Capítulo 4

1604 Mots
  PERSPECTIVA DA SERAPHINA   Voltei do escritório do advogado me sentindo como se minha alma tivesse passado por um triturador. Entrar pela porta da frente me trouxe uma ansiedade estranha, talvez porque eu soubesse que esta seria uma das últimas vezes que estaria ali.   Deixei meu olhar vagar pelo hall de entrada, absorvendo cada detalhe: a foto de bebê do Daniel na estante, o retrato do Kieran quando foi consagrado Alfa, a foto minha e do Daniel no seu quinto aniversário.   Não havia fotos minhas com o Kieran. Que surpresa.   Fui direto para o escritório do Kieran. Saí de manhã cedo, não querendo topar com ele e ter uma conversa constrangedora sobre o divórcio iminente. Acho que também estava evitando o Daniel.   Como eu poderia olhar naqueles olhos inocentes e explicar que sua família estava se desfazendo?   "Eu não... entendo."   A voz fraca e confusa do Daniel me deteve do lado de fora do escritório do Kieran. A porta estava entreaberta, e eu vi o Daniel sentado em uma cadeira em frente à mesa do Kieran como um visitante. Kieran estava do outro lado, olhando para nosso filho com uma ternura que nunca mostrou para mim.   Ele se inclinou para frente e segurou as mãos do Daniel. "Papai e Mamãe não vão mais morar juntos mais, campeão."   "Mas... por quê?" O lábio inferior do Daniel tremeu. "Você não ama a Mamãe?"   Fiquei tensa. Como o Kieran responderia a isso? Certamente, ele não diria ao nosso filho que não amava a mãe dele. Mas a única opção seria mentir.   Kieran suspirou e se levantou da cadeira. Ele foi até o lado de Daniel e segurou suas mãos novamente, se abaixando para ficar da altura do nosso filho.   "Sabe, sua mãe me deu o maior presente do mundo", ele disse, esticando a mão e acariciando delicadamente a cabeça do Daniel. "Você. E sempre vou amá-la por isso."   Meu peito apertou. Por dez anos, desejei desesperadamente ouvir essas palavras vindas do Kieran, e ali estavam elas, enquanto eu segurava os papéis do divórcio nas mãos.   Mas eu sabia o que elas realmente queriam dizer, que o Kieran só se casou comigo porque eu dei a ele o Daniel. Ele me tolerou por uma década apenas porque eu era a mãe do seu herdeiro. Essa era mais uma prova de que nosso casamento era unilateral.   O verdadeiro amor incondicional dele estava reservado para a Celeste.   Um som sufocado escapou de mim.   Kieran ficou tenso. Ele levantou a cabeça rapidamente, como um lobo, aqueles olhos com manchas douradas se estreitando na direção da porta.   "Não devemos espionar conversas particulares", ele disse friamente, ficando em pé. A voz de Alfa, aquela que fazia os membros da Alcateia se curvarem automaticamente.   Respirei fundo e empurrei a porta para abrir.   "Mamãe!" Daniel se levantou e veio até mim, jogando seus braços ao redor da minha cintura.   "Oi, querido." Beijei o topo da cabeça dele.   "É verdade?" ele perguntou, olhando para mim com os olhos grandes e brilhantes.   Acariciei a cabeça dele. "Eu..."   "Danny, deixa eu falar com a sua mãe um minuto, por favor. Vá ajudar o Chef com o jantar."   Daniel fez um bico. "Mas..."   "Agora." Aquela única palavra carregava o peso de uma ordem.   Apertei o ombro dele, tranquilizando-o. "Conversaremos mais depois, amor. Vá lá."   Daniel suspirou e saiu, seus ombros ligeiramente caídos.   Fechei a porta atrás de mim. O olhar do Kieran caiu sobre os papéis na minha mão. Algo indecifrável passou pelo seu rosto.   "Suponho que esses sejam os papéis?"   Assenti, sentindo um nervosismo tomar conta de mim de repente.   "Minha advogada redigiu o acordo especificando os termos da guarda." Avancei e coloquei o documento sobre a mesa. "Está tudo claramente detalhado: os horários de visita, feriados, decisões sobre educação..."   Kieran abriu a pasta e puxou os documentos. Suas sobrancelhas se franziram em concentração enquanto seus olhos percorriam as páginas.   "Ah, também falei com uma corretora que ela indicou", continuei, cruzando as mãos na frente do corpo. "Ela me mostrou uma casa linda a uns trinta minutos daqui. Está completamente mobiliada, pronta para mudar, e a hipoteca é bem razoável. Fica em território neutro, então você pode visitar quan..."   "Por que a pressa?"   Parei, olhando para o Kieran com a testa franzida. "O quê?"   "Fui eu quem pediu o divórcio." Ele largou os papéis na mesa. "E você está aí com planos de mudança e documentos antes mesmo da tinta da caneta secar. Você estava contando os dias?"   A verdade queimava na minha língua. Sim, cada um dos 3.652 dias em que estivemos casados. Mas admitir isso só daria mais munição para ele usar contra mim na batalha pela guarda que eu temia estar por vir.   