Amigos (2)

993 Palavras
Valerie O quê? Uma pontada me atravessou enquanto choque enchia minhas veias. Isso… nunca soube. — Quando seus pais vieram me pegar, encontrei outra família com eles. Mas aquele pensamento, aqueles olhares… nunca sumiram — balançou ele a cabeça. Por toda a alcateia, ele era conhecido como o futuro Alfa. Ninguém na nossa alcateia ousaria dizer aquela palavra quando se tratava dele. Ele era Tristan, a criança com quem cresceram para eventualmente liderar. ‘Mas não importava’, pensei, horror me invadindo. Ele já havia sido rotulado. Como deve ter sido para uma criança como ele na época carregar aquelas palavras? — Não queria que mais ninguém fosse tratado assim. Se estivesse no meu poder… era por isso que agia do jeito que agia com- — sua voz falhou, queixo tremendo. Levou alguns segundos para a palavra não dita se assentar. Uma nova onda de choque me atravessou. — Alyn — ofeguei e ele assentiu. — Não menti quando disse que não sentia nada por ela dessa forma, mas isso não importa, não é? Minhas ações, tudo foi errado mesmo assim — sorriu ele melancolicamente para mim. Engoli em seco. A revelação atingiu forte, encaixando peças que nunca pensei serem necessárias. Todas as ações dele, sua protetividade por ela era para que ela não enfrentasse o mesmo estigma que ele. Ainda pior com o fato de que ela era abandonada e uma rogue na época. Sua p******o, defesa e mimo não eram por afeto, mas o quê? Dever? ‘Não dever. Cuidado. Amor.’ Pensei. ‘Só não o tipo de amor que eu acreditava.’ Mas o caminho para o inferno é frequentemente pavimentado com boas intenções. Não mudava o fato de que ele foi longe demais com aquele cuidado e p******o. E eu era responsável por arcar com a dor. — Não sei por que fui tão t**o e extremo. Ao garantir que ela tivesse uma família, nunca notei que você perdeu a sua — disse ele, olhando para cima para me encarar. Pisquei, respiração prendendo com o brilho nos olhos dele. Eles falavam verdadeiramente de arrependimento. — Sinto muito. Nunca me desculpei verdadeiramente por isso. Por não ver tarde demais. ‘Não é culpa sua’, queria dizer, mas não conseguia. De fato, ele tinha sua parte, mas não podia culpá-lo, vendo seu remorso claro. Ele não era o motivo de eu perder o amor dos meus pais também. Não podia controlar as ações deles. Eles eram meus pais, mas não me tratavam como filha há muito tempo. As palavras permaneceram retidas quando ele riu, balançando a cabeça antes de falar. — O irônico é que ainda amo todos eles, mas ninguém mais parece ver através de mim além de você. Minha respiração prendeu. Seus olhos pareciam encarar minha alma como se estivesse me vendo. Por que meu peito de repente parecia tão apertado? — Bem, sou conhecida por ter poderes especiais — brinquei após alguns segundos. Um bufo escapou dos lábios dele me fazendo sorrir e por um momento o ar pareceu mais leve e livre. Após morrer, pursei os lábios. — Você não merece isso. Nada disso. O que eu disse naquele dia foi… e******o — disse, apertando o joelho dele antes de soltar. Calor subiu nas minhas bochechas uma vez que percebi quanto tempo estive tocando nele. — Você acha… que as coisas poderiam ter sido diferentes? Entre nós — perguntou ele. Meu coração pulou uma batida. Se ele queria me deixar sem palavras, havia sucedido. Minha mente corria. O que eu deveria dizer? Outrora desejaria isso. Em outro mundo sem Alyn, um em que eu ainda era sua companheira. Se ele não tivesse percebido as coisas tarde demais, se tivesse se importado comigo desde o início, como as coisas seriam? Uma visão de estar ao lado dele, anunciando felizmente minha gravidez. Nós conversando durante festas da alcateia. Ele me amando… Empurrando aqueles pensamentos para longe, soltei uma risadinha leve e rezei para não soar forçada demais. — Acho que você e eu estamos onde deveríamos estar. ‘Mesmo se não parecesse assim.’ Assenti para me reafirmar. — Somos melhores assim. Amigos. — Amigos? — suas sobrancelhas franziram e sorri. — Sim — disse. — Sinta-se à vontade para me contatar por mensagem ou enviar cartas se puder. Quando eu partir, pode me contar quaisquer queixas que tiver. Saiba que não está sozinho. Seu olhar não suavizou. Era como se estivesse procurando algo enquanto um olhar desconhecido vinha aos olhos dele. O que ele estava sentindo agora? — Pode… fechar os olhos? — perguntou ele me fazendo piscar. — Há algo que quero fazer, só dessa vez. Confusão e curiosidade rodopiaram em mim com sua expressão séria. A cautela morreu e fechei os olhos. O que ele ia fazer? Formigamentos subiram no meu rosto com a leve sensação da respiração dele colidindo quando senti algo quente e macio pressionar contra minha pele. Meu coração parou. Não conseguia respirar. Ele estava… me beijando. Seus lábios deixaram minha testa um momento depois e abri os olhos, boquiaberta para ele. — Obrigado, Valerie. Por tudo. Sinto muito por ver tarde demais. Ele sussurrou em uma voz tão baixa que quase pensei ser imaginação. Permaneci congelada enquanto ele se levantava e saía. Meu coração martelava no peito enquanto o local formigava. O que ele havia feito? O que ele… quis dizer? Encarando o local por onde saiu, não havia resposta que pudesse pensar. Saí do salão vazio, suprimindo tudo. Agora não era hora de pensar naqueles sentimentos confusos… estranhos. Virei o canto quando uma voz chamou minha atenção. Instantaneamente tracei para um banheiro com a porta entreaberta, a pessoa dentro visível pelas frestas. Era Alyn. Seu rosto não era visto, mas o cabelo e o vestido me fizeram reconhecê-la instantaneamente. Desse ângulo não havia chance de ela me ver e a última coisa que queria era encará-la. Balançando a cabeça, estava pronta para sair quando ela falou. Um calafrio me invadiu. O quê?
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