PERSPECTIVA DA SERAPHINA
O frio não era estranho para mim, mas a tensão profunda era uma novidade desconfortável. Mesmo assim, esbocei um sorriso no rosto quando o Daniel me pediu para passar o mel que mantive quando o Kieran me pediu a manteiga. Permaneci calada enquanto pai e filho conversavam animadamente.
Sempre serei grata pelo fato de que qualquer animosidade que o Kieran sentisse por mim nunca afetou nosso filho. Então, mesmo que ele nunca tivesse me amado, eu tinha certeza de que ele amava o Daniel.
Não conseguia lembrar a última vez que tomamos café da manhã juntos, e fazer isso agora, depois de termos nos divorciado, não era apenas irônico, era simplesmente ridículo.
Precisei admitir para mim mesma que ver o Kieran devorar as panquecas e ovos que eu fiz com tanto gosto acalmou um pouco a raiva e a irritação que senti antes.
Quando o café da manhã terminou, Daniel correu para o andar de cima para se arrumar para a escola, recusando minha oferta de ajuda. "Eu tenho nove anos!", gritou enquanto subia. "Não preciso da mamãe pra me vestir."
Se a recusa do Daniel à minha oferta não significasse que eu teria que suportar a tensão entre o Kieran e eu, talvez eu tivesse rido da resposta dele.
Limpei a garganta e me levantei, estendendo a mão para pegar o prato vazio do Daniel. Kieran se moveu também, mais rápido que eu, e o pegou.
Lancei um olhar questionador.
"Você não deveria estar lavando louça com o braço machucado," ele disse, tirando meu prato da minha mão antes que eu pudesse protestar.
Levantei uma sobrancelha, observando o Kieran se mover até a pia e me perguntando o que diabos deu dele.
Esse era o homem que nunca apreciara uma refeição que eu cozinhei e que nunca se preocupou com quem limpava a cozinha depois.
As únicas conversas que ele iniciava comigo eram simples notificações sobre quando ele levaria o Daniel para reuniões de família, as mesmas para as quais eu nunca era convidada.
Eu já tinha me acostumado com a indiferença dele, com a sensação de ser um fantasma na minha própria casa.
Mas agora, depois do nosso divórcio, lá estava ele na minha cozinha, lavando louça como se a nossa discussão de minutos antes nunca tivesse acontecido?
A cozinha era integrada à sala de jantar, formando uma linha contínua do balcão de mármore à mesa de madeira, e eu afundei na cadeira, observando as costas do Kieran enquanto suas mãos se moviam na pia, cuidando rapidamente da louça ensaboada.
Era uma cena surreal, uma versão dele que eu nunca tinha visto.
Os músculos sob a camisa se moviam e se destacavam enquanto ele trabalhava, e eu não conseguia parar de olhar. Com mais de um metro e noventa, ele era mais alto do que a maioria das pessoas e seu corpo era coberto de músculos definidos, esculpidos à perfeição: um monumento vivo do que significa ser um Alfa.
Eu já havia sonhado com isso antes, com uma cena doméstica comum: a esposa cozinhando, o marido limpando, talvez eu o abraçaria pela cintura e ele se viraria para me dar um beijo...
Quando ouvi o Daniel descendo as escadas novamente, desviei o olhar, sentindo minhas bochechas queimarem como se tivesse sido pega fazendo algo errado.
Kieran não era mais alguém que eu podia olhar dessa forma, não que verdadeiramente tivesse sido algum dia.
"Tô pronto," Daniel anunciou, com sua mochila do Pokémon nos ombros.
Sorri para ele e me levantei da cadeira. "Vamos..."
"Eu levo ele para a escola."
Soltei um grande suspiro de frustração, virando-me para o Kieran. "Sou perfeitamente capaz de levar meu filho pra escola," disse, tentando manter a voz firme e calma.
"Eu sei," ele respondeu. "Mas você deveria estar descansando, não se esforçando."
Pisquei, surpresa. Desde quando ele se importava? Por dez anos, Kieran m*l registrou a minha existência. Agora, de repente, ele estava dando palpites na minha vida?
"O Papai tem razão," Daniel opinou, aproximando-se de mim. Ele me abraçou pela cintura e eu automaticamente apoiei meu queixo na cabeça dele. "Vai descansar, mãe."
