Defender

1280 Mots
Tristan Procurei no olhar dela qualquer coisa que me dissesse que ela estava bem, mas seu silêncio era suficiente para me dizer que não estava. Ela estava ouvindo? Não conseguia esquecer o glaze repentino nos olhos dela bem antes de eu correr para dentro ou a forma como ela quase hiperventilava. O pânico que me agarrou naquele momento era um que não conseguia definir. Agora, o haze sumiu, mas ela me olhava com um olhar que não conseguia decifrar. Não suportava o pensamento dela ciclando por memórias ruins, se machucando no processo. Precisei de tudo em mim para não sacudi-la se não temesse que faria mais m*l do que bem. Não sabia o que era mais inacreditável, as coisas que ouvi ou quão rápido vim aqui. Cheguei só menos de um minuto atrás após lidar com negócios na fronteira quando os guardas próximos me disseram que eles vieram aqui. Corri aqui na hora certa para saber o suficiente do porquê vieram… e dela. Engoli em seco, tentando controlar minhas emoções. Pensei que sabia como era estar bravo, mas nunca senti mais enfurecido e repelido até ouvir o que os pais dela, as pessoas que me criaram, disseram a ela. E então as palavras dela, bem antes de eu entrar? Meu coração doía. Sempre a culpava por uma coisa ou outra em favor de Alyn, e não via nada errado nisso até recentemente. Após ela partir e o sonho depois, era como se o nevoeiro nos meus olhos tivesse se dissipado e conseguisse ver claramente. Sabendo da natureza de Alyn agora, quão disposta ela era a enganar outros sem remorso, me forçou a relembrar todas aquelas memórias, todos os incidentes ou ‘acidentes’ que constantemente terminavam com Alyn sendo ‘machucada’ e Valerie sendo a culpada. Começando pelo mais recente que aconteceu bem antes de Valerie partir. Ela havia sido a que realmente derramou suco em Alyn, ou Alyn fez parecer assim? Repetindo aquele momento na mente, sabia a resposta já e enviava meu sangue correndo gelado. Quanto tempo isso durava? Quanto tempo ela foi injustiçada e suportou? Quantas vezes fui cego para isso assim como os pais dela? Quantas vezes participei? Demais. Demais para contar. Piscando de volta à realidade, lutei contra a culpa e tentei procurar seus olhos só para receber uma expressão enevoada. Ela permaneceu completamente em silêncio como se em transe. — Valerie? Va- Minhas palavras de repente cortaram no momento em que sua silhueta quente atingiu meu peito. Minha respiração prendeu enquanto seus braços puxavam contra os meus, se enterrando mais no meu peito. Me abraçando. ‘Estou sonhando?’ Pensei. Isso parecia surreal demais. Senti seu corpo tremer contra o meu em movimentos maiores antes de algo quente e úmido se infiltrar nas minhas roupas. A realização me atingiu como uma pilha de tijolos, arrastando qualquer euforia que sentia para gelo. Ela não estava tremendo. Estava chorando. Quaisquer palavras gelaram na minha garganta. Meus braços se enrolaram ao redor dela instantaneamente, puxando-a contra mim. Na maior parte do tempo, mesmo de perto, Valerie constantemente parecia uma força da natureza imóvel. Apesar das dificuldades que enfrentou que contribuí, sempre saía infalível, mantendo a cabeça erguida. O mais perto que vi dela foi aquele dia nos jardins da Alcateia da Lua Sombria, quando seu olhar assombrado e as lágrimas nos olhos dela enquanto me dizia que nosso filho se foi. Aquele momento ainda me assombrava até hoje. Ela era mais forte do que qualquer outro poderia imaginar. Mas como estava crescendo para saber, sabia que ela não era só uma pessoa forte sozinha. Ela também era uma garota, uma filha, uma companheira, abandonada por todos pelos quais se sacrificou, eu incluso. A memória do olhar no rosto dela no meu escritório dias atrás picava meu peito. Todos os motivos que a afastei pareciam tolos