Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Eva
O vento frio me fazia tremer enquanto eu caminhava pelas ruas da cidade, mas nada podia se comparar com o frio glacial que eu sentia no meu coração.
As palavras do médico ainda ecoavam nos meus ouvidos, mesmo eu estando longe do hospital.
Grávida. Eu estava grávida.
Como eu ia lidar com isso? Faziam seis meses desde que eu tinha me formado na faculdade. Eu não tinha trabalho, nem experiência profissional e, o mais importante, Viktor, o amor da minha vida, estava...
Eu parei de repente. Ainda estava perdida nos meus pensamentos, mas não o suficiente para passar batido pelo prédio que eu chamava de lar. Pelo menos, costumava ser.
Era tarde, mas eu tinha certeza de que Viktor não ia se importar, se é que ele estava lá.
Eu sabia que minha ansiedade não seria tão forte se não fosse pela atitude constante dele e pela negligência comigo. Toda vez que eu tentava me aproximar, ele partia para cima de mim, violento, me insultando e quebrando coisas ao meu redor. Doía demais pensar nisso. Então eu deixei para lá, mesmo que doesse. A partir daí, o lar que a gente compartilhava virou uma casa fria. Ele nunca estava lá, e se estava, nunca ficava muito tempo. Quando estava, só tinha palavras cruéis e olhares gelados.
Por quê?
Eu não conseguia entender como ele podia mudar tão de repente. O homem dos meus sonhos, que eu nunca achei que existisse, agora me olhava como se eu fosse uma estranha. O homem que jurou me amar, me enchendo de devoção, agora de repente me olhava com olhos que pareciam me odiar.
O que aconteceu para ele mudar?
Por mais que eu perguntasse, ele nunca me dava uma resposta.
Se ele não estivesse lá dentro, eu ia ter que achar um jeito de contar para ele. Não importava se ele ficasse com raiva de mim por invadir a privacidade dele.
Talvez... depois de ouvir a notícia, ele finalmente me desse uma explicação.
Eu fiz check-in quando cheguei ao último andar do prédio onde ficava a cobertura dele. Enquanto digitava o código de acesso ao andar, eu congelei ao ouvir um barulho abafado.
Meu coração deu um pulo. Eu tinha ouvido direito? Não, tinha que ser um erro.
Mas o som se repetiu, e foi como se tivessem jogado um balde de água gelada em cima de mim. Não tinha erro. Era um gemido que vinha do outro lado da porta.
A porta do nosso apartamento, onde só ele e eu sabíamos o código de acesso.
Senti as pernas dormentes. Digitei o resto do código com os dedos trêmulos, minha incredulidade se misturando com o peso esmagador do medo.
Não. Isso não podia estar acontecendo.
Abri a porta e meu coração afundou sob o peso, se partindo por completo.
No nosso sofá, o mesmo sofá onde a gente costumava se aconchegar, ver filmes e f********r, ele estava sentado com a camisa desabotoada e as calças abaixadas até os joelhos.
E no colo dele, uma mulher nua gemia, rebolando com fervor.
Ele estava me traindo. Na nossa casa, ele estava fodendo outra pessoa.
E não era qualquer uma. As lágrimas brotaram dos meus olhos, ardendo ao ver o cabelo loiro familiar e a pele branca como leite. Eu ainda conseguia ver o contorno do rosto dela através do cabelo.
Era Brienne. Minha melhor amiga.
— Quer mais, bebê? — gemeu ele.
— Sim. Me dá, Vik. Ai, sim, Vik. — Os gemidos dela eram altos.
Eles não pararam. Era como se eu nem estivesse ali.
Minhas pernas fraquejaram e eu tropecei, me segurando na parede para manter o equilíbrio. O quarto logo ficou em silêncio e os dois viraram a cabeça na minha direção. Meu coração batia forte no peito enquanto eu encarava as duas pessoas que tinham me traído.
Eu não sabia o que esperar. Arrependimento, talvez?
Mas então, o que ele fez em seguida me pegou de surpresa.
— Bem-vinda. Gostou do show? — Ele sorriu imediatamente depois de falar.
Eu estremeci. Dessa vez não consegui segurar as lágrimas, que escorreram livres pelo meu rosto.
— Viktor... Brienne — Eu m*l conseguia pensar.
Ele se levantou, sem se importar em estar seminu, e puxou as calças para cima. Não parecia arrependido nem um pouco.
— Por que tá tão surpresa? Não é nada que você já não tenha feito antes — Ele me olhou com raiva.
Eu recuei na hora. O que ele queria dizer com isso?
Uma risadinha me fez parar de repente.
