Memórias

1664 Worte
Tristan Quando acordei, nada parecia o mesmo. Flashes de imagens e visões ecoavam claramente na minha mente. Eu podia visualizá-las mesmo horas depois, sentindo cada emoção. Trechos de dias intermináveis passando. Era tão similar às minhas memórias reais, mas ao mesmo tempo tão diferente. Vi os mesmos eventos do nosso aniversário se desenrolando de forma diferente. Depois de derramar o vinho, ela se recusou a pedir desculpas. Como eu puxei Alyn para longe com raiva, culpando Valerie. Então mais meses se passaram, com minha indiferença constante em r*****o a ela. Ela permanecendo na alcateia e a vida seguindo como de costume. Então a reunião. Alcateias sendo convidadas. Alyn ofendendo a Alcateia da Lua Sombria ao atacar a filha do Beta deles. Vi a mim mesmo defendendo Alyn apesar de tudo. A ameaça de Alistair contra a alcateia antes de ele partir. Valerie discutindo continuamente comigo e, toda vez, eu me opondo a ela, todos se opondo em favor de Alyn. A teimosia que eu sentia em acreditar que Alyn não havia feito nada errado e em repreender Valerie ainda mais. E então… Uma reunião. Um tiro alto, confusão. Sangue. O sangue de Valerie. Ela estava usando um vestido branco na ocasião, o sangue se destacando vividamente contra as cores. Choque e uma dor fraca encheram meus sentidos. Ela me protegeu. Senti a mim mesmo puxando Alyn para longe para confortá-la, apesar dos movimentos serem fáceis e de sentir que Alyn não havia derramado lágrima alguma. Eu poderia jurar que vi um movimento pelo canto do olho. Uma mão? Valerie? Parecia que não havia tempo para pensar no meio do meu pânico. Vi a mim mesmo saindo às pressas para chamar meus sogros, apesar das palavras do Médico da Alcateia. Uma parte de mim, mesmo ao deixá-la sozinha, tinha esperança. Ela tinha que viver… certo? Ao voltar mais tarde, soube que todas aquelas preces foram em vão. Talvez na minha negação, eu já tivesse sentido, o vazio, um rompimento. Alyn ficou impassível na porta antes que o médico da alcateia se aproximasse. — A Luna faleceu — anunciou o médico da alcateia, sombrio. Uma estranha tensão invadiu meu… o peito dele, uma que eu nunca havia sentido antes. Com um sinal, ele me puxou para longe e para o escritório dele, sozinho. — A perda deve ser ainda mais dura para você. Sinto muito por não ter podido se despedir deles — disse ele, e em meio ao sentimento vazio no meu peito, a confusão surgiu. — Que diabos você quer dizer com ‘deles’? — eu, ou a memória de mim, perguntei. — Você não sabia? — disse ele, seu rosto se abatendo ainda mais. — A Luna estava grávida. Faz sete meses desde que confirmei a gravidez dela e agora… a criança morreu com ela. Grávida… criança… A memória ficou enevoada. Todas as palavras abafadas até que eu não conseguia ouvir nada e então… escuridão. Era vívido demais para ser um sonho, sem mencionar como todos os eventos se desenrolaram de forma tão similar ao passado. Parecia memórias reais… de outra vida. Nos dias seguintes, fiquei atordoado com isso, tentando dar sentido a tudo. Os pensamentos cresceram ainda mais quando eventos das minhas memórias ocorreram ao ponto de eu poder prevê-los, com uma diferença. Valerie não estava lá. Comecei a fazer minha pesquisa. Vidas passadas e renascimento eram fantasia, ao contrário dos laços tangíveis de companheiros, mas quanto mais eu aprendia, mais minhas suspeitas cresciam e a pergunta se instalava na minha mente. Valerie sentiu o mesmo? A diferença entre as memórias e a realidade era clara, e tudo começou naquela manhã durante o café da manhã. O sentimento estranho que eu tive de que ela parecia diferente era verdade, mas por um motivo completamente diferente. Eu nunca dei importância ao folclore lobisomem, mas minhas suspeitas cresceram. Ela tinha uma memória disso? Ela se viu morrer? Ela renasceu ou só teve uma premonição? A gota d'água que confirmou tudo foi quando reuni forças para finalmente ir ao hospital da alcateia e fazer a única pergunta que eu temia ao médico da alcateia. — Sim. A ex-Luna Valerie está grávida. Você não sabia? — respondeu ele, suas palavras um espelho das da minha memória, me acertando no estômago. — Quando você descobriu? — perguntei, minha cabeça zumbindo com uma energia frenética porque era real. E se a gravidez era real, então o sonho… — Ela veio até mim cerca de duas semanas antes da… partida dela para confirmar a gravidez. Usando a linha do tempo, deve ser cerca de três meses agora — disse ele. Suas palavras me atingiram com força, cortando meus pensamentos. Uma parte de mim ainda estava incerta sobre o sonho, de modo que não considerei as implicações e o timing. Porque desde o dia em que nos acasalamos, eu não a toquei uma vez sequer. Ela estava com três meses de gravidez. Como? Quem? Ela estava vendo alguém pelas minhas costas? Uma sensação quente se instalou no meu estômago com o pensamento, mas ao vasculhar minhas memórias, uma borrada veio à tona, me fazendo quase