agora, especialmente após assisti-la colapsar bem nos meus braços meros dias após. Estive tentando compensar, com os presentes de coisas que pensava que ela gostaria e comidas que aprendi que desfrutava. Me enchia de raiva agora que em quase três anos do nosso casamento não aprendi essas coisas até agora. Por agora, não havia necessidade de presentes. O que ela precisava era conforto e silêncio. Apesar de tudo que fiz, ela de alguma forma tinha a bondade de me dar essa chance de confortá-la. Estava disposto a dar exatamente isso a ela pelo máximo possível. Qualquer coisa que quisesse, eu proveria. Ficamos parados pelo que pareceu uma eternidade. Minhas pernas doíam ligeiramente de quanto tempo fiquei parado no lugar, mas empurrei para longe. Seus soluços lentamente se aquietaram, sua respiração e o tremor baixando para nada até que só conseguia ouvir suas respirações em tandem com meu batimento cardíaco. Ela lentamente se retirou, sua silhueta se separando da minha. Contive o lamento do toque dela enquanto dava um passo para trás, limpando os olhos. — Sinto… muito. Pela sua camisa — disse ela entrecortada, olhos focados no ponto úmido que tinha certeza que estava lá, mas não conseguia me importar. — Não precisa se desculpar. A camisa precisava de uma troca mesmo — tentei brincar só para cair por terra no silêncio. Segundos passaram sem nenhum de nós dizer uma palavra. Meu estômago apertou com o pensamento desse lugar se tornando incômodo, especialmente quando era claro que ela evitava minha presença. Um nó grosso inchou na minha garganta. Não era ingênuo. Ela estar emocional nesse momento não significava que me perdoou. Não ousaria pedir isso também. Fiz o que precisava fazer. Era hora de sair. — Bem, se quiser- — Obrigada — disse ela, interrompendo minhas palavras. Inspirei asperamente de choque enquanto ela me olhava. — Essa deve ter sido a primeira, não, segunda vez que fui defendida na frente dos meus pais. Três se contar Alistair — riu ela úmida, lágrimas ainda carregadas na voz, mas seu tom era leve. Um pequeno peso se ergueu dentro de mim, mesmo que mencionar o nome dele fizesse meu peito apertar. — Ainda assim, de todas essas vezes. De alguma forma essa parece a primeira vez que pareceu mais importante. Talvez seja o assunto, mas… obrigada pelo que disse lá atrás — disse ela, um pequeno sorriso grato no rosto. Grata, como se tivesse feito algo que ela não merecia. — Nunca precisa me agradecer pelo que aconteceu lá atrás — disse firmemente, assistindo seu sorriso cair em choque. — Tudo o que disse era a verdade, uma que eles precisavam ouvir. Eles têm que ver a forma como a trataram. Você é muito mais do que pensam. Cada coisa que disse a eles veio do meu coração. Tinha certeza de que já consideravam minhas palavras se não conseguiam considerar as dela. E se não, era perda deles. — Você quis dizer mesmo? — perguntou ela, e vi a sugestão de ceticismo nos olhos dela. Não só isso. Mágoa. Mágoa que causei. — Sim. Nunca mudou — finalmente respondi, baring meus sentimentos. Essa era minha chance de consertar as coisas. De explicar o que aconteceu dias atrás e pedir desculpas. Então fiz. — Sinto muito pelo que aconteceu dias atrás — disse apressado. — O que disse antes, não quis dizer nada disso. Me matou dizer aquelas palavras- — Então por que você…? Suas palavras falharam, mas a pergunta ainda era clara. Olhei para cima para encontrar seu olhar. Não havia ódio ou raiva ou julgamento, só confusão e curiosidade ali abertos. Ela estava sendo aberta, disposta a me ouvir. A me deixar explicar. A única pergunta agora era, como explicava? Um nó se formou na minha garganta enquanto as memórias rodopiavam na mente. O evento que me fez afastá-la. E tudo se originava daquela noite.
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