Eu soltei um suspiro. "Tá bom."
Olhei para o Kieran e forcei um "Obrigada."
Ele acenou com a cabeça.
Depois que eles saíram, tomei um banho, analgésicos, e me enfiei na cama, mas o sono não vinha. Minha mente insistia em reviver aquela manhã cheia de acontecimentos, até que a irritante e súbita consideração do Kieran tomou conta novamente dos meus pensamentos.
Pare. Sacudi a cabeça firmemente, meu olhar pousando no presente de despedida do Lucian.
O cartão dele estava na mesa de cabeceira. Um convite.
Peguei meu celular e digitei na barra de pesquisa: "Saindo das Sombras."
O primeiro resultado foi um site e, quando cliquei, fui inundada por uma enxurrada de informações que aguçaram ainda mais minha curiosidade conforme eu lia. Fundada há dez anos, a SDS havia rapidamente se tornado um refúgio para lobisomens como eu: sem lobos, fracos, excluídos.
Havia fotos, um tour virtual das instalações e depoimentos de lobos que tinham se beneficiado da generosidade da organização.
Algo cresceu dentro de mim enquanto eu absorvia todas aquelas informações: esperança e um senso de propósito que eu não sentia havia muito tempo.
Então, salvei o número do cartão no meu celular e enviei uma mensagem: 'Olá Lucian, aqui é a Sera. Pensei a respeito e adoraria fazer uma visita à SDS um dia desses.'
***
"E, finalmente, esta é a Arena de Combate," Lucian disse, gesticulando com um movimento teatral.
Girei lentamente, absorvendo o vasto espaço circular.
Estávamos no final da visita pela sede da SDS, pulando apenas a ala administrativa do prédio. "Números e papéis chatos, não tem nada de divertido lá", tinha dito Lucian.
Ele me mostrou as várias instalações de treinamento, incluindo o Poço Central, uma arena funda com paredes de pedra natural para escalada e saltos, além de troncos, blocos e correntes pesadas para treinamento de resistência.
Depois, visitamos o Salão da Lua, onde os lobos que podiam se transformar praticavam técnicas de controle e meditação para ajudar a dominar seus poderes. Havia também um percurso de obstáculos ao ar livre com árvores, rochas e trincheiras projetadas tanto para humanos quanto para lobos.
As instalações contavam até uma toca subterrânea forrada de musgo, com áreas aquecidas e fogueiras para descanso, cura e recuperação mental.
No geral, era a estrutura mais impressionante que eu já tinha visto, o que fez que Lucian Reed a pessoa mais notável que já conheci por pensar em construir isso para um grupo de pessoas que o mundo tinha rejeitado.
Assim como o design geral da sede da SDS, a Arena de Combate era um espaço elegante, ao ar livre, reforçado com aço e obsidiana. Lucian explicou que o piso acolchoado absorvia o impacto, enquanto sensores embutidos rastreavam movimentos e força.
Ele apontou para barreiras transparentes que se erguiam ao redor do perímetro, permitindo que os espectadores assistissem sem interferir.
"As pessoas vem assistir os treinamentos com frequência?" perguntei, imaginando uma multidão vibrante torcendo enquanto lobos lutavam até a morte como gladiadores.
Lucian deu de ombros. "Em geral só pra acompanhar o progresso e dar feedback."
Soltei um suspiro. "Tudo isso é tão... impressionante."
Lucian riu. "É porque você nunca esteve em uma instalação real de treinamento, né?"
Ele estava certo. Eu nunca tinha treinado antes. Minha alcateia me excluiu completamente por não ter uma loba. Claro, eu nunca participei das corridas de alcateia e ninguém estava disposto a me ajudar a treinar outras habilidades.
"O seu é diferente?" perguntei.
Ele assentiu. "A SDS tem a maior instalação de treinamento de Los Angeles. E, como está localizada em território neutro, muitos lobos de outras alcateias treinam aqui. Nossos professores são treinados pra ensinar até mesmo os lobisomens mais fracos."
Engoli seco, sentindo a esperança crescer. "Então, haveria alguém disposto a me treinar?"
O sorriso do Lucian era suave e gentil. "Eu mesmo te treinaria."
Eu dei uma risada , revirando os olhos.
Lucian deu um passo à frente e meu divertimento desapareceu enquanto eu jogava a cabeça para trás para manter contato visual com ele. "Tô falando sério, Sera."
