Valerie
‘Eu deveria esperar isso.’ Foi meu primeiro pensamento ao encontrar os dois.
Havia tantas perguntas que vinham à minha cabeça, uma delas sendo como sabiam que eu estava aqui?
Isso não era difícil de responder, mesmo que meu engajamento com o mundo exterior fosse limitado, teria vazado de alguma forma, seja pela alcateia ou pelos servos. Sem mencionar que meu desmaio foi público também.
Veio a outra pergunta.
Por que queriam me ver?
Quaisquer palavras que pudesse dizer foram engasgadas no meu estado atordoado.
Minha mãe e meu pai se aproximaram. De perto, os olhos da minha mãe brilhavam com lágrimas. Parecia que ela havia chorado antes.
Ela esteve chorando? Algo no meu peito apertou ao ver.
Um sentimento há muito carregado me invadiu para estender a mão para ela e abraçá-la, confortá-la de uma forma que sempre desejei.
E então ela falou.
— Valerie, por que fez isso com Alyn? — chorou minha mãe.
Como um banho gelado, fui trazida rudemente de volta à realidade.
‘Claro’, ri para mim mesma por dentro. Mesmo agora, era tudo sobre Alyn para eles.
O sentimento suave de antes se dissipou instantaneamente, substituído por uma sensação de afundamento.
Essa era a primeira vez que falava com eles em meses, o curto encontro na cerimônia de acasalamento à parte, e isso era a primeira coisa que diziam.
— O que eu fiz? — perguntei.
— Não se faça de boba — estalou meu pai. — Você humilhou sua irmã na cerimônia de acasalamento dela, nada menos. Como ousa agir tão nonchalante agora-
— Jude- — minha mãe cortou meu pai antes de virar para mim.
— Alyn cometeu um erro. Foi um grande, ter feito algo tão… grave — disse ela, balançando a cabeça antes de pousar os olhos em mim.
— Mas isso poderia ter sido resolvido facilmente em particular. Agora Alyn não consegue mostrar o rosto. Ela está inconsolável e a alcateia a critica. Se… se esse assunto fosse resolvido em particular, as coisas não seriam assim. Tudo o que levaria era resolver isso em particular em vez de na frente de toda a alcateia na cerimônia.
Recuei com as palavras dela. Não importava o quão gentilmente tentasse soar nesse momento, conseguia ver através. A acusação, a repreensão velada.
Ao longo do fim, sempre iam me culpar de uma forma ou de outra.
Minha mãe estendeu a mão para segurar as minhas. Era a primeira vez em muito tempo que ela me tocava.
Precisei de tudo em mim para não puxar para longe.
— É por isso que viemos, para que você conserte as coisas — sorriu ela, uma mistura de súplica e uma demanda escondida.
— Fale com Tristan. Ele se importa com ela. Sei que isso foi só um surto de raiva. Você já fez o suficiente a Alyn, pelo menos faça essa uma coisa boa, hmm?
Meu queixo apertou diante do sorriso suave dela. Fazia muito tempo desde que ela me olhara tão suavemente. Mas não era real. Não quando isso era tudo por outra pessoa.
Eles nunca iam mudar, iam?
Meu resoluto endureceu instantaneamente e arranquei minhas mãos do aperto dela.
— Não — as palavras asperas escaparam sem pensar e logo o lugar foi banhado em silêncio.
Eles pareciam atordoados em silêncio com os queixos caídos. Entendia por quê. De todas as vezes, essa era a primeira que fui tão direta em dizer não. Toda vez de alguma forma cedia aos desejos deles até agora. Chega.
— Vocês esquecem que não sou mais a Luna, nem companheira de Tristan. Estou meramente aqui como hóspede da alcateia e não tenho influência nas decisões de Tristan. Mesmo se tivesse, ainda não faria — mantive o rosto neutro, voz gelidamente calma enquanto falava.
— Valerie, por que seria tão c***l? — meu pai deu um passo à frente.
Uma risada amarga escapou de mim.
Cruel? Eu era c***l?
O que fiz para merecer aquelas palavras?
O lembrete do hospital frio e solitário, sangrando com as palavras de Alyn. Eles nem se deram ao trabalho de estar lá nos meus momentos finais.
Não sabia nada do que aconteceu após. Como reagiram na época, descobrindo que morri? Sentiram um pingo de remorso? Ou seu primeiro instinto teria sido confortar Alyn.
Já sabia a resposta.
Eu havia terminado. Absolutamente terminado.
O ressentimento de anos, de ambas a vida passada e presente, borbulhou dentro de mim e não conseguia mais contê-lo.
