Tristan
Não percebi como me movi ou como consegui chegar lá a tempo. No momento em que vi o clique do gatilho, tudo pareceu um borrão. Então veio o tiro e depois…
Dor.
Era como uma experiência fora do corpo. Sentia a bala alojada no meu corpo, mas ao mesmo tempo tudo estava completamente entorpecido. Não processei totalmente até ver a mancha vermelha nas mãos e no vestido de Valerie.
‘Valerie,’
Era tudo em que conseguia pensar.
Encarar seus olhos cheios de lágrimas e seu olhar abatido fazia meu coração doer. Pela primeira vez eu tinha esperança de que estávamos chegando a algum lugar, não importava quanto tempo levasse, só para isso acontecer. Um tiro e Valerie mais uma vez, exceto que dessa vez eu estava no lugar dela.
Chame de déjà vu, karma ou o senso de humor doentio do universo. Nesse momento, não importava qual era qual. Eu tomaria a mesma decisão de novo e de novo.
Se eu ia morrer salvando a vida dela como ela salvou a minha uma vez, então valia a pena.
Enquanto a escuridão se aproximava, lutei para deixar as palavras saírem da minha boca. Se essa fosse a última vez que a veria, então precisava dizer a ela… dizer que eu a am-
Como tudo o que eu fiz, era tarde demais. A escuridão tomou conta e fiquei sem peso.
Esperava perder todo senso de mim mesmo, não sentir nada, mas ainda conseguia me ouvir. Era assim que era o além-vida?
De repente, a escuridão se materializou em outra coisa. Paredes, cores encheram minha visão. O reflexo de um homem através dos meus olhos, sentado sozinho em um escritório. Não demorei muito para reconhecer.
Era eu mesmo. Não. Era eu da minha vida passada.
Isso era muito mais vívido que um sonho. Conseguia sentir tudo. Ver tudo.
De repente, afundei fundo, todos os pensamentos do presente esquecidos.
Sentado sozinho no escritório, segurei o copo de uísque com força, o cheiro metálico ainda fresco na mente. O corpo dela, segurado pela empregada. Arrastando Alyn para longe. Avistando, mesmo através da comoção, a forma fraca como seu braço se ergue, tremendo na minha direção antes de falhar.
A declaração fria ainda presente seguida pelas palavras do médico, repetidas em um mantra insuportável.
Valerie se foi. Morta. E nosso filho também.
Por que ela se sacrificou? Como escondeu a gravidez? Por que me sentia tão estranho e vazio com isso?
Era minha culpa. O assassino foi capturado e a Alcateia da Lua Sombria era a culpada. Se eu tivesse mitigado isso melhor, as coisas não seriam assim.
‘Se você tivesse ouvido ela.’ Uma voz traiçoeira que soava como a dela se infiltrou na minha mente e ainda assim a dor s***a recomeçou.
Mas era tarde demais, ela se foi. Nunca a quis como companheira, mas isso…
‘Culpa.’ Raciocinei. Culpa por vê-la morrer… pelo bebê que não percebi que ela carregava.
Porque eu era o motivo.
O funeral foi realizado. Duas semanas de luto e a vida continuou.
Tudo mudou.
A carga de trabalho era uma coisa com que eu tinha que lutar, uma que me fazia questionar tudo o que sabia. Ainda assim, foi a coisa mais inesperada que foi o ponto de ruptura.
Uma xícara de café.
Todo dia era entregue pontualmente, fosse de manhã ou à noite. Quando finalmente confrontei os servos, no entanto, eles não tinham ideia e isso levava a uma única conclusão.
Valerie.
De repente era como abrir uma caixa de Pandora. Com essa pequena realização, todas as outras coisas começaram a vir à tona. Deveres que nem sabia que existiam. Doações e trabalhos que não sabia nada, tudo graças a ela.
E ninguém da alcateia sabia, nem mesmo meus sogros.
Todos os esforços, o trabalho que ela fazia, assim como sua gravidez, permaneceram escondidos até agora.
Por quê? Por que só agora eu estava vendo isso?
Dissecando seus livros para reaprender todas as novas tarefas era algo novo. Não deveria, mas quem estava lá para impedir os mortos?
Esse talvez tenha sido o ponto de ruptura. Ler seu diário me dilacerou por dentro, me enchendo de dor visceral. A entrada final, escrita vários meses atrás antes de ser prontamente abandonada… estava exposta.
‘Não sei quanto tempo mais vou aguentar isso. Não há sentido em escrever, da mesma forma que não há sentido em implorar por amor. Ele nunca veria, e eles também não. Este diário permaneceria como todas as outras partes de mim, esquecido e abandonado.’
Um sentimento engasgado se afundou em mim. Não ousei olhar de novo. Ainda assim, isso junto com o resto dos livros dela foram guardados profundamente nos confins do meu escritório.
O tempo passou. Não houve mais tentativas de assassinato, mas a tensão crescia e era só uma questão de tempo antes que a Alcateia da Lua Sombria fizesse um movimento. Uma crescente fadiga enchia meu ser a cada dia que passava.