Kieran zombou do meu silêncio e recostou-se na cadeira. "Deixe o endereço de sua nova casa", disse ele. "Meu filho e eu vamos jantar, depois vou mandá-lo até você junto com sua cópia assinada dos papéis."   O tom de finalização em sua voz extinguiu minha esperança de um último jantar em família. Claro, o grande Alfa Kieran não se dignaria a fazer uma refeição com sua futura ex-esposa.   Saí do escritório do Kieran sentindo um vazio ainda maior no peito. Não consegui dormir na noite anterior depois das notícias, então usei esse tempo para empacotar todas as minhas coisas.   Nunca tive a chance de fazer deste lugar o meu lar de verdade, então tudo o que possuía cabia em duas malas.   Depois de carregar meu carro com as coisas, em vez de partir, fiquei sentada no banco do motorista, olhando para a casa à minha frente e lembrando de todas as minhas memórias. As do Daniel eram felizes e cheias de vida, repletas de amor e risadas. Mas as lembranças do Kieran eram cinzentas, monótonas e vazias. Cada conversa travada, cada toque evitado, cada sorriso que ele guardava para outra pessoa.   O som estridente do toque do celular interrompeu meus pensamentos. O nome da minha mãe piscando na tela foi como um gelo passando pelas minhas veias. Duas ligações em tão pouco tempo depois de uma década de silêncio? O universo claramente estava de brincadeira comigo.   "Oi, mãe." Forcei um tom alegre na voz. "Como você está?"   Ela passou direto pelas gentilezas, como sempre fazia. "É verdade?"   Meus dedos apertaram o telefone. "O que é verdade?"   "Que você está finalmente se divorciando do Kieran."   Senti o ar fugir dos meus pulmões. Claro que ela sabia. Kieran provavelmente havia ligado para a Celeste na noite anterior.   "Sim", murmurei, com os dentes cerrados.   O som do suspiro aliviado da minha mãe cortou mais fundo que qualquer lâmina. Um alívio genuíno, mas que machucava.   "É melhor assim", ela disse. "Esse casamento foi um erro desde o início. Isso... isso é a correção que todos estávamos esperando."   Minha boca se abriu. Uma única lágrima traidora escorreu. Que tipo de mãe celebra a tristeza da filha? A resposta veio rapidamente e de forma amarga. O tipo que sempre quis que a outra filha vencesse.   Encerrei a ligação sem dizer mais nada e desliguei o celular antes que ela pudesse me ferir ainda mais.   Foi então que a porta da frente se abriu e o Daniel saiu. Kieran veio logo em seguida, carregando uma bolsa grande. Franzi a testa. Não tinha como ele estar carregando todas as coisas do Daniel. O Kieran estava fazendo mandando uma indireta: não importava se nós nos mudássemos, a casa do Daniel ainda era ali.   Daniel me viu no carro e seus olhos se iluminaram. Saí do carro enquanto ele corria até mim e o abracei.   "Eu disse que levaria ele", Kieran vociferou, se aproximando.   "Desculpa, eu só queria..."   "É assim que vai ser?", ele me interrompeu. "Já não basta você levar meu filho para longe de mim, ainda quer roubar meu tempo com ele?"   A pequena mão do Daniel puxou a manga do Kieran. "Pai... Tá tudo bem." Sua voz era suave, mas firme. "A gente vai se ver amanhã. No funeral do Vovô."   A mandíbula do Kieran ficou tão tensa que parecia que seria capaz de trincar pedras . Por um momento, achei que ele fosse discutir, mas então ele suspirou forte e bagunçou o cabelo do Daniel.   "Tá bom. Até amanhã, campeão." Seu olhar passou por mim, frio e desdenhoso. "Se comporte com a sua mãe."   Ele me entregou a mochila e voltou pra dentro sem dizer mais nada.   Engoli em seco e coloquei a mochila no carro em silêncio. Daniel subiu no banco do passageiro sem reclamar, seus olhos sábios demais me observando cuidadosamente. Enquanto me afastava, me forcei a não olhar para trás, nem para a casa, nem para a vida que não consegui fazer dar certo.   Com dois minutos de viagem, Daniel mexeu na mochila e tirou dela um sanduíche meio amassado.   "Você não jantou", ele disse com simplicidade, pressionando o lanche em minha mão.   As lágrimas que tanto tentei segurar escorreram.   "Daniel..." Minha voz falhou. "Você me odeia? Por isso? Por te afastar do seu pai?"   Ele pensou com a seriedade que nenhum garoto de nove anos deveria ter. Meu coração parou, esperando o golpe...   "Não." Ele mexeu no cinto de segurança. "Eu sei que você vivia triste. Talvez agora você possa ser feliz."   Um soluço escapou. A estrada ficou embaçada. A pequena mão dele segurou a minha, apertando forte.   "Não chore, Mãe." Seu sussurro era cheio de promessa. "Você tem a mim. Vou te fazer feliz."   Levei os dedos dele aos meus lábios, sentindo o gosto de sal e esperança. Não importava se o Kieran nunca me amou. Esse menino incrível me amava, de todo coração, incondicionalmente. E, naquele momento, era o suficiente.   Mais que suficiente.
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