Valerie
Um gosto amargo subiu na minha garganta.
Nas raras vezes em que falavam sobre Valerie, era sempre negativo, fazendo o nó no meu estômago apertar mais, apesar de serem apenas reclamações breves. Cada novo suspiro ou frase parecia outra rachadura de uma pressão que eu não entendia.
Isso me atingiu como um tijolo um dia durante o jantar. Olhando para o Beta Valentine, o pai dela, a mãe e Alyn, a irmã, agindo como se tudo estivesse normal, fez cair a ficha. Porque essa cena na verdade era normal.
A única coisa que mudou foi que eu finalmente via isso.
Nem a falta de presença da primeira filha deles, minha companheira e ex-Luna, os abalava. Era como se ela nem existisse mais nas mentes deles.
E o pior era que não era a primeira vez. Era a mesma coisa todo dia, mesmo quando ela estava aqui. E eu fazia parte disso.
Raiva me invadiu com a realização. Incapaz de suportar mais, saí furioso do salão sem dizer uma palavra, trancando-me no escritório.
Minhas memórias não deixavam de me lembrar de como eu havia espelhado Valerie naquela época.
A raiva se acumulou após dias de observação. Dois meses inteiros de realização finalmente fazendo sentido para mim. Era o sentimento quando ouvi por acaso os membros da alcateia falando dela. O nó estranho que se formava com a indiferença dos pais dela e da alcateia. O mesmo sentimento quando comecei a me fazer essas perguntas.
Minha raiva se derramava sobre todos, mas principalmente sobre mim mesmo.
— Parece que até em um dia alegre como este, eu continuo envergonhando a alcateia.
— Até a alcateia que tento servir me vê como um fardo.
Suas palavras de despedida me atingiram como um soco. As palavras que eu havia descartado como desculpas na raiva me acertaram mais forte do que nunca. Eu as havia considerado como desculpas ou uma forma de chamar atenção, quando eram tão sinceras, autodepreciativas e, acima de tudo, verdadeiras.
Flashes de memórias me atingiram. Eu acreditava que ela era apática, mas ela sempre foi assim?
‘Não.’
Amargura me invadiu como uma faca, direcionada contra o lembrete ardente do laço rompido. Olhando para trás agora, houve um tempo em que ela era tão aberta quanto, mesmo que composta. As poucas vezes que eu lembrava eram raras e nunca mais aconteceram meses depois. Do momento em que os pais dela e Alyn entraram neste lugar, qualquer tentativa de se aproximar terminava.
Eu não sabia quando as luzes se apagaram nos olhos dela.
Quaisquer problemas que ela tivesse, uma coisa era clara.
Todos ao redor dela — os pais, a alcateia, eu mesmo — a faziam se sentir não apreciada, tão sem valor. Eu a tratara tão m*l.
Mesmo naquele dia, o dia do nosso aniversário, rumores circulavam sobre ela. Ela foi tão publicamente desrespeitada, e eu não fiz absolutamente nada.
Ela m*l cometia um erro, mas qualquer um era inflado para todos nós usarmos contra ela. Antes disso, a única vez que pensava nela era toda vez que acreditava que ela havia feito algo errado.
Na noite em que ela partiu, meu primeiro pensamento não foi tentar alcançá-la, mas dispensá-la como um incômodo, assim como todos faziam.
Eu constantemente presumia coisas sobre ela, mas eu a conhecia de verdade? Eu ao menos me dei ao trabalho?
Meu coração afundou enquanto eu engolia outro gole de uísque. Eu já sabia a resposta. Em nosso um ano de casamento, eu não sabia nada além do que via, e isso era muito pouco.
Por que eu era tão crítico com ela? Quando e por que minha percepção dela mudou?
Eu havia me enganado sobre ela?
Nunca obtive a resposta para minha pergunta quando desmaiei na escuridão, o álcool que eu havia tomado me levando ao oblivion.
…
Duas semanas depois, eu havia me tornado insensível a tudo.
Não sabia mais o que sentir, mas uma leve dor oca no peito persistia desde aquele momento.
Alyn havia se aproximado de mim várias vezes, mas eu não conseguia mais vê-la da mesma forma. Perceber o tratamento da alcateia me esgotara o suficiente, e eu passava os dias trabalhando enquanto tentava tirá-la da mente.
Mesmo agora, no que deveria ser uma pequena festa, eu não conseguia reunir alegria alguma. A visão só me levava de volta àquele dia, o dia em que ela decidiu partir. Vendo a amargura resoluta nos olhos dela na época, eu finalmente conseguia entender.
— Ei! Cuidado!
Um grito agudo me alertou imediatamente. Levantei-me a tempo de ver uma garrafa de vinho quebrada no chão, com um homem ajudando uma jovem a se levantar.
— Desculpe, Alfa. Minha filha derrubou a garrafa de vinho por acidente — disse o homem para me tranquilizar, mas eu m*l o ouvi, focado nela.
O vestido quase branco da jovem estava manchado com o vinho, cobrindo a maior parte da frente.
Parecia tão vermelho…
— Um presente do Alpha Alistair.
Algo como um tiro ecoou nos meus ouvidos e de repente me senti tonto.
— Alfa? Alfa Tristan!
Todos os ruídos se dissiparam enquanto eu mergulhava na escuridão.