Tristan
O som do piano arranhava meus ouvidos. Tudo nisso parecia sufocante.
O salão, agora transformado para a cerimônia, parecia ainda pior.
Após semanas de negação, dias de resignação e aceitação. Finalmente estava aqui. Minha cerimônia de acasalamento.
Odiava cada segundo disso.
Estar aqui me levava de volta à minha primeira cerimônia de acasalamento, o que era irônico quando não era nada assim. Não havia alvoroço. Foi corrida e cheia de nervos, só alguns dias após o aniversário de 18 anos dela.
Descobrimos que éramos companheiros na frente da alcateia durante uma celebração e assim, nossos destinos foram selados. Lembro de estar bravo com a repentinidade de ter que atender a ela quando m*l a conhecia além das reclamações dos pais dela e dos comentários de Alyn.
Ela tinha só 18 anos, alguns anos mais nova que eu, mas parecia tão composta. Agora com olhos mais claros, não tinha dúvida de que na época, ela deve ter estado assustada.
Por que a antagonizei mesmo na época pelo bem de Alyn?
Por que a ressenti por algo fora do nosso controle? Éramos ambos jovens na época. Ambos assustados, ambos inexperientes. Mas ela foi quem arcou com o peso do escrutínio de todos, inclusive o meu.
‘Falando em Valerie…’
Um nó se formou na minha garganta enquanto eu voltava para o corredor de assentos para o único que memorizei de cor. O assento arranjado para a Alcateia da Lua Sombria bem ao lado de Alistair.
Ela não estava lá.
Pelos dias finais levando ao casamento, Valerie estava sumida.
Esperava vê-la no dia seguinte, mas não havia traço. Não ousava perguntar a Alistair mesmo quando sentia o olhar furioso dele me irritando. Havia um consenso silencioso de que ela ou passou os dias restantes conversando confinada no quarto do hotel ou simplesmente… partiu.
Meu queixo apertou. A memória da última noite em que a vi ainda estava fresca.
Eu a espantei? Dei demais na cara? Parecia que sim.
Uma onda amarga de autodesprezo me apunhalou com o pensamento. Agi tolamente, perguntando se havia chance de mudança como se não tivesse sido tarde demais, beijando-a pela última vez, mesmo que na testa. Ela me ajudou a começar de novo e até ofereceu amizade. Eu quebrei a pouca confiança que tinha ao ansiar por mais. Era surpreendente que a tivesse afastado?
‘Só mais uma m***a que fiz quando se tratava dela’, meus lábios se torceram sem graça.
Os dias finais levando a isso pareciam insuportáveis sem ela. Ela não ia ao café, nem a via durante as festas. Era como se tivesse sumido completamente e precisei de tudo em mim para me esgueirar no hotel para checar se estava se escondendo.
Não fiz. Me recusei a quebrar os limites que ela estabeleceu.
‘Ainda assim…’ pensei para mim mesmo, meu coração doendo.
Desejava que ela estivesse aqui.
Enquanto selava as correntes finais dessa união indesejada, queria dar um último olhar à mulher que acasalei.
A mulher que amava.
Um conceito tão simples que levei até recentemente para perceber, mas estava lá todo esse tempo.
Senti durante os tempos quietos que passávamos fazendo absolutamente nada no café. A primeira vez enquanto ela não me notava, focada na janela como se acreditasse que eu também estava, foquei nela. A forma como as sombras pairavam no rosto dela até o sol nascer, colorindo seu cabelo loiro prateado com um calor fraco.
Daquele momento em diante, ia lá não só por uma fuga, mas por ela.
A dor no meu peito enquanto ela oferecia aquelas palavras de amizade dias atrás, oferecendo ouvir apesar da distância foi a gota d'água que trouxe minha realização. Eu a amava. E era tarde demais.
Senti meu coração se partir quando beijei sua testa. Não disse aquelas palavras só por ser tarde demais para vê-la como era.
Era tarde demais para fazer qualquer coisa sobre isso.
Uma pressão quente no meu braço me fez quase recuar até encontrar olhos familiares e cabelo loiro amarelo em cachos presos. Estava tão fora de mim que não notei a entrada dela?
Ela sorriu, mas senti nada além de pavor. Meu coração afundou ainda mais enquanto o Sacerdote da Alcateia tomava seu lugar. Estava começando.
— Hoje estamos aqui para testemunhar-
— Espera!
Meu coração pulou uma batida assim que ouvi o alvoroço enchendo o salão. Virando a cabeça para o lado, minha respiração prendeu.
Valerie estava na entrada do salão, o cabelo desgrenhado. Estava longe de formal, usando uma camisa e jeans.
Era a coisa mais linda que já vi.
Olhando para ela, era claro que havia corrido para cá. De onde veio?
— Eu me oponho a isso. Essa cerimônia de acasalamento não pode acontecer — anunciou ela.
Imediatamente murmúrios irromperam.
