Capítulo 8

1724 Mots
  PERSPECTIVA DA SERAPHINA   "Oi, Sera."   A voz dele era profunda e suave, com um toque divertido, talvez porque eu o estivesse encarando como se meus olhos fossem saltar da cabeça.   Como não me movi nem disse nada, ele riu, o som ressoando no espaço entre nós. "Pelo jeito, cheguei em um momento r**m. Eu só vou..."   Ele se virou para ir embora e eu saí do estado de surpresa com um suspiro. "Espera!"   Ele se virou, levantando uma sobrancelha.   "É... você."   Os lábios dele se curvaram quase em um sorriso. "Lucian Reed." Ele estendeu o braço tatuado para mim, esperando um aperto de mãos.   Quase automaticamente, estendi meu braço não machucado e apertei a mão grande e quente dele, que quase engoliu a minha. "Seraphina Bla..." Não, Blackthorne não, não mais. E também não era Lockwood, na verdade. Além disso, ele já sabia meu nome.   "Uhm... entre, por favor." Saí do caminho e gesticulei para ele entrar na casa.   "Obrigado", disse Lucian, ao cruzar a entrada. Ele era imponente, quase tão alto quanto o Kieran, e dei um passo para trás instintivamente.   "Por aqui."   Levei-o até a sala e indiquei a poltrona para ele se sentar. Ele se acomodou nela como se fosse um trono e algo me disse que ele poderia se sentar em uma montanha de lama e fazê-la parecer elegante.   A cabeça dele girou, observando a sala de estar: o papel de parede florido, os sofás descombinados e as mesas laterais que estranhamente ornavam.   "Sua casa é linda."   Não consegui dizer se ele estava sendo sarcástico, mas dei de ombros. "Ela já era assim. Acabei de me mudar."   Assim que as palavras saíram da minha boca, desviei o olhar. Por que estava contando a minha vida para esse estranho?   "Como estão seus ferimentos?", ele perguntou, apontando para os meus curativos.   Meus dedos passaram suavemente sobre eles. "Vão sarar. Eu..." Engoli em seco. "Obrigada. Eu deveria ter dito isso assim que abri a porta... Muito obrigada por salvar a minha vida."   Lucian sorriu, mostrando os dentes, o que o fazia parecer menos intimidante.   "Não foi nada, Sera."   Mordi o lábio inferior, hesitante. "Posso perguntar... Por que você fez isso? Todo mundo estava protegendo quem era mais importante pra si e a gente nem se conhece."   Ele balançou a cabeça e o sorriso se tornou mais suave. "Você pode não me conhecer, mas eu te conheço."   Ele enfiou a mão no bolso e a estendeu para mim. Meus olhos percorreram o que ele me entregava.   "Saindo das Sombras", li em voz alta e olhei para o Lucian, intrigada.   "Sou o Alfa da Alcateia Shadowveil, no sul", ele disse.   "E o Presidente da..." Olhei novamente para o cartão. "Saindo das Sombras."   Lucian assentiu. "É uma organização de ajuda humanitária dedicada a apoiar lobos sem alcateia e vulneráveis: Ômegas, renegados, foragidos." Ele deu de ombros. "Se um lobo precisa de ajuda, a SDS está lá."   Bem, isso explicava muita coisa.   "Isso é..." Nobre, impressionante, inspirador. Para alguém que passou a vida toda sendo ridicularizada e deixada de lado por não ter sua loba, era um alívio vertiginoso descobrir que existia alguém no mundo, uma organização toda, que se importava tanto com pessoas como eu.   "Você disse que me conhecia", eu disse. "Como?"   Lucian se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nas coxas. "Eu tinha alguns negócios com o seu falecido pai. Meus sentimentos, a propósito."   Dei de ombros, ignorando o aperto no peito. Era estranho e desconfortável receber pêsames por um homem que me odiou até o último suspiro.   "Mas outro motivo me levou ao funeral dele", continuou Lucian.   Inclinei a cabeça e franzi a testa enquanto ele dizia: "Ouvi dizer que a filha mais velha de Edward Lockwood não tinha a forma de loba."   Eu quase pude ouvir minhas defesas mentais se erguendo como portões de ferro se fechando.   "Como é?", sibilei. "Você andou me espionando? Você me salvou pra que pudesse..."   "Eu te salvei porque você estava em perigo", Lucian disse simplesmente. "E estou aqui pra ver como você está."   "Você vai visitar todos os outros que salvou?"   "Não", ele respondeu honestamente.   "Então... por que eu?"   "Porque quero que você se junte à minha organização."   Pisquei. "O quê?"   Ele assentiu. "Você é filha de um Alfa, irmã de um Alfa e esposa de um Alfa..."   "Ex-esposa", eu corrigi imediatamente.   Algo brilhou nos olhos do Lucian enquanto ele assentia. "Me perdoa. Ex-esposa. De qualquer forma, acredito que sua identidade e suas experiências poderiam inspirar muitos lobisomens que enfrentam desafios... semelhantes." Foi uma forma mais gentil de mencionar a minha situação do que aqueles que ouvi a vida toda: deficiência, problema, limitação.   Eu dei uma risada. "Não sou exatamente um modelo a ser seguido."   Lucian levantou uma sobrancelha. "Eu diria que você construiu uma vida e tanto pra você e pro seu filho, mesmo enfrentando a hostilidade da sua família e o recente divórcio."   "Eu..." Era um pouco desconcertante o quanto esse estranho sabia sobre mim.   "A questão é, Sera," ele disse, " que eu acho você inspiradora, e sei que muitos outros também achariam. A SDS é mais do que uma organização ajuda humanitária. Também oferecemos as... ferramentas que cada lobo precisa. Podemos te treinar, pra que você se fortaleça e nunca mais precise depender de alguém pra te salvar."   Eu olhei para o cartão nas minhas mãos... e então de volta para Lucian.   Ele sorriu gentilmente. "Você não precisa decidir agora. Pode pensar no assunto."   Eu assenti lentamente. Isso, eu poderia fazer.   "Obrigada," eu disse suavemente.   "Você já disse isso."   Eu ri baixinho. "É, mas..." Ninguém nunca tinha me convidado para fazer parte de algo ante. Mesmo a minha alcateia e a minha família, com quem a sensação de pertencimento deveria ser automática, não me quiseram. Mas ali estava o Lucian, que me procurou, que queria que eu fizesse parte de algo. Parecia bom demais para ser verdade.   "Bem," Lucian disse, levantando-se, "acho que devo ir."   Eu também me levantei e o acompanhei até a porta.   "Espero que diga sim," ele disse ao abrir a porta. "Acho que seria muito bom pra você."   Eu sorri com hesitação. "Vou pensar."   Ele me deu um último sorriso antes de sair.   Suspirando, me apoiei na porta e olhei para o cartão em minhas mãos. "'Saindo das Sombras'", eu sussurrei e me perguntei como seria. Se a organização fosse cheia de lobos sem alcateia como eu, eu estaria entre os meus. Seria possível? Eu poderia encontrar uma comunidade que...   Uma batida brusca na porta me assustou.   Sorrindo, eu a abri. "Você esqueceu alguma coisa...?"   Kieran me olhou de cima, e foi como se uma bolha estourasse sobre minha cabeça, me trazendo de volta à realidade. E eu achando que a ideia de ele vir me visitar era ridícula.   "O que você tá fazendo aqui?"   Kieran virou, e eu segui seu olhar para ver um Aston Martin vermelho escuro se afastando. Ele deve ter encontrado o Lucian na rua.   "O que ele estava fazendo aqui tão cedo?" Kieran resmungou, voltando a me encarar.   Uma emoção estranha passou por mim, algo que eu nunca tinha sentido pelo Kieran antes... irritação.   "Não é da sua conta."   Ele entrou, passou por mim e foi em direção à sala de estar, observando tudo. "Ei," eu chamei. "Você não pode simplesmente..."   "Ele dormiu aqui?"   Eu pisquei. "Como é?"   "Ele dormiu aqui?" Kieran repetiu, como se minha pergunta fosse de confusão e não de indignação.   Eu zombei. "você precisa de um dicionário?" perguntei.   "O quê?"   "Porque claramente você precisa se lembrar do significado de 'divorciado'. Nada que diz respeito a mim é da sua conta, Kieran."   Ele não se importou com nada relacionado a mim durante a década em que fomos casados, então como ousava tentar demonstrar interesse agora?   Seus olhos escuros faiscaram. "Eu posso não ser mais seu marido", ele rosnou, "mas sempre serei o pai do seu filho, e você não pode trazer homens estranhos pra casa do meu filho quando..."   "Ah, mas tudo bem sair por aí exibindo o seu relacionamento com a Celeste na frente do Daniel?" Eu não sabia por que estava tão irritada, não é como se o Lucian tivesse passado a noite na minha casa ou como se eu tivesse feito algo errado. A questão é que, de qualquer forma, isso não era da conta do Kieran. Não mais.   "Você é muitas coisas, Kieran, mas não sabia que era um hipócrita."   As sobrancelhas dele se franziram tanto que quase se uniram. "Como é?"   Apontei para a porta. "Vai, pode ir."   Kieran soltou um riso incrédulo. "Não sei o que deu em você ultimamente, mas não tô te reconhecendo, Seraphina."   Dei uma risada seca. "E quem eu sou então?" perguntei. "Como eu sou, Kieran? Porque posso garantir que você não me conhece. Nunca conheceu. Na verdade, acho que esta é a conversa mais longa que já tivemos."   Kieran deu um passo à frente. "Eu..."   "Mãe? Pai?"   Kieran e eu nos viramos para ver o Daniel no pé da escada, esfregando os olhos.   "Filho!", eu ofeguei, desviando do Kieran para ir até ele.   Seus cachos estavam bagunçados e eu passei a mão gentilmente por eles. "Te acordamos?"   Ele balançou a cabeça. "Foi o despertador do seu celular, tá na hora de ir pra escola."   Olhei para o relógio: sete da manhã.   "Certo."   Daniel olhou por cima do meu ombro e deu um sorriso enorme para o Kieran. "Oi, pai."   Fiquei um pouco tensa quando o Kieran se aproximou de nós, de repente sorrindo amplamente. "Bom dia, Campeão."   Ele balançou um livro que eu não tinha notado em sua mão antes. "Você esqueceu isso no meu escritório da última vez que fez o dever de casa lá e achei que precisaria dele pra escola."   Daniel estendeu a mão e pegou o livro. "Obrigado, pai." Então, ele respirou fundo e se virou para mim com os olhos brilhando de alegria. "Você vai fazer panquecas?"   Assenti.   Daniel começou a pular nas pontas dos pés. "O Papai pode ficar pra tomar café da manhã?" Ele se virou para o Kieran. "Pai, você pode ficar pro café da manhã?"   De jeito nenhum. "Danny, tenho certeza que seu pai..."   "Adoraria," interrompeu Kieran.   Nossos olhares se cruzaram por cima da cabeça do Daniel e algo estralou no ar entre nós, volátil e instável. Eu não conseguia identificar exatamente o que era, mas subitamente perdi a fome.
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