Capítulo 5

1422 Palavras
  Perspectiva da Scarlett   O Carson me arrastou com rudeza para fora da enfermaria da alcateia. Os membros viram a cena — mas nenhum teve a coragem de falar em minha defesa. Nem mesmo aqueles que antes pertenciam à alcateia do meu pai.   Ao chegar à mansão principal, percebi imediatamente que algo tinha mudado.   A fachada se mantinha imponente e luxuosa como sempre, mas, por dentro, todo o calor tinha desaparecido. As empregadas que costumavam me saudar com sorrisos radiantes estavam ausentes — apenas a Ruby permanecia, parada na porta, com o rosto pálido e as mãos apertadas.   Ela me olhou com compaixão nos olhos.   O Alexander tinha deixado a sua decisão clara. A autoridade dele pesava mais do que a minha. Eu não podia culpá-las. Me culpava a mim mesma — por ter sido tão facilmente enganada desde o início.   O Carson me empurrou para dentro e bateu a porta com força, me fitando com frieza.   "Ouça bem, Scarlett," a voz dele estava carregada de ameaça e indiferença. "Ordens do Alexander: você não pode sair da residência do Alfa. Os seus movimentos estão restritos a esta casa. E mantenha-se longe da Faye. Nada de confusões."   Soltei uma risada amarga. "Você acha que tem o direito de me dar ordens?"   Um sorriso sombrio se espalhou pelo rosto do Carson. Ele se inclinou de repente, deixando os dedos roçarem os meus lábios com um desrespeito flagrante. O tom se tornou sarcástico, quase provocador. "É melhor você se comportar bem, Scarlett. Já não é uma Luna nobre."   A fúria explodiu dentro de mim. Dei-lhe uma bofetada forte, o som ecoou pela sala. "Lembre-se do seu lugar, Carson! Ainda sou a Luna! Tente isso outra vez e eu juro que você vai se arrepender!"   O rosto dele ficou vermelho como um tomate, um lampejo de raiva nos olhos. "Scarlett, eu vou estar à sua espera — na fronteira da alcateia."   Ele saiu furioso, a porta batendo atrás dele como um tiro.   O silêncio voltou.   Deitei-me na cama, consumida por uma tempestade de raiva e humilhação. Se era para me degradarem assim, podiam muito bem me jogar nas masmorras e me deixar apodrecer.   As horas passaram.   Me encolhi na beirada da cama, os dedos dormentes traçando a borda de uma almofada de seda. A minha pequena loba, a Kara, estava em silêncio desde que tínhamos saído do hospital. Me convenci de que ela estava apenas descansando. Que precisava de tempo — tal como eu.   Mas, à medida que a noite se aproximava, algo parecia errado.   Kara? Me conectei internamente através do nosso laço mental. Preciso de você.   Silêncio.   Frio. Vazio.   O meu coração disparou em pânico. Tentei de novo, mergulhando mais fundo na minha alma, à procura desesperada de qualquer sinal da sua presença.   Kara, por favor…   Nada.   Era como perder um m****o do corpo. Não — era pior. Como perder a última parte de mim que ainda acreditava que poderia sobreviver a este pesadelo. A sua ausência reverberava nos meus ossos e, pela primeira vez, me senti verdadeiramente, completamente sozinha.   A traição do Alexander não tinha partido apenas o meu coração — tinha rompido a ligação entre a minha humanidade e a minha loba. O silêncio da Kara não era uma escolha dela. Era um castigo da própria Deusa da Lua.   Lágrimas surgiram nos meus olhos, quentes e amargas, implacáveis.   "Não faça isso," disse a Ruby suavemente, se ajoelhando à minha frente. A mão calejada dela afastou uma mecha de cabelo do meu rosto. "Você é mais forte do que isto. Eu sei que é."   O toque dela era gentil, mas a voz, firme. Constante. Confiança, quando eu não tinha nenhuma sobrando.   Um soluço aflorou a minha garganta. "Ela se foi embora, Ruby. A Kara… ela simplesmente… se foi."   A tristeza brilhou nos olhos da Ruby, mas ela não recuou. "Então, vamos encontrá-la. Juntas. Você não está sozinha, querida. Não enquanto eu estiver respirando."   As palavras dela tocaram algo profundo dentro de mim. A dor não desapareceu — mas suavizou. A lealdade da Ruby me envolveu como um cobertor, tecido de confiança silenciosa e de todas as noites em claro que passamos sussurrando no escuro. Ela não era apenas uma empregada. Era minha amiga. Num mundo que me traíra, ela era o meu único porto seguro.   