Arrependimento

1138 Palavras
PRESENTE (Mesma noite da Reunião) Tristan Gemi contra as luzes quentes que me cegavam. Até a música baixa machucava meus ouvidos. Uma névoa borrada tomava conta. A única coisa que eu conseguia processar direito era o som da música do bar e o ardor do álcool arranhando minha garganta. Se fosse um humano normal com a quantidade que eu havia tomado, já teria desmaiado. Mas eu não era humano. Rangei os dentes e tomei outro gole de uísque puro do copo. Eu não suportava a ideia de ficar naquela alcateia por mais tempo. Não com as palavras dela me assombrando. Apesar do custo que eu sabia que nossa alcateia poderia arcar, ordenei que nos mudássemos e reservei todos os quartos disponíveis no hotel luxuoso. m*l consegui olhar para qualquer um deles antes de seguir para o bar. Alyn, que por algum motivo eu não suportava mais, mas não entendia completamente o porquê, e eu não me importava. Não depois de vê-la de novo e ouvir aquelas palavras dos lábios dela. O bebê… nosso bebê, se foi. Suas palavras me atingiram com força. Um pensamento t**o e breve veio à mente: que ela havia feito algo. Mas descartei rapidamente, até me odiando por imaginar isso em primeiro lugar. ‘Valerie não faria isso.’ O pensamento veio em defesa, uma ironia afiada e amarga para todas as vezes em que eu teimosamente acreditei no contrário. Só podia significar uma coisa. Ela perdeu o bebê. Foi durante a jornada até aqui? Ela enfrentou algum problema que causou isso? Como ela estava se sentindo nesse momento? Uma dor oca me sufocava por dentro. Como eu podia lamentar por alguém que nunca vi? Alguém que, menos de um mês atrás, eu nem sabia que existia. ‘É mais do que isso e você sabe.’ O pensamento amargo me fez tomar outro gole de uísque. Ela confirmou meus pensamentos, primeiro com o choque e depois com as palavras. Dor floresceu em mim enquanto ela explicava como viu tudo nos olhos dela. Como viu a si mesma, como nós a tratamos e como morreu sozinha, sem ser valorizada. ‘Isso não é verdade’, quis argumentar, mas não podia quando não sabia o que aconteceu depois. A memória da vida passada terminava com a morte dela e as palavras do médico da alcateia. Vendo como eu a tratei, como eu costumava tratá-la, não sabia se seria verdade ou mentira. Uma risada sem graça escapou de mim. No final, tudo voltava para nós e tudo o que fizemos com ela. Ela fugiu para recomeçar e, para fazer isso, teve que deixar a alcateia. Me deixar. ‘Você nunca a valorizou mesmo’, pensei para mim mesmo com desprezo, e era verdade. Nunca a valorizei até que fosse tarde demais. A partida dela abriu meus olhos para como eu a tratava, as coisas que não via. A memória da minha vida passada me mostrou o que eu havia perdido de verdade. Mas era tarde demais. Ela se foi, vivendo sua vida. Uma segunda chance para consertar a vida dela e ser feliz, e sem laços ela nunca ia querer voltar. — Alistair. A forma suave como ela chamou o nome dele enviou outra pontada de dor através de mim. Ele era o responsável pela morte dela na vida passada, mas ela encontrou segurança na alcateia dele. Ela preferiria ficar na alcateia que a matou só para evitar a nossa? Bufei, autodepreciativo. Eu estava sendo injusto. Alistair atacou por causa das ações que eu permiti e deixei piorar. Ele mirou em mim, não nela. Mas ela me protegeu até o fim. Em comparação, eu aticei ativamente as chamas que voltaram para morder, ignorando teimosamente as sugestões dela para a paz. Eu a menosprezei durante todo o nosso tempo juntos. Eu e a alcateia éramos mais do que responsáveis pela morte dela em comparação a ele. A memória recente de vê-los caminhando juntos tão próximos estava queimada na minha mente. Ela estava tão à v*****e com ele? Eles eram próximos? Eu nunca saberia e não cabia a mim descobrir. As palavras de Alistair pairavam amargas e verdadeiras. Eu não era mais o companheiro dela. Dor do laço de companheiro rompido me perfurava até os ossos. Apesar da névoa, engoli outro copo de uísque para aliviar a dor. Obviamente não funcionou. Se eu tivesse aprendido a lição mais cedo, será que conseguiria mudar as coisas? Essa era a melhor opção? ‘Talvez.’ Pensei. Ela estava feliz agora, e eu não percebi o que tinha até perder. Bati o copo vazio levemente ao lado do pagamento pelas bebidas. Levantei-me, deixando a onda de náusea e tontura me atravessar, me fazendo tropeçar. Sabia que havia bebido demais. Tudo virou um borrão enquanto eu tropeçava para fora do bar do hotel para voltar. Eu estava indo na direção certa? Não sabia. Os corredores estavam inclinados para o lado enquanto eu saía, procurando pelos números. — 205 — murmurei quando os números vieram à mente. Pelo menos ainda me lembrava do número do meu quarto. Tinha certeza de que cheguei ao meu andar quando a visão cegante dos indicadores de quarto me ofuscou. Eu estava aqui. Só precisava passar por mais alguns quartos. Mais alguns passos… — Tristan? Uma voz perfurou minha névoa. Meu olhar se ergueu para encontrar um rosto se aproximando. Tudo era um borrão, mas aquele cabelo loiro platinado… — Valerie? — murmurei em voz alta. Como ela estava aqui? Era impossível. O cabelo dela parecia levemente tingido pelas luzes, mas ainda assim… Escuridão rastejou pela minha visão. Uma sensação de leveza me preencheu e estendi a mão para ela em busca de ajuda. — Valerie… — Tristan… Essas foram as últimas palavras que ouvi antes de sucumbir à escuridão. … Dor aguda encheu meus olhos enquanto os ergui. Luz cegante invadiu meus sentidos. Lembrei-me de ficar bêbado… tentando voltar para o quarto e… Valerie. Valerie? — Tristan? Um sobressalto me atravessou e virei para o lado horrorizado. Pensei ter reconhecido o cabelo loiro platinado, mas parecia vastamente diferente, um tom amarelado descolorido. Era só o truque das luzes, mas a diferença era suficiente para me horrorizar. Essa não era Valerie. Alyn sorriu, o rosto corado com o resto do corpo coberto pelos lençóis. Isso fez um nó se revirar no meu estômago. — Tenho certeza… que não era assim que eu esperava que essa noite fosse — sorriu ela timidamente. A noite? O quê- Congelei ao olhar para baixo, a realização me invadindo por completo. Eu estava nu e ela bem ao meu lado. O que significava… ‘Não…’ Meu sangue gelou. Agora eu realmente sentia v*****e de vomitar. Alyn não pareceu notar, se inclinando contra mim. Eu permaneci congelado no tempo. Apesar da dor e do torpor da ressaca. Não sentia nada além de uma mistura de pavor e arrependimento.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR