Capítulo 2

1185 Palavras
  Elara   Na manhã seguinte, fui até o Moon Harbor — o clube privado mais exclusivo e restrito da cidade. Minha mãe havia agendado ali o meu encontro com o tal "pretendente".   Meu alvo era claro. Damian Sterling, o segundo filho do Alfa da Alcateia Sterling. Não era o herdeiro, mas tinha sangue puro. E, o mais importante, diziam que ele não ligava para a pureza da linhagem da sua companheira.   Em outras palavras, ele aceitaria uma híbrida.   Todo mundo conhecia os boatos sobre Damian Sterling. Playboy, riquinho mimado, a vergonha da família Sterling.   Perfeito.   Sorri friamente.   Era exatamente daquele tipo de homem que eu precisava. Ele buscava uma esposa de fachada para manter as aparências perante a alta sociedade dos lobos, e eu precisava de um marido no papel para reaver o patrimônio do meu pai. Um acordo de conveniência mútua, onde ninguém sairia ferido — simplesmente porque não haveria sentimentos envolvidos.   Comparado àqueles Alfas moralistas que achavam que estavam "salvando" híbridas, eu preferia um inútil honesto. Pelo menos ele não fingiria me amar. E não me trairia por causa de pureza de sangue quando as coisas ficassem difíceis.   A recepcionista do clube me conduziu de elevador até a cobertura.   "Suíte 1012", indicou ela, com um tom profissional. "O Sr. Sterling já está à sua espera."   Consenti com um aceno e memorizei o número.   O corredor ostentava portas idênticas, feitas de madeira nobre com entalhes sofisticados e placas de metal polido. Fui avançando e checando os números: 1008, 1009, 1010…   De repente, meu celular vibrou no bolso.   Mensagem da minha mãe: "Lembre-se, esse casamento é vital para os negócios da família. Não estrague tudo."   Quase ri. Família. Que piada.   Nem me dei ao trabalho de responder. Se ela queria me usar como um degrau para subir na hierarquia da alcateia, que tentasse — mas eu não ia performar o papel de filha dedicada.   O corredor fez uma curva. Uma porta à frente deixava vazar vozes lá de dentro.   Confiante de que estava no lugar certo, respirei fundo e empurrei a porta.   A suíte privada estava na penumbra. Fumaça, álcool e feromônios de lobo pesavam no ar. Homens e mulheres espalhavam-se pelos sofás em uma atmosfera de festa privada e hedonista; casais sussurravam e flertavam sob a iluminação âmbar difusa.   Fiquei parada na entrada, sem saber exatamente para onde ir.   Então a risada provocante de uma mulher cortou o barulho: "D! Me serve mais uma!"   E eu rapidamente encontrei quem estava procurando.   Ele estava num canto, afundado em um sofá de couro preto, esparramado como se fosse dono do lugar. Alto e esguio, ombros largos, cintura estreita. A camiseta preta destacava músculos definidos, e as mangas dobradas revelavam antebraços fortes com cicatrizes leves. O cabelo castanho-bronzeado estava bagunçado sob a iluminação âmbar. Traços afiados, nariz alto, mandíbula marcada. Os olhos cor de âmbar pareciam bêbados e desfocados enquanto ele girava um copo de uísque entre os dedos.   Era ele.   Exatamente como diziam os boatos. Sem rumo, promíscuo, completamente sem salvação.   Exatamente o tipo de parceiro de que eu precisava.   Respirei fundo e caminhei até ele.   "Damian?"   Antes que ele respondesse, uma loba ao lado dele me enxotou com um gesto impaciente. "De onde saiu essa mestiçazinha? Não tá vendo que o D tá ocupado? Cai fora."   Ignorei-a e olhei direto para ele. "Olá. Eu sou Elara Park."   Ele finalmente levantou o olhar.   Os olhos âmbar, que pareciam desfocados um segundo antes, de repente mostraram algo antigo e perigoso — como um predador à espreita que acabou de abrir os olhos de verdade.   