PERSPECTIVA DA SERAPHINA
"Mãe!"
Assim que entrei pela porta da frente, Daniel se desvencilhou do colo do avô, Christian Blackthorne, e veio correndo na minha direção.
Suspirei, abraçando-o com um braço só. Apertei a cabeça dele contra o meu peito, sentindo seu pequeno coração bater forte contra mim.
Ele estava bem, estava seguro. Minha família tinha errado comigo de inúmeras maneiras, mas pelo menos eles o protegeram e eu era muito grata por isso.
"Oi, meu amor", sussurrei contra os cachinhos dele.
Daniel se afastou e contraiu o rosto ao olhar para o meu braço machucado, coberto com curativos e pendurado em uma tipoia. "Você tá machucada." Sua voz tremeu.
Balancei a cabeça, segurando o rosto dele para desviar o olhar. "Tá tudo bem, meu amor." Apertei a cabeça dele contra o meu peito de novo, beijando seus cabelos. "Eu tô bem."
Ele agarrou o tecido da camisa que eu usava, emprestada de uma enfermeira, e o arrepio que passou por ele pareceu reverberar em mim.
"Vai ficar tudo bem, mãe." Sua voz estava abafada. "Eu vou cuidar de você."
Fechei os olhos enquanto uma lágrima escorria pela minha bochecha. "Eu sei que vai, meu amor." Meu menino forte e lindo era o único no mundo que me amava. "Nós vamos cuidar um do outro."
"É assim que você se comporta?" A voz da Leona cortou o momento. "Entrando na minha casa sem sequer um cumprimento?"
Levantei o olhar. Os Blackthornes estavam entrelaçados no sofá, o olhar ferino da Leona afiado como sempre. Antes, aquele olhar teria me feito pedir desculpas imediatamente, para provar que eu era digna. Mas agora, olhando da Leona para o Christian, esperei para ver se aquela parte patética de mim que sempre buscava a aprovação deles iria se manifestar. Mas... nada.
Nada de medo. Nada de raiva. Apenas uma aceitação vazia. O caos de hoje tinha mudado alguma coisa em mim. Era como se um interruptor tivesse sido acionado dentro de mim, e eu simplesmente... não me importava mais.
Essa família tinha me drenado por completo, e eu estava cansada de sangrar por eles.
Baguncei os cachinhos do Daniel. "Vai se despedir dos seus avós, querido", eu disse, mantendo a voz firme.
Os braços do Daniel caíram devagar ao lado do meu corpo, e ele se afastou para ir até Leona e Christian.
Tentei não reparar em como os braços do Christian envolviam a cintura de Leona, como o carinho entre eles parecia tão natural. Em outra vida, eu tinha sonhado tolamente que o Kieran pudesse um dia me abraçar assim.
A lembrança quase me fez rir.
Depois que o Daniel abraçou os avós, peguei sua mão, saímos da casa em silêncio e...
Falando em cenas que machucam os olhos.
O familiar carro de luxo G-Wagon preto do Kieran estava na entrada. Ele estava do lado do passageiro e eu observei enquanto ele segurava a cintura fina da Celeste e a ajudava a sair do carro.
Apoiando as mãos nos ombros dele, ela olhou para ele com adoração, e ele a olhou com uma ternura que nunca demonstrou por mim.
Eu esperei a inveja e a amargura apertarem meu estômago, mas novamente, não senti nada além de uma dor surda atrás dos olhos.
"Foi por causa dela?"
A voz baixa do Daniel me paralisou. Virei para ver o meu filho olhando fixamente para o Kieran e a Celeste com os olhos escuros semicerrados. "É por causa dela que o Papai nos deixou?"
Respirei fundo. Celeste tinha ido para o exterior antes do nascimento do Daniel, então ele nunca a conheceu. Eu me perguntava se meu pai ou minha mãe tinham falado para ele sobre a tia, cujo companheiro sua mãe supostamente roubou.
Naquele momento, Kieran e Celeste nos viram. Um músculo pulsou no maxilar dele, e ele soltou a mão da cintura dela. Uma expressão passou pelo rosto de Kieran, e eu provavelmente estava tendo alucinações por causa dos remédios para dor, porque me pareceu... culpa?
Lembrei da pergunta que fiz ao Kieran quando ele detonou a bomba do divórcio:
"É por causa da Celeste, não é?"
"Não", ele mentiu. "Claro que não."
Forcei um sorriso enquanto segurava o queixo do Daniel. "Não, meu amor", menti, com uma voz animada, ao contrário de como eu me sentia. "Claro que não."
As palavras tinham gosto de cinzas. Odiava mentir para meu filho, mas odiava ainda mais a ideia de que ele se magoasse. Não importava o quão complicado era o meu relacionamento com o Kieran, isso era entre nós dois e eu não queria expor o Daniel a nenhum drama desnecessário.
