PONTO DE VISTA DE ALEXANDER
Bati o pé direito contra o chão da tenda, o ritmo agudo e agressivo, ecoando a pressão que crescia no meu peito. As vozes ao redor soavam abafadas, como o zumbido monótono de insetos que eu não conseguia espantar. Mais um relatório estratégico. Mais uma lista de números, posições e táticas que eu já havia memorizado antes do amanhecer.
Meu olhar deriva para além deles, para além das paredes de lona e da luz das lanternas, desejando estar em qualquer outro lugar. O silêncio teria sido melhor. Uma espada na mão. Uma luta de treino. Qualquer coisa menos esse desfile interminável de informações. Mas aquilo precisava ser feito. O dever sempre em primeiro lugar.
Esse acampamento, essa guerra, há muito tempo havia se tornado mais do que obrigação — era uma prisão esculpida pelo legado.
Meu pai, o Rei Kyle, nunca teve a intenção de criar um filho. Ele pretendia forjar uma arma. E o fez. Ele me despiu do título, me jogou nessa lama ensanguentada sem nada além de um codinome e um mandato: sobreviver e ascender.
E o fiz. Através de hematomas e surras. Através da humilhação. Conquistei o direito de estar aqui — não pelo meu direito de nascença, mas por ossos quebrados e cálculo frio.
"Comandante," disse Bolton, a voz cortando meus pensamentos. "A fronteira está quase completamente sob nosso controle. Empurramos as forças deles de volta e reconquistamos o terreno que perdemos. O que resta é avançar e tomar o deles."
Olhei lentamente para cima, meu olhar era duro. Algo estava errado. O ambiente exalava isso.
"Então, por que não avançamos?"
Bolton estremeceu, olhou para Cole.
Foi Cole quem falou em seguida, a voz áspera com o peso das más notícias.
"Perdemos o Passo Sul", disse ele. "Fomos emboscados durante a noite. Sem reforços. Não conseguimos manter a nossa posição."
Silêncio.
Então meu punho bateu na mesa com força suficiente para sacudir tudo em cima dela.
A tenda caiu num silêncio atônito.
Me levantei pela metade da cadeira, com um rosnado quase fora de controle. Meu lobo estava à tona, garras prestes a emergir, dentes à mostra.
"Vocês perderam o passo sul?" rosquei, minha voz baixa e afiada como navalha. "Aquele caminho era essencial para toda a nossa estratégia. Como puderam perder algo tão vital?"
Minha voz ecoou pelas paredes de lona, reverberando como trovão. Conseguia sentir o ar mudar, crepitando com minha fúria.
Bolton pigarreou, tentando se recuperar. "Estamos mobilizando uma força para reconquistá-lo—"
Levantei uma mão, silenciando-o.
Então meu celular vibrou.
Uma vibração aguda.
O alcancei, os olhos se estreitando enquanto o nome piscava na tela.
Beta Aaron.
Desbloqueei, preparado para mais uma atualização logística — mas em vez disso, li:
"Bom dia, Comandante Alexander. A Luna Eliza da Alcateia Lua Prateada está se divorciando do Alfa Derek."
Congelei.
As palavras se gravaram no meu cérebro como fogo.
Eliza.
Meu coração tropeçou, depois acelerou.
A tenda desapareceu. A mesa. Os soldados. Tudo sumiu sob o peso do nome dela.
Eliza.
"Comandante?" alguém arriscou.
Não levantei o olhar.
"Consertem o erro," eu disse friamente. "E saiam."
Obedeceram sem questionar. A aba da tenda balançou enquanto saíam. Eu permaneci imóvel.
Minha mente já havia partido para outro lugar.
De volta no tempo.
De volta a quando eu não era nada além de um adolescente desajeitado, jogado no caos desse acampamento de guerra. Um menino acostumado a veludo luxuoso e banquetes reais, subitamente esperado para lutar, suar, sangrar. Os outros haviam rido de mim, zombado de mim, previsto minha morte antes que a semana acabasse.
"Ele é mole demais."
"Vai chorar na primeira vez que ver sangue."
"Nem consegue levantar sua própria espada."
Mas então—ela.
Eliza.
Apenas quatorze anos, e ela era mais imponente do que qualquer soldado. Não em altura, mas em presença. Era fogo envolto em pele. Lâminas em sua voz. E quando zombaram de mim mais uma vez, ela interveio.
"Ele está aprendendo," ela os cortou, o tom sem margem para argumentação. "Pelo menos ele está disposto. Ao contrário de vocês, seus preguiçosos inúteis."
Ela se colocou entre mim e os outros como um escudo. De aparência frágil, talvez. Mas ninguém ousava cruzá-la.
Eles a escutavam.
Ela não era apenas a filha do comandante. Havia nascido para liderar. Criada na batalha. Endurecida por ela.
E eu estava impressionado.
Então veio a luta. Aquela em que pensei que poderia impressioná-la.
Ela me desmontou. Rápida. Precisa. Eu não a havia tocado uma única vez.
Fiquei no chão, olhando para a silhueta dela emoldurada pelo sol nascente — e soube.
Era ela.
A Deusa da Lua devia tê-la criado para mim.
Mas o destino tinha outros planos.
A mãe dela a tirou do acampamento logo depois. Algo sobre preservar o futuro da linhagem deles. Eliza desapareceu, e a guerra me engoliu completamente.
Os anos passaram.
Quando finalmente ressurgi… ela já estava acasalada. Já estava marcada. Já estava tomada por Derek.
Derek.
Só o nome fazia meu lobo rosnar.
Ele chegou como reforço, cheio de arrogância e crueldade. Era habilidoso, sim, mas usava essa habilidade como uma clava — golpeando qualquer um que desafiasse seu ego.
O observei de perto. Queria ver o que Eliza via nele. Mas quanto mais eu observava, mais bile subia na minha garganta.
Ele não era digno.
E quando soube que ele a havia traído — quando rumores me chegaram de outra mulher, outra cama — enxerguei vermelho.
Quase o matei.
A única coisa que me deteve foi o peso do comando.
Mas eu não havia esquecido. Nunca esqueceria.
E agora…
Agora ela estava livre.
Cerrei os dentes. Meu pulso acelerou.
Aquilo não era apenas uma notícia. Era o destino corrigindo seu erro.
Uma segunda chance.
Não a desperdiçaria.
Dessa vez não hesitaria. Não ficaria de lado enquanto outro tomava a mão dela. Não seria o protetor silencioso escondido atrás do dever.
Eu a protegeria.
Lutaria por ela.
A reivindicaria.
Meu lobo rosnou em aprovação, se contorcendo sob minha pele.
Eliza nunca sofreria de novo.
Não enquanto eu respirasse.
Não enquanto eu vivesse.
Ela seria protegida.
Seria adorada.
Seria minha.