Eu precisava sair. Precisava de um plano. Se continuasse ali, acabaria me tornando um fantasma usando uma coroa de memórias.   Mas ainda não. Não até me agarrar a um último fio de esperança.   Não até perceber que não estava completamente sozinha.   Depois de me certificar de que a Ruby não estava olhando, me esgueirei até à parte mais profunda do guarda-roupa — onde as empregadas nunca limpavam. Ali, escondido sob um fundo falso numa velha caixa de recordações, estava a minha arma secreta: um telefone celular descartável preto que eu guardara dois anos antes, durante um exercício de segurança.   Graças à Deusa da Lua, não o tinha jogado fora.   A bateria estava pela metade. O sinal era fraco — mas utilizável.   Marquei o único número que decorara. A única pessoa que nunca me desligaria a ligação.   "Kathleen?" A minha voz saiu rouca no instante em que ouvi o clique.   "Scarlett?" A voz dela transparecia confusão, depois alarme. "Você está bem? De onde está ligando? Este número —"   "Não tenho muito tempo," interrompi, andando de um lado para o outro como uma leoa enjaulada. "Preciso da sua ajuda. Estou sendo mantida aqui. O Alexander quer me afastar da alcateia."   "O quê?!"   "Ele tirou-me tudo — a minha liberdade, o meu título, a minha loba. Trouxe de volta o seu verdadeiro amor, e ela está à espera do filho dele." A minha voz tremeu. "A Kara se foi embora, Kathleen. Já não consigo senti-la."   "Oh, minha deusa…" suspirou ela. "O que precisa que eu faça?"   "O Lucien," eu disse rapidamente. "Você pode falar com o seu irmão? Ele faz parte do conselho. Talvez ele me possa ajudar. Talvez haja uma maneira de quebrar o vínculo sem perder o meu título —"   "Você quer se divorciar do Alexander?"   Hesitei. Mas os últimos dias se repetiram na minha mente como um filme em chamas, e me lembrei a mim mesma — quando um homem tenta roubar a sua voz e tudo o que você representa, ele nunca a pertenceu.   Então, anuí. "Sim. Quero sair."   Ela ficou em silêncio por um momento, depois suspirou. "Está bem. Vou falar com o Lucien. Mas, Scarlett… o conselho é implacável. Mesmo com a influência dele, isto não vai ser fácil."   "Não procuro facilidade. Procuro possibilidade."   "Vou tratar de alguns preparativos. Mas você vai ter de se manter quieta. O Alexander tem ouvidos em todo o lado."   "Eu sei."   Depois de ela desligar, sentei-me no chão, encostada ao armário, o olhar vazio. A Kathleen sempre fora a minha melhor amiga. Ela conhecia os meus lados mais sombrios — a minha ambição, o meu orgulho, os anos que passei tentando provar o meu valor. Ela também sabia da minha paixão secreta pelo Lucien.   O Lucien, com os seus olhos prateados e uma aura intocável. Sempre composto. Sempre majestoso. Era três anos mais velho do que eu, e, quando eu era uma adolescente magricela sonhando com a minha primeira transformação, o lobo dele já era formidável. Lembro-me de observá-lo durante as visitas ao conselho. Cada vez que ele olhava na minha direção, o meu coração disparava. Claro, ele nunca reparou verdadeiramente em mim — não da maneira que eu desejava.   Mas já não era uma garotinha. Era a Luna da Lua Crescente. Uma mulher traída. Uma prisioneira. Uma mulher sem nada a perder.   Se alguém conseguia desfazer este nó — era o Lucien.   A Ruby bateu suavemente à minha porta. "Luna, o seu chá…"   Me apressei a esconder o celular e levantei-me. "Deixe à porta, Ruby. Preciso descansar."   "Sim, Luna."   Os passos dela se afastaram. Só quando ouvi o clique distante de uma porta se fechando, voltei a respirar.   Caminhei lentamente, tentando acalmar o coração acelerado.   A cada passo, as paredes do quarto pareciam se fechar. O lustre acima balançava ligeiramente, mas o ar permanecia parado. Fechei os olhos, buscando força nas memórias.   A voz do meu pai. O cheiro das florestas cobertas de neve. As primeiras palavras da Kara para mim, durante as minhas patrulhas.   Era tudo o que tinha agora.   Porque ali, naquela prisão adornada disfarçada de palácio, eu não tinha amigos. Nem voz. Nem loba.   Mas havia um fogo queimando dentro de mim.   E eu usaria esse fogo para reduzir as mentiras do Alexander a cinzas.
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