Os ombros do Daniel relaxaram. Ele acreditou em mim... por enquanto.
"Vem aqui." Peguei a mão dele e o guiei para longe.
Pelo canto do olho, vi o Daniel levantar a mão em um pequeno aceno para o Kieran. Continuei andando, mas o peso do olhar de alguém queimava entre minhas omoplatas, quente o suficiente para deixar cicatrizes.
***
"Mãe, você tá bem?" Daniel perguntou, puxando o edredom grosso sobre o meu ombro. "Precisa de mais alguma coisa?"
Sorri. Ele falou sério quando disse que cuidaria de mim. Abriu portas, me ajudou a tomar um banho um tanto desajeitado e até colocou um prato de macarrão com queijo no micro-ondas. Estava frio no meio, mas eu devorei tudo como se a refeição tivesse cinco estrelas Michelin.
"Só mais uma coisa."
Ergui o edredom e bati no espaço ao meu lado. Daniel sorriu e, com uma revirada de olhos meio brincalhona, deitou-se. Quase não dormíamos mais juntos na mesma cama porque, segundo ele, já estava "bem grandinho pra esse tipo de coisa."
Na minha opinião, isso não existia. Enquanto eu estivesse viva, ele seria meu bebê e sempre teria a idade e o tamanho perfeitos para um aconchego.
Envolvi cuidadosamente meu braço machucado ao redor da cintura dele, e ele fez carinho. "Tá doendo?"
Ajeitei sua cabeça sob meu queixo. "Não quando tô com você."
Ficamos em um silêncio suave enquanto o Daniel passava o dedo distraidamente sobre o curativo. "Mãe?", ele disse baixinho após algum tempo.
"Hmm?"
"Quando eu crescer... Quando eu conseguir meu lobo, vou te proteger. Eu prometo."
Minha garganta se apertou de emoção e fechei os olhos com força para conter as lágrimas que imediatamente vieram à tona.
Por trás das minhas pálpebras, surgiram os rostos da minha família: o luto teatral da minha mãe, a indiferença irritante do Kieran. Dez anos perdidos tentando conquistar o amor deles. Dez anos implorando por migalhas de pessoas que teriam prazer em me ver sofrer.
Mas então...
As presas de um renegado. Uma sombra pulando entre nós. Braços fortes me levantando, a pressão de uma tatuagem contra minha bochecha.
As risadinhas das enfermeiras quando perguntei sobre meu o meu herói: "Ah, aquele Alfa? Ele te carregou como se você fosse feita de cristal."
Um Alfa que protegia os fracos. Ele havia salvado muitos outros lobos no ataque, principalmente Ômegas.
Isso só me apresentou com uma infinidade de perguntas. Os fortes geralmente não se importavam com os fracos, especialmente considerando que eu nem o conhecia. Então, quem era esse Alfa que tinha uma queda por lobos mais fracos?
"Quem quer que ele seja... espero poder agradecê-lo um dia." Meus dedos passaram sobre os curativos no meu braço. "Por proteger a pequena Sera, sem loba e indefesa."
***
Daniel ainda estava dormindo quando acordei cedo na manhã seguinte. Dei uma risadinha leve, acariciando seu cabelo com carinho.
"Velho demais pra aconchego, sei", murmurei. Ele estava grudado em mim como um bebê coala.
Meus músculos doíam e minhas costas ardiam como nunca. Mesmo assim, me arrastei até a cozinha, peguei uma caixa de mistura para panquecas e comecei a preparar o café da manhã.
Eu m*l tinha colocado a primeira panqueca no prato quando ouvi uma batida na porta. Olhei para o relógio: seis e meia. Além de ser cedo, também achei aquilo incomum, considerando que tínhamos acabado de nos mudar para esta casa, e eu não conseguia imaginar quem nos visitaria a esta hora. Kieran, talvez, mas... Eu ri baixinho de mim mesma com o pensamento ridículo. No entanto, quando abri a porta, a risada morreu na minha garganta. Diante de mim, preenchendo todo o vão da porta com seus ombros largos, estava um homem que eu não conhecia. O que me deixou atônita, no entanto, foi a estranha e inexplicável sensação de familiaridade que senti ao vê-lo. Eu estreitei os olhos por causa do sol da manhã, que brilhava e obscurecia as feições dele. Como se notasse meu desconforto, ele se moveu, bloqueando a luz do sol, e de repente eu pude vê-lo claramente. Cabelo preto como carvão preso em um coque na altura da nuca, olhos azuis escuros como um céu noturno, um rosto impressionantemente bonito, e... Eu ofeguei ao baixar os olhos e ver o seu braço direito, coberto por uma manga de tinta preta. Era ele: o Alfa que salvou a minha vida.