Choque me invadiu até a borda enquanto ela andava pelo corredor. Todos os olhos estavam nela, mas ela encarava bravamente para frente para nós.
Para mim.
— Valerie, qual o significado disso? — perguntou a mãe dela, e lamentei sua atenção assim que ela olhou para onde eles estavam sentados antes. Irritação me invadiu, no entanto, pelas palavras que minha ex-sogra disse.
— Ele pode ter sido seu companheiro uma vez, mas isso foi no passado. Alyn e o Alfa Tristan estão começando uma nova vida juntos. Você não pode ser fel-
— Confie em mim, mãe, pai. Não tinha interesse em interromper essa cerimônia. Fiquei aqui por dias, não fiquei? Também aceitava essa cerimônia — disse Valerie, cortando-a. Todo o lugar pairava em suspense enquanto ela virava de volta para o altar.
— Isso é, se não fosse baseado em uma mentira.
Suspiros encheram todo o salão. Meu peito apertou.
O quê?
Virando-me de volta, encontrei Alyn focada nela. Seu rosto não mostrava nada, mas podia ver o buquê sendo esmagado.
Uma mistura de amargura e raiva surgiu em mim. Pelos últimos dias me engoli com resignação, me forçando a aceitar isso, me culpando no processo por não ser cuidadoso demais.
E não era verdade?
Virando de volta para Valerie, meu coração acelerou no peito. Ela não estava mais focada em mim, mas nela.
— Alyn, você vai contar a eles, ou eu tenho que fazer? — perguntou ela.
— Não sei do que você está falando — disse Alyn. — Valerie, irmã, por que está fazendo isso?
— Acho que sou eu que tenho que fazer — sorriu Valerie amargamente.
Sem uma palavra, ela se moveu para a mesa de som. A melodia aguda do piano que tocou durante toda a cerimônia foi cortada. Então houve estática e então…
— Vou lidar com isso depois. Só me dê mais alguns dias — uma voz ecoou e tudo ficou imóvel. Era a voz de Alyn.
Uma risada ecoou do alto-falante, soando ligeiramente distante e misturando com estática.
— Você está falando sério? Pensaria que peguei um rim seu ou algo assim. Quanto urina de uma mulher grávida deveria custar, afinal?
Inspirei fundo asperamente. Com aquelas palavras, todo o quarto pareceu instantaneamente gelado.
— Precisei da sua ajuda uma vez para enganar o médico da alcateia. Duvido que precise de novo. Só uma confirmação simples é suficiente para todos acreditarem em mim. Se qualquer coisa, direi que tive um aborto espontâneo. Fácil. Vou enviar o dinheiro. Não me contate de novo.
Os murmúrios cresceram insuportáveis assim que houve o som de arrastar antes de silêncio completo, o sinal revelador do fim da gravação.
O rosto de Alyn estava completamente vermelho enquanto Valerie entrava em vista.
— Você admite agora, Alyn? — perguntou ela, erguendo uma sobrancelha.
— O motivo de eu ter estado tão ausente é porque precisava de mais prova. As gravações de CCTV foram deletadas, no entanto, havia um funcionário que notou tudo, inclusive vendo você arrastar um Tristan inconsciente para o quarto dele. Ele estava completamente desmaiado no chão. Como diabos ele poderia ter dormido com você nesse estado?
— Valerie, chega! — uma voz estalou, me fazendo virar. O rosto do Beta Jude estava vermelho enquanto encarava Valerie, sua filha.
— Caos segue onde quer que você esteja presente. Pensaria que as coisas seriam diferentes, mas você não hesitou em desgraçar sua irmã tão publicamente. Por que está fazendo isso? O que há de errado com você?
Irritação correu por mim pelo bem de Valerie enquanto a sentia vacilar. Por um momento, vislumbrei aquele olhar vazio e quebrado que ela carregava de volta quando revistamos o quarto de Alyn enquanto ela me dizia aquelas palavras.
— Ninguém se importava comigo, nem mesmo você.
‘Não’, meu peito apertou, não mais.
— Eu pedi a ela — disse, ignorando os suspiros e olhares que seguiram. Era a primeira vez que falava.
Meu olhar percorreu todas as expressões deles, do choque pálido de Alyn às pessoas que tomavam lugar como meus pais. Todos os rostos misturados com choque e incredulidade. No final, deixei finalmente pousar nela.
O choque de Valerie era mais sutil, os lábios ligeiramente entreabertos enquanto me olhava com algo akin a incredulidade. Lutando contra o nó no estômago com o olhar dela, ofereci um pequeno sorriso na direção dela.
Por tanto tempo ela lutou sozinha, seja por si mesma e pela alcateia e perdeu. Eu era seu companheiro uma vez, e ainda assim não fiz nada para ajudá-la.
Agora era um homem apaixonado, e ia mostrar a ela de qualquer forma que pudesse.
Não ia deixar ela ficar sozinha.