Importa

1420 Mots
Valerie — Deusa, fiquei em pé por tempo demais. Meus quadris doem. — Vamos fazer isso rápido então para podermos ir para casa. Enrijeci enquanto as duas vozes passavam. Pertenciam à minha mãe e ao meu pai, respectivamente. Por que eles estavam aqui? Havia alguns sons de farfalhar que não conseguia juntar apesar de estar perto da porta. A respiração de Tristan era fina, mas ainda não conseguia dizer o que estava acontecendo com ele tão perto de mim. Assim como aquela única noite de bebedeira. A única noite que passei com ele… ‘Foco’, avisei a mim mesma, me forçando a me concentrar no que quer que estivesse acontecendo lá fora. O som durou só segundos antes que passos ecoassem. — Você acha que ela vai ficar feliz com isso? Talvez devêssemos ter comprado algo novo para ela — perguntou minha mãe, soando insegura sobre o que quer que fosse. — Por que não? Era seu colar antes. É só justo que ela receba isso como presente de casamento — disse meu pai. O mundo me gelou até os ossos. Sabia exatamente de qual colar ela falava, dado pelo meu pai como presente de cortejo. Era uma herança, uma que outrora, quando eu era mais nova e ainda tinha o amor deles, ela havia prometido passar para mim de forma fantasiosa. Agora ela passava para Alyn. Meu sangue virou gelo. O nó na minha garganta que pensei esquecido ressurgiu. — Além disso — continuou a voz abafada do meu pai. — ela é uma criança tão boa. Vai ficar grata por isso. Um suspiro seguiu. — Fico feliz que ela finalmente vá se casar e com Tristan, nada menos, ele sempre se importou tanto com ela. Após o que aconteceu da última vez, podemos ser uma família de verdade de novo. Ela merece — respondeu minha mãe, soando engasgada. Amargura inchou no meu peito. Era sempre assim. Eles continuaram derramando elogios e alegrias sobre o casamento iminente de Alyn por um bom minuto, ignorando completamente minha existência em tudo. Tentei ignorar as palavras, mas a dor lancinante persistia. Senti os olhos de Tristan me perfurando, mas mantive o olhar fixo na parede mais próxima, apertando o queixo para suprimir minhas emoções. Não ia sentir nada. — Você viu Valerie hoje? Ela m*l nos lançou um olhar dias atrás. O que há de errado com ela? — perguntou minha mãe asperamente. Inspirei fundo diante das palavras deles. Claro, a única coisa que reservavam para mim eram reclamações. — Tanto na época quanto agora. Ela partiu do nada, explodindo um pequeno problema. Agora anda pendurada no braço de outro homem orgulhosamente, nos desgraçando em público. Vários representantes continuam perguntando sobre ela e não tenho palavras. Como vamos nos recuperar disso? — bufou meu pai. Algo amargo akin a bile na minha garganta se formou. Era como se uma ferida tivesse sido rasgada, incitando dor fresca. Talvez fosse porque não estava aqui há muito tempo. Ser sujeita às reclamações e insultos deles após meses sem isso tinha que ser o motivo de doer tanto. Nada, no entanto, poderia me preparar para o sussurro suave da minha mãe. — Às vezes, me pergunto como tivemos uma filha como ela. Encolhi-me, as palavras me atingindo como uma ferroada quente. Minhas mãos se apertaram em punhos para machucar minha pele, mas a dor não se comparava. Como eles podiam? Como ousavam? Uma sombra de calor roçou meu braço e levou um segundo para perceber que era Tristan que quase me tocou. Puxei-me para longe por reflexo, encarando-o. Ele havia se distanciado. Suas mãos deixaram a porta e ele havia se afastado silenciosamente sem que eu notasse. Mas agora seu olhar contra a escuridão parecia suave e triste. Seu olhar era como sal nas feridas queimando dentro de mim agora expostas. Se ele estava estendendo a mão como alguma forma de conforto, eu não queria. Não precisava do conforto ou da pena dele. BAM. Graças à distração momentânea que Tristan deu, não ouvi as últimas palavras dos meus pais enquanto o som da porta se fechando me trazia de volta à realidade. Encostei-me na porta para ter certeza de que estava completamente quieto antes de sair para o quarto. Todas as janelas estavam abertas, mas sentia como se estivesse sufocando. Ver a caixa aberta na mesa com o colar da minha mãe ali era minha gota d'água. — Vamos embora — disse secamente e virei-me imediatamente depois, mirando na porta. Meu trabalho aqui estava feito. Antes que pudesse dar um passo, no entanto, uma mão segurou minhas costas. — Valerie, espera — disse Tristan e sua voz me irritou. — Você não está bem. Eu sei que não está após isso. — E daí?! — finalmente explodi, arrancando minha mão da dele. A dor lancinante se transformou em raiva enquanto o encarava. Na luz, o olhar no rosto dele era mais evidente. O que dava a ele o direito de parecer piedoso quando havia feito a mesma coisa? — O que importa o que sinto? Quem se importa!? — falei alto, rindo amargamente. Não conseguia me importar nesses momentos, não quando ninguém se importava. — Você se lembra da nossa cerimônia de acasalamento, certo? — perguntei, um sorriso amargo rastejando no meu rosto. — Sabe o que ganhei como ‘presente de casamento’ na época? O silêncio cresceu. — m*l era um presente, se é que era. Não ganhei presentes normais deles. Nem uma bugiganga barata. Tudo o que ganhei foi um aviso, para cumprir meus deveres e não envergonhar minha família ou a alcateia. Enquanto Alyn ganhava presentes e elogios, eu era ignorada a menos que fosse em defesa de Alyn. Toda vez que fazia algo errado e qualquer conquista passava despercebida. Eventualmente se espalhou para toda a alcateia, mas no início começou com eles. Era o sentimento mais doloroso ser abandonada pelos próprios pais. Ela os cegou? Ou não foi escolha deles fechar os olhos? Pensei que já havia suportado mais do que suficiente, mas parecia que sempre havia outra forma de me machucar. Partir não significava ódio quando era pela minha segurança. Ainda me importava, mesmo quando desejava não. E eles sempre me machucavam. — Não importa o que eu fazia ou o quanto sacrificava. Tudo o que fiz — ri quebrada. — Ninguém se importava comigo, nem mesmo você. Ele se encolheu com isso, uma dor fraca nos olhos, mas não conseguia me importar. O que quer que o tenha feito se aproximar de mim antes, culpa ou o bebê, não duraria. Ele se desculpou no dia anterior, mas tudo tinha um motivo ulterior. Por um momento, o silêncio cresceu por segundos, a tensão grossa e sufocante. As luzes, o quarto, Tristan. Tudo parecia demais. Inspirei fundo para me recompor. Havia derramado demais já. — Não vamos encontrar nada aqui. Preciso ir — disse antes de sair furiosa. Virei-me para sair pela segunda vez. Esperava que não tivéssemos ficado aqui tempo suficiente para a festa ter terminado. Se Alistair me visse no caminho, teria que inventar uma desculpa sobre pegar um ar- — Eu quis dizer cada palavra que disse naquela noite — disse Tristan atrás de mim. Eu parei. — Após você partir, assumi seus deveres e finalmente comecei a ver. Como não vi tudo o que você havia feito? A realização veio antes de eu ganhar essas ‘memórias’, e desde então nada foi o mesmo. Sua voz ecoou baixinho no quarto. Veio um único passo e nada mais, mas sua voz persistiu. — Sua família, seu pai que praticamente me criou e me guiou para me tornar um Alfa após a morte dos meus pais e ficou como Beta — continuou ele. — Sua mãe que constantemente garantia meu bem-estar quando eu era mais novo. Alyn, os servos, toda a alcateia. Não consigo olhar para nenhum deles da mesma forma e é tudo por sua causa. Minha respiração prendeu na garganta. — Tudo o que conseguia pensar era: como eles podiam dispensá-la tão facilmente? Como ousavam? E então percebi que havia feito a mesma coisa. Você era minha companheira, mas m*l a conhecia. E após conhecer, percebi o quanto desejava ter conhecido. Ele disse. — Há muitas coisas das quais me arrependo, Valerie, mas essa seria a maior. Fiquei atordoada por um momento, me recusando a encará-lo. Apertando o queixo, algo mais que não conseguia processar se misturou às emoções girando e tudo parecia demais para suportar. Sem uma palavra, abri a porta e saí do quarto.
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