Franzi as sobrancelhas. "Mas... por que você faria isso? Você é um Alfa, não tem coisas mais importantes para fazer?"
Seus lábios se contraíram. "Importantes? Sim. Mais importantes?" Ele balançou a cabeça. "Não."
"Ah." Passei a vida inteira sendo a escolha menos importante, então essa atitude me pegou um pouco de surpresa.
"O que me diz?" ele perguntou. "Pronta pra sua primeira aula?"
Eu distraidamente girei o ombro esquerdo. Já fazia uma semana desde o ataque dos renegados e o meu ferimento tinha cicatrizado bem. Os pontos foram removidos e, além de uma dor esporádica irritante, eu estava praticamente nova em folha.
Treinar com o Lucian garantiria que eu nunca mais ficaria em uma posição de vulnerabilidade onde pudessem me machucar novamente.
"Sim," eu exalei. "Estou pronta."
***
Lucian Reed, o Alfa que salvava lobos fracos e fazia visitas à doentes, era gentil e caloroso.
Lucian Reed, o treinador, era um desgraçado sádico.
"Para, para!", ofeguei, estendendo a mão quando meus joelhos cederam, me derrubando no chão.
Lucian andava de um lado para o outro na minha frente, suas botas de combate fazendo barulho contra o piso acolchoado da sala de treinamento particular.
A Arena era para combates, mas a SDS tinha centenas de salas de treinamento particulares separadas por portas de vidro de correr, com películas que permitiam ver apenas de dentro para fora, onde aconteciam os treinos individuais. Foi em uma delas que o Lucian me fez me arrepender de ter nascido.
"Levanta, Seraphina," disse Lucian. Sua voz estava irreconhecível, dura, impiedosa. "Você tem mais força dentro de você."
"Não," eu arquejei, com as mãos tremendo enquanto me dobrava, tentando não vomitar. "Não tenho."
Tudo começou com tarefas simples: postura, posição e como deferir um soco adequado. Rapidamente, escalou para exercícios suicidas: sentar na parede, burpees, rastejar, flexões, pranchas e cair e levantar, a grande maldição da minha existência, que basicamente exigia que eu me jogasse no tatame e me levantasse com uma velocidade que me deixava sem fôlego e enjoada.
Senti o Lucian se agachar diante de mim e eu disse, meio ofegando, meio rosnando: "Eu juro, Lucian, se você me fizer..."
Olhei para cima e vi ele sorrindo para mim, a máscara de treinador implacável dissolvida.
"Eu achei que você ia desistir meia hora atrás," ele disse, a voz carregada de orgulho. "Tô impressionado, Sera. Eu sabia que você era capaz."
Mesmo que o Lucian estivesse um pouco embaçado diante dos meus olhos, que o meu ouvido zumbisse e que parecesse que meu coração estava batendo forte na barriga, o orgulho inundou minhas veias.
"Você... é um pé no saco," ofeguei.
Ele inclinou a cabeça. "Então você não quer compressas quentes?"
Minhas mãos cederam e eu me joguei de costas no chão, me esparramando. "Sim, por favor."
As roupas de treino que o Lucian me deu estavam encharcadas e cada um dos meus músculos gritava de dor, mas eu nunca me senti tão... eufórica.
O rosto do Lucian surgiu sobre mim, de cabeça para baixo, enquanto ele apoiava as mãos dos dois lados da minha cabeça.
"Essa é só sua primeira aula," ele disse. "Imagina o quão forte você vai estar depois de várias."
Eu sorri, olhando em seus olhos azuis e cintilantes.
Eu imaginei, e uma onda de adrenalina me inundou junto com a ideia de não ser fraca, frágil ou inútil.
"Que p***a é essa?"
A porta de vidro deslizou bruscamente e eu me levantei como uma mola, batendo minha cabeça na do Lucian no caminho.
"Ai!"
Ele segurou meu rosto, pressionando a mão no local da pancada. "Você tá bem?" ele perguntou, fazendo uma careta.
"Eu..."
Um rosnado ameaçador cortou o ar e eu olhei para a esquerda, na direção do intruso. As palavras morreram na minha garganta.
Parado na minha frente, no corredor entre as duas salas de treino, estava o Kieran, com seus olhos escuros intensamente negros de raiva.