desabar no escritório do médico da alcateia. Foi uma festa meses atrás. Uma em que acabei bêbado. Eu poderia jurar que ouvi a voz de Valerie, antes de nadar em ondas de prazer e então… Acordei sozinho no meu quarto naquele dia e nunca pensei em questionar. Agora eu conseguia me lembrar claramente que era ela. Imediatamente saí do escritório e fui direto para o banheiro vomitar. Tudo havia se encaixado. Eu acreditava que nunca a havia tocado, mas naquela noite toquei. Ela nunca disse nada e eu esqueci, continuando meu comportamento admitidamente c***l e indiferente em r*****o a ela. Ela estava grávida do meu filho. Ela morreu com o meu filho. E agora, ela se foi. …. Eu precisava encontrá-la. Um desespero que eu nunca conhecera antes me invadia agora. Não havia dúvida sobre isso, não quando as peças estavam claras. Ela deve ter renascido, ou ganhado uma premonição do futuro e escolhido partir. ‘Foi por isso que você fugiu?’, pensei. Por um breve momento, uma raiva passageira inchou em mim, mas rapidamente se dissipou diante da realidade. Por que ela não partiria? Olhar ao redor era motivo suficiente. Na vida passada e na memória, vi claramente como ela foi ignorada, criticada e empurrada para o lado por todos, inclusive por mim. Especialmente por mim. Quantas vezes ela sugeriu uma alternativa para acabar com o conflito repentino entre nós e a Alcateia da Lua Sombria naquela vida? Quando ela me disse repetidamente que Alyn, como culpada, deveria fazer algo, mas eu nunca ouvi, teimoso no meu desgosto por ela. Puxei meu cabelo com força, a dor parecendo punição e uma âncora ao mesmo tempo. No final, minha teimosia levou à morte dela. Onde ela estava agora? Estava segura? Nosso bebê estava seguro? Arrependimento pairava amargo na minha língua. A memória do dia em que ela partiu se repetia na minha mente. Eu entendia o porquê agora, e me arrependia. Passei pelos dias restantes, mais preso nos meus pensamentos e nas memórias. Nos momentos distantes em que estava na realidade, podia notar a preocupação da alcateia, dos meus sogros e de Alyn. Não percebi quando o tempo passou até que fosse tarde demais. A história se repetiu. As alcateias chegaram e Alyn feriu a filha do Beta da Alcateia da Lua Sombria. Foi o que trouxe minha atenção de volta à realidade por completo. Olhando para a cena acontecendo exatamente da mesma forma que na outra memória, com a única exceção sendo a ausência de Valerie. Meus sogros, o Beta Hamish e minha sogra, estavam mimando Alyn, mas todos os olhos estavam em mim. Vendo a expressão lamentável de Alyn, não consegui reunir a mesma protetividade do passado. Em vez disso, olhei para cima para encarar o Alfa Alistair. Foi esse incidente que causou o conflito e a morte de Valerie. Mesmo que eu não soubesse o que mais aconteceu depois daquele cenário, tudo o que vi entre aquele período era mais do que suficiente. Pensando nos meses de luta naquelas memórias, levando ao atentado de assassinato, meu estômago revirou. Eu não podia deixar escalar até aquele ponto. Não dessa vez. Deixando de lado meu orgulho e teimosia, falei. Toda a alcateia e seus membros pareceram chocados quando terminei de me desculpar e pedir um julgamento. Depois que Alistair e as outras alcateias partiram, fui questionado por todos os três, especialmente por Alyn. — Tristan… — suplicou ela com olhos marejados, parecendo de coração partido como se eu tivesse dado a ela uma sentença de execução. Ela permaneceu na sala de jantar depois que todos saíram, como se esperasse que eu retratasse minhas palavras. — Você ofendeu outra alcateia, Alyn, não cabe a mim defendê-la. Seus crimes serão julgados de acordo — disse simplesmente. Ela se encolheu antes de sair, parecendo magoada com minhas palavras, mas eu não senti nada. Pela primeira vez, não conseguia entender. Por que ela ficava tão chateada quando não era mimada? Por que eu a mimei tanto? Quaisquer pensamentos sobre ela se dissiparam enquanto o arrependimento de antes tomava seu lugar. Era dolorosamente irônico que a sugestão que dei para acabar com o conflito fosse a mesma que ignorei de Valerie. Logo o julgamento foi marcado e um destino acordado. Viajamos para a Alcateia da Lua Sombria, um pequeno lampejo de esperança me preenchendo. Era um exagero, mas se esse era o conflito que Valerie temia quando partiu, ela retornaria depois? ‘Não era só o conflito’, me lembrei, mas isso só me fez cerrar os punhos com determinação. Eu estava mais do que ciente disso, mas não importava. As coisas eram diferentes agora. Eu era diferente. Talvez eu tenha recebido essas memórias como uma chance de consertar as coisas. E eu faria, por ela e pelo bem do nosso bebê. Mas primeiro eu teria que encontrá-la. …. Mal sabia eu que nos reencontraríamos tão cedo.
Kostenloses Lesen für neue Anwender
Scannen, um App herunterzuladen
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Schriftsteller
  • chap_listInhaltsverzeichnis
  • likeHINZUFÜGEN