Capítulo 6

1612 Palavras
  Ponto de vista de Elena   Eu não sabia se deveria amaldiçoar minha sorte ou agradecê-la. Por que toda vez que eu chegava ao fundo do poço, Eric Thompson estava exatamente ali? Será que ele tinha algum tipo de GPS de humilhação instalado em mim?   Assim que me recuperei, dei um passo para trás—afastando-me do calor, do cheiro e da presença avassaladora dele—e murmurei: "Obrigada."   Algo passou pelos olhos dele. Um vinco na testa, quase imperceptível, como se ele desaprovasse a distância que eu havia colocado entre nós.   "O que está fazendo aqui tão cedo?" A voz dele era baixa, controlada. "Foi o hospital—"   Antes que eu pudesse responder, a gerente de RH apareceu na porta. Assim que o viu, ela se endireitou imediatamente, a postura ficando rígida. "Senhor. Desculpe. Nós estávamos apenas... lidando com uma situação."   "Eu não sou uma situação," interrompi, minha voz tranquila, mas firme.   "Estávamos apenas a acompanhando para fora," acrescentou a gerente, me lançando um olhar nervoso. "Ela causou uma cena, mas está sendo resolvido."   Ignorei-a completamente, focando toda a minha atenção em Eric. Ele era a verdadeira autoridade ali. Minha única chance. E eu não desperdicei.   "Senhor." Encarei diretamente os olhos cinzentos como tempestade dele. "Eu vim buscar minha rescisão. Ela está dizendo que eu não existo nesta empresa."   "Não há registros de emprego de nenhuma Elena Grey na Thompson Crest Enterprises," interveio a gerente, de maneira cortante, claramente esperando que essa revelação me destruísse.   Meu peito apertou. "Mas eu trabalhei aqui por quatro anos. Participei de projetos. Colaborei com equipes. Recebia salário todo mês. Como posso simplesmente... não existir?"   "Senhor, simplesmente não há—" As palavras da gerente vacilaram sob o olhar de Eric.   Aqueles olhos cinzentos fizeram-na recuar, frios e perspicazes, como se fossem capazes de arrancar as máscaras das mentiras dela só com força de vontade. Ela engoliu seco.   "O Sr. Dalton a contratou pessoalmente," ela finalmente admitiu. "Todos os documentos dela passaram por ele. Eu não sei onde ele guardou."   A raiva ardia no meu peito. Mark não apenas me traiu—ele tentou me apagar.   A voz de Eric cortou a tensão, calma, mas definitiva. "Se seu supervisor direto te contratou pessoalmente e te demitiu pessoalmente, não posso interferir nisso. Eu prometi à minha irmã—não vou enfraquecer a autoridade do Mark aqui."   Meu estômago se apertou, mas me recusei a desmoronar. Claro. Ele agora era cunhado do Mark. Por que ele ficaria do meu lado?   Eric olhou para o relógio, já mudando de assunto, e puxou o celular.   Poucos minutos depois, sua assistente entrou na sala.   "Entregue um cheque em branco para ela." A voz de Eric era fria, desinteressada. Ele fez um gesto casual em minha direção, sem realmente me encarar. "Deixe-a preencher com o valor que achar que merece. Tenho uma reunião."   Ele não esperou por uma resposta. Entrou no elevador, e as portas se fecharam atrás dele.   Fiquei ali, de mãos vazias, atordoada. O gerente de RH me olhou com olhos frustrados e desamparados.   Quando a assistente dele me entregou o cheque em branco, olhei para o papel na minha mão—sentindo apenas um estranho vazio. Alívio, talvez. Ou humilhação. Já não conseguia distinguir.   ***   De volta ao apartamento da May, desabei no sofá, o caos do dia ainda ecoando na minha cabeça. "Você não vai acreditar no que aconteceu," murmurei, contando tudo.   May balançou a cabeça, sua expressão suavizada pela preocupação. "Elena... não acredito que o Mark fez isso com você. Te apagou. Como se você nunca tivesse existido." Ela soltou um suspiro pesado. "Sinto muito. Isso é... é simplesmente desprezível."   Dei de ombros, tentando agarrar o pouco de dignidade que me restava. "Acabou. Só preciso seguir em frente."   Os olhos dela se fixaram no envelope na minha mão—o cheque em branco que a assistente de Eric havia me dado.   Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios. "Então... deixa eu ver se entendi direito. Você pode preencher esse cheque com qualquer valor, e o Sr. Poderoso nem vai notar? Ele tem mais dinheiro do que Deus. Essa é sua chance de realmente viver, Elena. Do seu jeito."   Eu hesitei. Por um momento, deixei-me imaginar. Um número. Qualquer número. O suficiente para quitar as contas médicas da minha avó. O suficiente para um apartamento de verdade. O suficiente para respirar.   Mas então me lembrei da maneira como Eric me olhou naquela sala de RH — intenso, avaliador, como se pudesse enxergar através de mim. Um arrepio percorreu minha espinha.   Balancei a cabeça, apertando o envelope com força. "Não. Isso não faz parte de quem eu sou. Vou aceitar o que é meu por direito. E vou descontar as contas do hospital que ele pagou. Não vou deixar ele pensar que sou algum tipo de aproveitadora ou golpista."   