TESSA
Não olhei para trás. Não parei de correr.
Se ele me perseguisse, eu não teria a menor chance. Mas não ia facilitar.
Só quando a falta de ar me obrigou é que ousei espiar. Ninguém. Ele não tinha vindo atrás de mim.
Diminuí o passo até um andar acelerado, saindo do hotel. Esfreguei o peito, tentando acalpar o coração que batia descompassado.
Tudo bem. Tudo vai ficar bem.
Cometi um erro. Fiquei bêbada e tive uma noite com um estranho. Fim do mundo, não é. O lado bom: certamente nunca mais o veria na vida.
Em casa, engoli um café rápido e corri para o trabalho.
Chegando à entrada do prédio, meu celular tocou. Era minha mãe.
“Oi, mãe.”
“Minha querida! Não esqueceu que hoje é o jantar de 60 anos do seu tio Wilson, no Cromwell, né? Você vai, claro.”
“Mãe, não quero ir.”
Se fosse, teria que encarar meu pai e a madrasta. Hoje, não tinha estômago para isso.
“Tessa, pelo amor de Deus. Seu tio e a tia sempre nos ajudaram. O mínimo é fazermos uma aparição”, ela insistiu, com aquele tom que não admitia negação.
Soltei um suspiro. Ela tinha razão. Quando eu tinha dez anos, meu pai traiu minha mãe e nos largou. Se não fosse pela ajuda do tio Wilson, não saberíamos o que teria sido de nós.
“Tá bom. Eu vou.”
“E tenta não arranjar briga com seu pai”, ela avisou.
“Se ele não começar, eu não começo.” Desliguei.
A ferida ainda doía. Lembro dela de joelhos, implorando para ele não ir embora. Ela perdoaria tudo, disse. Mas ele foi. Divorciou-se, levou quase tudo e deixou a nossa vida virada de cabeça para baixo. Perdoar? Jamais.
Entrei no escritório na hora certa e afundei na minha cadeira.
Minha colega (e quase irmã) Audrey se aproximou.
“Nossa, você tá diferente hoje, Tess.”
Franzi a testa. “Diferente como?”
“Desde que o Marcus terminou, você era uma nuvem cinza. Mas hoje… tem um ar aí. O que houve?”
Suspirei. Era difícil esconder algo dela. “Ah, talvez porque eu tive uma noite… digamos, libertadora. Até gastei duzentos dólares num acompanhante para confortar o coração”, brinquei, tentando soar descontraída.
“Sai fora!”, ela deu uma risadinha, achando que era piada.
Era nossa dinâmica. Fazíamos graça de sermos as especialistas em homens, quando, na verdade, éramos duas conservadoras de carteirinha. Por isso a noite passada ainda me assombava. Não tinha nada a ver comigo.
“Ah, o novo chefe assume hoje”, ela anunciou, mudando de assunto.
“E daí?”
“Ouvi dizer que é o herdeiro do Grupo Hudson. Pai é político influente, mãe é CEO. Metade das mulheres da empresa já tá em polvorosa. Deve ser um gostoso.”
Revirei os olhos. “Só espero que não seja mais um daqueles playboys metidos a b***a. Trabalhar para gente burra eu não aguento.”
Nosso supervisor, Ethan, apareceu então. “Reunião geral na sala de conferências, agora!”
Peguei meu bloco e caneta e o segui.
A sala já estava cheia. Sentei-me num canto, tentando passar despercebida.
Mas minha mente voou direto para as primeiras horas da manhã. Para aquele rosto… A expressão de fúria pura quando joguei o dinheiro na cama. Levei a mão à boca para conter um riso nervoso. Talvez tivesse exagerado. Mas aquele olhar de desdém dele… e pensar que ia me pagar como uma garota de programa? A humilhação teria sido pior.
Uma salva de palmas repentina me arrancou do devaneio.
Um homem entrou na sala de conferências. Terno azul-marinho impecável.
E então, eu o vi.
O mundo desabou.
Meu queixo literalmente caiu. O rosto dele se queimou na minha retina.
Não. Não pode ser. Tem algo errado com meus olhos.
Esfreguei-os com força, fechei, abri.
Era ele. O mesmo. Exatamente o mesmo homem.
O desconhecido. A noite maluca. Os duzentos dólares.
Meu Deus.
Para onde eu corro AGORA?