A alcateia, meus sogros e até Alyn me encorajavam a seguir em frente e encontrar uma nova Luna, para assegurar a linhagem se não por mais nada. Quase parecia uma jogada estratégica genuína, mas tudo mudou quando ouvi os rumores por acaso.
Não acreditei de início, mas era claro o que pensavam dela.
Na morte ela era falada com tanto desrespeito, e na vida?
Vi vermelho. Puni-os sem pensar, mas o olhar nos olhos deles provavelmente era a pior parte. Pareciam confusos, como se não entendessem o porquê. Como se eu pensasse da mesma forma que eles.
‘Não pensava?’
Gemi, abraçando a queimação na garganta. Não sabia como cheguei aqui, bebendo como um marinheiro no quarto de uma mulher morta. Não conseguia lembrar como ou por que saí do escritório para ir ao quarto dela, mas lembrava de abrir a porta e encontrar alguém saindo, uma mulher que lembrava como a empregada de Valerie.
Lena? Não, Mina. Esse era o nome dela.
Suas bochechas estavam afundadas, olhos vazios e vermelhos de lágrimas. Ainda assim, quando me olhou, o olhar era tão feroz que fiquei sóbrio.
— A Luna Valerie sempre quis o melhor para todos nós. Para você. Ela l…
Ela não terminou a frase antes de balançar a cabeça. Quando me olhou de novo, seus olhos eram amargos com resignação vazia.
— Espero que esteja feliz — sussurrou antes de se afastar.
Suas palavras me atingiram duramente, circulando na minha mente enquanto entrava no quarto. O que deveria ser empoeirado e abandonado permanecia limpo, o que explicava sua presença. Isso só fazia suas palavras ecoarem mais alto.
Uma empregada sabia mais dela do que eu. Sem dúvida sentia o mesmo sobre a alcateia, sobre como a tratavam. Sobre como eu a tratava.
Da leve hesitação da alcateia aos insultos públicos feitos durante nossa festa de aniversário. Estava claro o tempo todo, mas eu estava focado demais em outras coisas, especialmente Alyn, para realmente me importar.
Ver sua dor, seus esforços…
Seu amor.
Memórias piscaram pela minha mente, de todos os argumentos. A memória gelada do corpo ensanguentado dela caído e seus braços falhando trouxe uma realização gelada. Ela estava se estendendo para mim.
‘Ela me amava.’
Não estava se estendendo o tempo todo? Não só com as mãos, mas com os olhos. Com cada argumento sobre as acusações que eu jogava nela. Com as sugestões que fazia com a Alcateia da Lua Sombria. Com cada defesa que criava até as palavras de todos os outros a afogarem.
Com como cuidava de todos, seus pais, a alcateia, os servos, eu. E eu não via. Não percebia até agora.
Todas essas revelações eram segredo, ou eu permaneci ignorante?
Lágrimas quentes escorregavam por mim como areia. Um soluço se acumulando na garganta. De repente tudo desabou sobre mim.
Culpa. Vergonha. Arrependimento.
Quebrei.
Soluços me sacudiram de repente, como uma montanha desmoronando e colidindo comigo.
Eu era verdadeiramente escória. Aproveitei da bondade dela enquanto me iludia contra ela. Ataquei-a e maltratei-a, assisti todos os outros maltratá-la.
Ainda assim ela resistiu. Mesmo nos últimos momentos dela…
Gritos surgiram aos meus ouvidos, quase animalísticos pelo som. Levou-me engasgar para perceber que era minha voz gritando alto.
Ela me amava e permaneci cego até agora e era tarde demais.
Ela se foi.
O que eu fiz?
…
Não sabia quanto tempo passei bebendo e chorando antes de virar um borrão e afundar na escuridão. Voltando à realidade, ainda em transe, percebi que não estava mais sozinho.
— Tristan… — uma voz ecoou. Olhando para cima, a dor faiscou com a visão de cabelo platinado claro, mas era o tom errado.
Alyn?
— Você não precisa ficar triste com nada. Se… se algum dia precisar de alguém para estar ao seu lado. Estou aqui.
Um cheiro doce enjoativo que reconhecia se aproximou e meu estômago apertou em náusea.
— A verdade é que me apaixonei por você há muito tempo. Nós éramos feitos um para o outro. Ela atrapalhou, mas agora? Agora podemos ficar juntos.
Ela se inclinou, seus lábios roçando os meus e finalmente ganhei força no meu transe bêbado para afastá-la. A visão do rosto traído e choroso dela sempre me acalmava para agir, mas dessa vez só sentia nojo.
O que ela estava fazendo?
— Saia — estalei.
— Você não pode estar falando sério. Não pode me tratar assim. E nós? Agora que Valerie saiu do caminho podemos ficar juntos? Você nunca gostou dela mesmo, então por que está agindo assim agora? — protestou Alyn.
Parecia que era a primeira vez que a via. Aquelas palavras cruéis, como quase se aproveitou do meu estado bêbado, ela parecia longe de remorso.
‘Quem diabos era essa Alyn?’
Raiva borbulhava dentro de mim, mas a parte de mim que constantemente queria protegê-la me forçou a recuar.
— Saia agora, Alyn. Antes que eu perca a paciência — cuspi.