Quando o olhar dele encontrou o meu, senti um tremor estranho no peito.   Não era medo. Não era alarme.   Então o que era?   Eu tinha acabado de perder meu laço com meu companheiro. Não podia ser…   Sacudi a cabeça com força, afastando aquelas ideias absurdas. Devia estar imaginando coisas.   No mesmo instante, ele voltou a parecer despreocupado. Fez um gesto para que todos ao redor se afastassem, e os lábios se curvaram num sorriso preguiçoso.   "Interessante. Não são muitas as pessoas que têm coragem de me interromper quando eu tô 'trabalhando'."   Apontou para a cadeira em frente. "Senta, Elara Park. Quero ver o que uma híbrida com cara de colégio particular de elite quer comigo num lugar desses."   Quando me sentei diante dele, aquela sensação incômoda só cresceu.   Minha intuição gritava: os boatos estavam redondamente errados.   Aquele lobo exalava um perigo real.   Ele se recostou na cadeira com ar relaxado, como se nada no mundo lhe importasse. Mas quando olhou para mim, minha loba se enrijeceu instintivamente. Minha respiração falhou por um segundo.   Aquilo não era a pressão comum de um Alfa. Era algo mais antigo. Mais fundo. Quase como a aura de um predador que não precisava se anunciar para ser sentido.   Me firmei. Eu não recuaria.   "Vamos direto aos negócios, Damian." Tirei a pasta com o documento que havia preparado e a coloquei sobre a mesa. "Preciso formalizar um registro de casamento para garantir a posse dos meus bens. Um acordo estritamente comercial: casamento no papel, vidas totalmente separadas e divórcio consensual após um ano. Em troca, você receberá uma compensação financeira extremamente generosa assim que o prazo expirar."   Ele parecia enxergar através da minha calma forçada. Os lábios se curvaram num sorriso leve, com um toque de malícia preguiçosa.   "Tá com tanta pressa assim pra se casar?"   Eu odiava o jeito como ele me olhava — como um predador avaliando a presa antes de decidir se tinha fome.   Empurrei o contrato na direção dele.   "Não é casamento. É uma transação." Mantive a voz fria. "Preciso de um cônjuge legal. Após a assinatura, cada um segue o seu rumo. Sem drama, sem envolvimento emocional e sem ultrapassar os limites estabelecidos. Você assina, eu pago. Simples assim."   Eu esperava que ele zombasse de mim. Que dificultasse tudo, que barganhasse, que me olhasse com aquele sorriso superior e me mandasse embora.   Mas ele apenas baixou os olhos para o contrato uma vez.   E riu baixinho.   Aquele riso me deu um arrepio.   No instante seguinte, pegou uma caneta e assinou sem hesitar.   Fiquei atônita.   Foi rápido demais. Rápido demais para um playboy inconsequente. Foi tão instantâneo que me deu a nítida e perturbadora impressão de que ele estava esperando por aquele maldito contrato a vida inteira.   Tentei puxá-lo de volta, mas ele se levantou, segurando o documento fora do meu alcance. Tropecei para a frente e caí nos braços dele.   Um aroma envolvente tomou meu nariz, deixando-me tonta por um instante.   Ergui os olhos para encará-lo de perto e, pela primeira vez desde que pisara naquela suíte, uma pontada aguda de puro arrependimento fisgou meu estômago.   Mas o negócio já havia fechado. Ele dobrou o papel com um estalo seco.   O olhar dele se prendeu ao meu. A voz saiu baixa e afiada como uma lâmina no escuro.   "Elara", ele sussurrou, aproximando-se o suficiente para que eu sentisse seu hálito quente. "Eu realmente espero que você não se arrependa de ter caminhado direto para a minha toca por livre e espontânea vontade."   Naquele exato momento, meu coração errou uma batida, tomado por um pressentimento avassalador.
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