Capítulo 6

1479 Palavras
  PERSPECTIVA DO KIERAN   O cheiro do sangue da Seraphina ainda me assombrava.   Eu não conseguia esquecer aquela cena: os renegados atacando, o Daniel a salvo com os meus pais, a Celeste precisando da minha proteção depois de anos sem treinamento de combate... Mas, quando aquelas presas avançaram em direção à Sera, quando o sangue dela inundou o ar, carregado de dor...   Meu coração parou.   Todo o meu instinto de Alfa rugiu para protegê-la. Minha ex-esposa, a mãe do meu filho, a companheira que eu nunca reconheci publicamente. No entanto, antes que eu pudesse agir, outra sombra se adiantou.   Eu deveria ter agradecido quando aquele estranho despedaçou o renegado, deveria ter agradecido à lua por ele ter salvado a vida da Sera a tempo.   Mas, ao vê-lo voltar à forma humana, segurando-a contra o peito nu, um rosnado escapou da minha garganta antes que eu pudesse contê-lo. Minhas presas latejavam, minha visão estava tingida de âmbar.   "Minha." Meu lobo, Ashar, rosnou.   A palavra era uma mentira. Eu não tinha esse direito, não depois do divórcio, não depois de uma década negando meu sinal a ela, negando o título de Luna.   Que tipo de Alfa reivindica posse sobre uma companheira depois de tanto tempo?   Então por que a visão das mãos dele na cintura dela me fizeram querer pintar as malditas árvores com suas entranhas?   "Como ela está?" A voz da minha mãe no telefone me trouxe de volta ao presente. "O Daniel quer saber."   Olhei para a porta fechada da sala de emergência do pronto-socorro à minha frente, um turbilhão de emoções desconhecidas mexendo no meu estômago. Como ela está? Eu não sabia. Eu tinha visto suas roupas em frangalhos, visto o sangue escorrendo pelas suas costas, mas eu não fui o herói que a salvou. Não fui nem mesmo quem a levou até ali. Eu era apenas o ex-marido inútil aguardando por notícias.   Mas ainda não havia atualizações. Ninguém tinha vindo nos informar nada.   Ela tinha que estar viva. Ela precisava estar viva. Como eu explicaria para o Daniel se algo de r**m tivesse acontecido com a Sera? Como eu justificaria ter protegido outra mulher ao invés da mãe dele, indefesa e sem poderes?   O ódio por mim mesmo ardia dentro de mim. O que quer que tivesse acontecido entre Sera e eu, machucar o Daniel era o último dos nossos desejos.   "Ela está..." A porta se abriu, e a Seraphina saiu.   Sua mão direita estava imobilizada em uma tipoia e curativos apareciam debaixo da manga enrolada da camisa. Como ela não tinha uma loba, não conseguiria se curar tão rapidamente quanto os lobisomens.   A ideia de que ela teria que lidar com a dor e cuidar da lesão como uma tarefa mundana me dava uma sensação desconfortável, quase de arrependimento.   Ela estava com a cabeça virada para dentro do quarto, sorrindo para quem quer que estivesse lá... um médico ou enfermeiro. "Obrigada... Eu vou... Isso mesmo." Então, ela se virou, e nossos olhares se cruzaram.   Sempre achei que a Seraphina tinha olhos lindos, pontos verdes misturados no azul, como peixes em um mar celeste. Durante dez longos anos, eu deliberadamente evitei olhar profundamente para eles. Recusei-me a reconhecer a devoção que um dia brilhou em suas profundezas.   Dizia para mim mesmo que não podia esquecer que ela era a mulher que arruinou minha vida. Não podia me entregar novamente a esse perigoso encanto e trair meu amor pela Celeste. Mas agora, vendo aqueles mesmos olhos me contemplarem com apenas uma indiferença gélida, meu coração apertou.   O sorriso dela desapareceu. Era como se aquele mar tivesse congelado, e não houvesse nada além do olhar frio, nem mesmo raiva por não conseguir protegê-la.   "Sera!" Eu quase tinha esquecido que a Margaret estava ao meu lado. Ela estava sentada no canto, orando silenciosamente para a Deusa da Lua desde que levaram a Sera para dentro. Duas visitas ao hospital em uma semana. Eu duvidava que ela pudesse suportar perder outro m****o da família.   Assim que viu a Sera saindo, Margaret levantou-se de imediato e correu em direção à filha. Sera desviou nosso olhar para ver a mãe, suas sobrancelhas franzindo levemente.   "Ah, querida, olha só para você." A voz da Margaret tremia enquanto ela tentava tocar nos ferimentos da Sera.   "Com licença," Sera deu um passo atrás, deixando as mãos da mãe suspensas no ar. "Com quem você está falando? Não pode ser comigo."   "Se você está procurando sua querida..." O olhar dela passou pela Margaret e foi até onde o Ethan e a Celeste estavam, "ela está bem atrás de você."   "Sera!" Ethan interrompeu, seu tom Alfa afiado com desaprovação. "A mãe está preocupada. O que os médicos disseram?"   "Desde quando minha sobrevivência importa para algum de vocês?" O gelo na voz dela era como uma lâmina no peito. Essa não era a Sera que eu conhecia, a mulher que se apegava à nossa rara gentileza como se fosse a luz do sol e que se moldou para ganhar qualquer resquício do nosso afeto.   "Os médicos disseram que eu vou sobreviver", ela continuou, aquele olhar gélido se dirigindo a mim. "Mas, por outro lado..." Um sorriso frio. "Quem se importa com uma ninguém descartável, contanto que as pessoas importantes estejam a salvo?"   "Isso não é..."   "Cadê o meu filho?" Ela interrompeu a Margaret, virando-se para mim com olhos desprovidos de toda a antiga ternura. Era como se eu fosse apenas um estranho para ela agora.   "Em casa", respondi rigidamente. "Com os meus pais."   "Vou buscar ele." Ela deu um aceno curto antes de caminhar em direção à saída.   "Espera..." Minha mão disparou, segurando o pulso dela. "O Daniel está seguro onde está. Você não está em condições de cuidar dele agora."   O olhar dela caiu para onde meus dedos circundavam seu braço e ela franziu a testa. Eu a soltei, mas bloqueei seu caminho.   "Os renegados que atacaram hoje são provavelmente os mesmos que atacaram seu pai. Isso não foi aleatório, Sera. Eles estão caçando sistematicamente os membros da Alcateia Frostbane, tentando..."   "O que isso tem a ver comigo?"   O gelo na voz dela fez todo mundo prender a respiração.   "Pelo amor dos Deuses, Sera!" Ethan irritou-se. "Você é tão tonta assim? Você está em perigo!"   "Eu deixei de fazer parte da Alcateia Frostbane anos atrás." A voz dela era um estalo de chicote. "O que significa que eu estou segura."   "Sera, escuta..." Passei a mão pelo cabelo, a frustração aumentando.   "Eu também não sou parte da sua Alcateia." Ela deu um passo à frente, os olhos brilhando como fragmentos de diamante. "Isso é algum truque novo pra tirar o Daniel de mim?"   "O quê?" Olhei para ela, sem acreditar.   "Não entendo por que vocês estão todos aqui tentando me impedir de pegar o meu filho."   "Você perdeu a cabeça, Sera?" Margaret exclamou.   "Eu já te dei o que você queria." Ela encolheu os ombros, fingindo despreocupação. "O divórcio está assinado. Já me mudei. O funeral acabou. Não há razão pra gente continuar conversando."   Minha mandíbula se apertou. "Sera, não é assim..."   "Tenta tirar o Daniel de mim", ela trancou o olhar no meu, proferindo uma promessa afiada como uma faca, "e você vai descobrir quão afiadas são as minhas garras, com ou sem loba."   Exalei pelo nariz. "Deixa eu te levar."   Sera parou. Celeste também. Senti o olhar dela queimando as minhas costas.   Droga. Meu rosto endureceu em uma expressão mais fria. "Seu carro ainda está no cemitério. Divorciados ou não, você ainda é a mãe do meu filho. Isso faz você ser minha responsabilidade."   "Não." Sua risada era amarga como uma erva venenosa. "Você provou que eu estava certa. Mesmo quando está do meu lado, você não me escolhe. Não vou confiar minha segurança a alguém que me despreza há uma década."   "Sera." O aviso na minha voz deveria fazê-la hesitar, mas ela não hesitou um segundo sequer, apenas saiu andando.   E, p***a, aquilo parecia uma bala de prata no peito.   Sera era uma víbora. Afastar-me dela deveria ter sido um alívio.   Então, por que a muralha que ela construiu entre nós me fazia querer destruir todo o maldito mundo?   O toque da Celeste me surpreendeu. "Isso é só... temporário, certo?" Seus dedos tremiam contra meu braço. "Não vai ser sempre assim, né?"   Esforcei-me para focar novamente nela, na mulher que amei por anos, minha futura companheira, se tudo desse certo.   "É temporário." Cobri a mão dela com a minha, apertando-a suavemente. "Você sempre será a prioridade."   "Kieran", ela choramingou contra meu peito, "com a partida do Papai, eu... eu não me sinto segura. Preciso de você."   "Eu estou aqui", murmurei, puxando-a para mais perto. "Ninguém vai nos separar de novo."   Celeste se aninhou ainda mais no meu abraço, suas lágrimas molhando minha camisa. Porém, meu olhar teimoso continuava a desviar para aquela saída vazia, por onde Sera desapareceu.   A inquietação se enroscava no meu estômago.   Por quê?
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