— Eu que deveria perguntar isso a vocês, mãe, pai. Porque se eu sou verdadeiramente c***l, então o que são vocês? — cuspi, assistindo-os recuarem de choque.
Não conseguia me importar menos.
— Quando é sobre Alyn, sempre elogios. Ela é tratada como criança mesmo agora adulta. Ela atacou a filha de outro Beta, quase começou um conflito entre alcateias e ainda assim vocês a mimam como se fosse uma criança. Mesmo agora que enganou todos vocês, ainda fazem desculpas por ela.
— E quanto a mim? — minha voz quebrou, mas não conseguia parar. — Sou sua filha biológica, mas nunca me mostraram qualquer amor ou pena. É ou reclamação ou demanda. Toda vez sou a pessoa r**m, mas toda vez também sou a mesma pessoa que vocês pedem para limpar quaisquer bagunças. Fiz o possível para ser uma boa filha, uma boa companheira, uma boa Luna, mas toda vez tudo o que viam eram defeitos. Nada que fiz era certo. Vocês nunca me defenderam, mas me culpavam quando caía. Mesmo quando a filha perfeita enquadrava-me por coisas que nunca fiz, nem uma vez tomaram meu lado e agora esperam que eu a ajude? Que ajude vocês?!
Tropecei para trás, calor emanando de cada parte de mim. Me sentia febril, mas não conseguia parar.
— Querem saber qual é a verdade? — sorri. — A verdade é que Alyn é conspiradora, egoísta e pretensiosa. Ela estava disposta a mentir e esconder para conseguir o que queria até ser pega. Isso não é culpa de mais ninguém. São as ações dela que causaram essa dor a ela, de ninguém mais. Agora que Alyn não era o anjo perfeito que se pintava, vocês ainda escolhem permanecer cegos?
Eles não disseram nada, só me olhando, atordoados em silêncio.
Claro que não diriam, pensei amargamente. Não havia desculpas, e talvez não se importassem o suficiente para fazer uma.
Pontos apareceram na minha visão. Minha barriga revirou com náusea. Me esforcei demais. Precisava descansar. Precisava… de ar.
Não conseguia respirar. Não conseguia…
— Ela está certa.
Uma voz veio atrás de mim e minha mente se esclareceu. De repente, por um momento, todo o pânico sumiu, deixando só choque. Passos irromperam antes de sentir seu calor sólido bem ao meu lado.
— Tristan — chorou minha mãe.
— Tio, Tia — sua voz era mais profunda com uma aspereza que nunca ouvi antes.
— Vocês me criaram como próprio e os via como minha família, mas não sabia como podiam ser tão cruéis.
— Alfa Tristan, eu- — tentou falar meu pai, mas falhou em nada.
— Consideraram como me senti sendo enganado por Alyn? Se as situações fossem invertidas, pediriam a qualquer um para perdoar tão facilmente? — perguntou ele, recebendo silêncio em retorno.
— Mas a pior parte é como falam de Valerie.
Meu coração pulou uma batida. Não conseguia evitar olhar para cima para encontrá-lo encarando direto para eles. Seu queixo e expressão estavam tensos e firmes, como se estivesse contendo raiva.
Raiva pelo meu bem.
— Considerando que descobriram que Valerie está aqui, devem saber as condições que levaram a ela ficar, mas nem uma vez perguntaram sobre a saúde dela. Em vez disso, vieram aqui para repreendê-la e exigir que conserte coisas pelas quais não tem responsabilidade enquanto ainda se recupera — disse ele. — Todos cometemos erros quando se tratava de tratar Valerie. Sei disso mais que todos. Não a valorizei, nunca a entendi até ser tarde demais. Aprendi meus erros e ainda estou pronto para corrigi-los, mas nenhum de vocês entendeu.
De repente, seu braço se enrolou no meu, me puxando mais perto. Antes de falar.
— Amava vocês como família, mas essa é minha gota d'água. Saiam agora. Daqui em diante não têm permissão para entrar na casa da alcateia à vontade. Quaisquer pertences restantes de vocês nesse lugar serão transportados para vocês. Valerie precisa de paz para se recuperar — terminou ele.
Seus rostos estavam cinzentos, bocas boquiabertas atordoados enquanto olhavam para ele e de volta para mim. Parecia que uma eternidade passou antes de se virarem, escorregando para fora do quarto.
Soltei um suspiro, tudo caindo sobre mim. Raiva, dor, coração partido.
E o mais surpreendente de todos, admiração.
‘Tristan.’
Minha respiração prendeu.
Ele me defendeu.
Ele virou para me encarar, seus orbes cinza profundos encontrando os meus. Neles via só calor. Preocupação.
— Você está bem? — perguntou ele.