havia demasiadas coisas na minha cabeça. Ela não falou muito, apenas me lançou um olhar que dizia que entendia, sem invadir o meu espaço. Agradeci-lhe mais do que qualquer palavra poderia expressar. O estômago se revirava. Comer parecia admitir que eu pertencia ali.
"Coma, Luna," disse a Ruby suavemente, pousando uma mão no meu ombro. "Você vai precisar de forças. Não se vencem guerras com o estômago vazio."
Olhei para ela e vi não apenas a minha empregada, mas a minha irmã de armas. Peguei no garfo e engoli uma dentada. Tinha gosto de cinzas, mas engoli mesmo assim.
"Eu o odeio," sussurrei.
"Eu sei," disse ela, com gentileza.
Eu não esperava ouvir o som de botas.
A minha espinha ficou rígida ao ouvir a porta se abrir atrás de mim, uma rajada de ar fresco da manhã invadindo o ambiente. Depois, o cheiro de especiarias, cedro e aquele ligeiro toque de algo unicamente dele me envolveu como mel envenenado. O Alexander estava ali.
Não me virei imediatamente. As minhas mãos se fecharam em punhos. A ousadia de entrar ali e agir como se tudo estivesse bem era chocante.
"Scarlett," disse ele, a voz enganadoramente suave. Eu odiava como o meu nome soava na boca dele, como se ainda tivesse esse direito. Odeiava ainda mais o efeito que a sua voz me causava.
Virei-me lentamente, o meu olhar se estreitando, pronta para enfrentá-lo com um silêncio gelado. Mas ele segurava um ramo de peônias — as minhas favoritas. Prendi a respiração. Que raio ele estava tentando fazer? Vi a Ruby saindo da sala para nos dar privacidade.
"Vi estas e pensei imediatamente em você," murmurou ele, se aproximando. "Mandei buscá-las dos jardins do sul."
Eu não as aceitei. De que me serviriam, afinal?
Ele se aproximou do lugar onde eu estava sentada e ocupou o lugar ao meu lado. A intensidade do perfume dele invadia o meu espaço; ele sabia disso também, a julgar pelo ligeiro sorriso no rosto. Ele se inclinou mesmo assim e, antes que eu pudesse impedi-lo, os seus lábios roçaram os meus.
O vínculo entre nós se reativou, tão poderoso e esmagador como sempre. O meu corpo me traiu — cada nervo se acendeu, cada memória de como ele costumava me segurar voltou correndo. Os meus lábios quase se moveram ao encontro dos dele, e as memórias da sua traição escaparam da minha mente.
Foi então que o celular dele tocou.
Ele recuou, suspirando, e verificou a tela.
Foi quando a realidade me atingiu como um soco.
Faye.
Vi o nome dela piscando em negrito na tela.
O meu peito se apertou. Empurrei o ramo contra o peito dele e me afastei, a minha voz fria e clara. "Você tem a mãe do seu filho para se preocupar. Por que está aqui?"
Ele franziu a testa. "Scarlett, pare."
"Você me beijou sabendo que a deixou grávida. Que tipo de monstro você é?"
"Pare de ser dramática."
Dramática?
"Você me prendeu num canto deste palácio como se eu estivesse doente. Confiscou os meus dispositivos, me cortou de toda a gente que amo, e agora tem a audácia de me chamar dramática?"
Ele suspirou, como se eu fosse um incômodo. "Não vim aqui para discutir. Quero que resolvamos isto como adultos."
"Não, você veio aqui para me manipular ao silêncio. Outra vez."
Os olhos dele endureceram. "Você é a minha Luna."
"Então me trate como tal," retorqui. "Ou melhor ainda, tire-me o título e me deixe ir."
Ele não respondeu a isso. Nunca respondia.
"Você acha que me punir vai me destruir," acrescentei, me aproximando. "Mas esquece que fui criada na Alcateia do Inverno. Nós não nos destruímos. Nós congelamos e voltamos mais afiadas."
Ele riu amargamente. "É por isso que não a escolhi."
Aí estava. O golpe final — e a verdade. Eu tinha sido apenas um substituto para o verdadeiro amor dele.
Olhei para ele, cada gota de calor se transformando em gelo. "Ótimo. Porque eu nunca perdoaria um homem que trai. Não importa quantas vezes tente me manipular para acreditar que está tudo bem."
A mandíbula dele se contraiu, a veia da têmpora pulsando. Então, como o covarde que era, virou-se para sair.
"Vá lá," disse eu, sarcasticamente. "A Faye está à espera. Vá consolar a sua queridinha."
Ele hesitou, olhou novamente para o celular e depois saiu. A porta bateu com força atrás dele, e eu soltei um suspiro. Fiquei parada, o coração disparado, respirando com dificuldade. Era como se tivesse acabado de sair de uma batalha. O quanto aquele laço ainda me afetava me irritava; não baixaria a guarda perto dele novamente.
A Ruby entrou de repente, não haviam passado nem dez segundos, com os olhos arregalados. "Há uma ligação para você. No telefone fixo."
Pisquei os olhos, surpreendida. "O quê?"
"O fixo. Lá embaixo. Pedi para eles esperarem. Disseram que era urgente."
Eu já estava me movendo antes mesmo de ela terminar a frase. O corredor passou rápido enquanto eu corria, os pés descalços fazendo barulho no soalho polido. O velho telefone preto estava num canto da sala de estar, meio escondido pelas cortinas de veludo.
Agarrei-o rapidamente. "Estou?"
Silêncio.
Depois, uma voz profunda e autoritária preencheu a linha. "Luna Scarlett."
Congelei.
"Alfa Lucien falando."
Ele tinha ligado.