May suspirou, encostando-se na cadeira com uma mistura de frustração e admiração. "Você é incrivelmente teimosa, sabia? E absurdamente cheia de princípios." Ela balançou a cabeça. "Mark não faz ideia da preciosidade que perdeu."   Pressionei o envelope contra o peito, aquele misto estranho de alívio e humilhação ainda fervendo dentro de mim.   "Não, May. Você não entende. Nada na vida é de graça. Todo presente vem com um preço — mesmo que você não o perceba. E eu prefiro dormir tranquila com o que é meu do que ficar acordada por causa do que não é."   Na manhã seguinte, eu estava no apartamento apertado da May, minha mala meio cheia, enquanto a culpa apertava no meu estômago. "Eu realmente não posso ficar aqui mais tempo, May. Preciso me manter de pé sozinha," eu disse, fechando o zíper da mala com resolução.   May franziu a testa, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Elena... você já passou por tanta coisa. Tem certeza? Por que tanta pressa? Tudo bem que este lugar parece uma caixa de sapato, mas—"   "Eu sei." Meu tom suavizou, e segurei sua mão. "E sou muito grata, de verdade. Mais do que você imagina. Sem você, eu não teria sobrevivido nessas últimas semanas. O seu amor... o seu cuidado... foi o que me manteve de pé quando tudo parecia desmoronar."   Os olhos dela brilharam, e então ela me puxou para um abraço rápido e apertado. "Promete uma coisa pra mim: se cuida, tá? E não deixa ninguém—Mark, Eric, ou qualquer outro i****a—te pisar de novo."   "Eu prometo," sussurrei, me afastando com um sorriso trêmulo. "Eu só... preciso tentar."   ***   As semanas seguintes passaram num turbilhão implacável.   Depois de mandar dinheiro para casa para cobrir as dívidas da família e as despesas médicas da minha avó, usei o pouco que sobrou para alugar um pequeno estúdio — m*l maior que um armário, mas era meu. Então me joguei no mercado de trabalho com tudo o que tinha.   Dezenas de currículos. Cartas de apresentação personalizadas para cada vaga. Preparação para entrevistas até meus olhos arderem.   Meu celular virou um cemitério de e-mails de rejeição:   "Obrigado pelo seu interesse em Edward & Co. Infelizmente, decidimos seguir com outros candidatos..."   "Agradecemos seu tempo, mas a vaga já foi preenchida..."   "Após uma análise cuidadosa, lamentamos informar..."   E eles continuavam chegando. Cada um doía—uma pontada pequena e aguda que eu me forçava a engolir. Temporário, eu lembrava a mim mesma. Isso é temporário. Vou encontrar algo.   Numa tarde chuvosa, depois de uma entrevista desastrosa em uma agência de marketing de médio porte, fiquei perto do saguão para fazer uma ligação. Mas uma sensação de afundamento me paralisou.   "Sim, Jeniffer?" A voz da recepcionista atravessava uma divisão de vidro, sua conversa era impossível de ignorar.   "...Sim, eu entendo... Não, não podemos contratá-la... Já conversei com o Sr. Dalton... Sim, ele está decidido quanto a isso. Ela não se encaixa. Sem exceções."   Minha barriga deu um nó.   Pressionei a mão contra minha boca, ouvindo enquanto meu futuro era desmontado por alguém que nem sequer me conhecia. Alguém com quem Mark havia conversado. Alguém que ele havia convencido de que eu não era adequada. Não qualificada. Indigna.   Um fogo de raiva tomou conta do meu peito.   Mark. Mark estava me sabotando.   Disquei o número dele antes de pensar duas vezes. A linha conectou.   "Elena?" A voz dele—familiar, irritante, arrogante—se fez ouvir.   "Mark!" Eu sibilei, minha voz trêmula apesar de todos os meus esforços. "O que diabos você pensa que está fazendo? Está mesmo tentando destruir a minha vida? Sabotando todas as vagas que eu me candidato?"   Uma pausa. Então veio aquele tom preguiçoso e condescendente que eu conhecia muito bem.   "Elena... Acho que você está exagerando. Não é tão sério quanto você tá dizendo."   "Não é sério?" Minha voz gelou de indignação. "Não há mais nada entre nós, Mark. Você conseguiu sua Bella. Conseguiu sua vida nova e brilhante. Então, por que está tentando me apagar? Por que quer destruir o meu futuro? Quem te deu esse direito?!"   "Calma." O tom era tranquilizador, como se eu fosse uma criança fora de si. "Olha... tô disposto a conversar. Me encontre. Bluebird Café. Às três."   "Bluebird Café?" Repeti, a descrença afiando minha voz. "Quer que eu te encontre no Bluebird Café? Tá falando sério agora?"   "Por favor, só me escuta, Elena." E, então, ele desligou, a linha ficou muda na minha mão.   Fiquei ali, no saguão encharcado de chuva, segurando meu telefone com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos. Cada instinto me dizia para recusar. Para desligar. Para virar as costas e nunca mais olhar para trás.   Mas eu precisava de respostas. Eu precisava entender como o homem que eu amei se tornou alguém capaz de uma crueldade tão calculada.   Então, eu fui.
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