— Bom, Eva, a casa caiu. Não preciso mais fingir que a gente é amiga — disse ela com uma risadinha convencida.
— Você era minha melhor amiga! — gritei.
— Por favor — disse ela, revirando os olhos — achou mesmo que era verdade? Eu nunca me rebaixaria a ser amiga de alguém como você.
As palavras dela me fizeram estremecer. Eu tinha plena consciência da diferença entre a gente. Eu não vinha de uma família rica nem tinha pais amorosos como elas. Eu tinha me criado sozinha do nada e entrado na faculdade com bolsas de estudo pelas quais eu tinha ralado muito. Eu estava longe de ser rica.
Mas quando eu as conheci, elas foram muito acolhedoras e disseram que isso não importava, especialmente ele.
Me virei para Viktor, o homem que eu amava. Ele nunca tinha aceitado um insulto desses antes; sempre me defendia.
Mas agora ele não fez nada disso. Em vez disso, sorriu com sarcasmo.
— Uma pobre coitada, caso de caridade — disse ele.
Aquilo foi a gota d’água e partiu meu coração em mil pedaços.
As palavras que estavam presas na minha garganta sumiram por completo. Eu m*l percebi que tinha gente entrando até sentir mãos me agarrando pelo braço.
— O que tá acontecendo? — Olhei em volta e vi dois seguranças do meu lado. Como eu não tinha visto?
Me virei para Viktor e vi que ele tinha o olhar fixo nos dois homens, sem demonstrar surpresa nenhuma.
— Joguem ela na rua — disse ele, me deixando chocada antes de voltar o olhar para mim.
— E nem pense em voltar aqui. Vou mudar o código de acesso para você não conseguir — acrescentou, rindo.
Meu coração desabou ainda mais sob o olhar impiedoso dele.
— Como você pôde fazer isso comigo? — gritei.
— Sabe, você parece tão bonita e inocente com essa cara, mas eu te conheço bem. — Ele levantou meu queixo e me puxou para perto com um sorriso debochado no rosto.
— Você não passa de uma v***a interesseira e golpista. O único lugar que você merece é a favela. Volta pro lugar de onde você veio. Não me importo se você morrer na rua. Mas nunca mais apareça na minha frente — cuspiu.
Ele se virou e os seguranças me arrastaram para trás. A última coisa que eu vi foi ele beijando a Brienne.
Me senti dormente. Tudo que aconteceu depois foi um borrão, já que me tiraram à força do lugar que eu chamava de lar e me largaram na rua. Empurrada para porta, eu tropecei.
Mal consegui evitar cair enquanto eu desabava na rua vazia. As lágrimas brotavam incontroláveis dos meus olhos enquanto as palavras dele ecoavam na minha mente.
Ao lembrar do último olhar que ele me deu, eu não vi nada além de ódio.
‘Uma v***a interesseira.’ Foi assim que ele me chamou.
Como ele pôde fazer isso?
Eu nunca pedi nada para ele e sempre tentava devolver os presentes dele. Eu sempre tentei ser autossuficiente, por mais que ele fosse contra.
Mas era isso que eu era para ele. Ele me chamou de v***a, mesmo eu tendo sido fiel e sendo ele quem me traiu.
Era assim que ele realmente era? Os anos que passamos juntos, nosso amor, eram só uma mentira?
Eu nem disse para ele que estava grávida.
Não sei quanto tempo passou quando finalmente senti frio. Sequei as lágrimas e me levantei com as pernas trêmulas.
O que eu ia fazer agora?
Eu não tinha onde ficar. Quando ainda estava na faculdade, Viktor tinha insistido para eu morar com ele na cobertura dele. Depois de me formar, a situação continuou igual, e por mais que eu garantisse que sairia assim que arrumasse um trabalho, ele dizia que não tinha pressa.
— Sua casa é a minha casa — ele costumava dizer.
Agora eu não tinha nada. Nem trabalho, nem dinheiro, nada.
E agora eu não tinha só que cuidar de mim.
Acariciei minha barriga, onde descansava meu filho que ainda não nasceu. De repente, uma urgência me invadiu e eu fechei os olhos com determinação.
Nada disso importava agora. Eu tinha me criado sozinha, sem a ajuda dos meus pais, para chegar onde estava, e ia ter que fazer isso de novo. Eu tinha que continuar vivendo e lutando pelo bem do meu filho. Eu daria para ele tudo que ele precisasse e seria a mãe que eu nunca tive.
Me abraçando para me proteger do frio, me afastei do prédio que guardava os pedaços destruídos do meu coração. A determinação cresceu dentro de mim.
Eu nunca mais voltaria praquele lugar.