Plano

1026 Palavras
Valerie — Por que você não está lá embaixo? Você não sabe que seus pais e Alyn estão esperando por você? — Ele latiu, me encarando. Como a tradição ditava, o café da manhã na casa da alcateia não podia começar sem a minha presença. Era por isso que eu me esforçava para acordar tão cedo, apesar de não ser uma pessoa matutina. Se eu não estivesse em choque, eu teria percebido. — Eu... Eu sinto muito — gaguejei —, eu só estava... — Não dê desculpas — ele me interrompeu —, Alyn acabou de se recuperar de um resfriado e você está deixando ela esperar pela comida? Venha e deixe todo mundo comer. Eu apertei os lábios enquanto ele se virava, sem nem me deixar falar uma palavra. O choque se dissipou em uma dor familiar e eu sorri sem alegria. É claro, a única coisa que importava para ele era Alyn. Eu achava que estava acostumada com isso, mas de alguma forma reviver isso doía mais, especialmente agora. — Aí está você! — Minha mãe bufou quando cheguei —, a comida está esfriando. Você está tentando fazer Alyn adoecer de novo? Eu trinquei o maxilar. Alyn podia comer a qualquer hora que quisesse, assim como meus pais podiam se estivessem em suas casas, mas não era o caso. Meus pais insistiam em vir para a casa da alcateia, a casa que era supostamente só para Tristan e eu, para tudo. Com Alyn envolvida, ele praticamente tinha dado uma casa para eles aqui. Se a tradição não existisse, eu não tinha dúvida de que eles me esqueceriam completamente. — Mãe, tudo bem. Não critique a irmã. Tenho certeza de que ela tinha outras coisas para fazer. — Alyn sorriu graciosamente. Meu estômago revirou ao ver aquilo, quando suas confissões e aquele sorriso permaneciam firmes na minha mente. — Não a desculpe. Ela não estava fazendo nada além de ser preguiçosa. — Tristan disse ao meu lado. Ele nem me olhou de novo. Eu engoli em seco, absorvendo suas palavras antes de me sentar. Parecia um dia qualquer, até na minha vida passada, mas toda vez que eu olhava para Alyn, eu ficava em guarda, como se esperasse que ela pulasse em mim. No entanto, nada aconteceu. Ela não faria isso, percebi. Ela não precisava mostrar sua malícia quando todo mundo a apoiava de qualquer jeito. E eu era a única que sabia disso. Durante todo o café da manhã, meus pais reclamavam de uma coisa ou outra que achavam ser culpa minha. Alyn permanecia em silêncio, me defendendo fracamente, o que só alimentava o veneno deles contra mim. Era sutil, mas tão óbvio que me deixava cada vez mais amarga por dentro. E ainda assim, não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso. Não era o mesmo que na minha vida passada? Agora eu via claramente como ela os virava contra mim com facilidade, enquanto se aproximava deles, conquistando sua admiração e despejando a raiva deles em mim. E todo mundo entrava no jogo, sem perceber o que estava acontecendo. Eu lutei tanto na minha vida passada, esperando por uma mudança, mas o que ganhei? Meus esforços seriam úteis agora? Eu tinha ainda menos apetite pela comida na mesa. Olhar para ela fazia meu sangue ferver e meus olhos se encherem de lágrimas. Tinha sido preparada de acordo com os gostos de Alyn. Eu não conseguia lembrar a última vez que comi algo que eu gostava. Minha náusea se intensificou. Eu olhei ao redor e vi que todo mundo estava focado em Alyn. Ninguém me notava ou se importava comigo. Isso vinha acontecendo há muito tempo. Uma existência miserável e impotente. Antes que eu percebesse, eu explodi, batendo as mãos na mesa de jantar antes de sair correndo. Eu não aguentava mais. Eu havia antecipado o tratamento deles, mas reviver isso tornava as coisas mais claras. No momento em que fechei a porta do meu quarto, me permiti desabar em lágrimas. Agora eu sabia de tudo o que ela havia feito, mas o que importaria? Eu sempre lutei e dei o meu melhor pela alcateia só para ser rebaixada em troca. Não era só a astúcia dela quando eles nunca a questionavam ou acreditavam em mim. Por que eu sacrificaria mais por pessoas que não se importavam? Que nem se davam ao trabalho de estar lá quando eu dei meus últimos suspiros? Não havia luta quando ela era a vencedora clara. De qualquer jeito, eu perderia e morreria miserável. Determinação me encheu. Dessa vez, eu não podia deixar isso acontecer. Minha morte começou com um pequeno conflito, ironicamente instigado por Alyn com outra alcateia. A solução teria sido simples se eles escutassem, mas Tristan e a alcateia me ignoraram. Não só ela, a alcateia inteira não era segura para mim ou para o meu filho. Eu engoli em seco. A solução era simples: eu tinha que abrir mão da minha posição como Luna, do meu laço de acasalamento e deixar a alcateia. Isso significava me tornar uma Renegada e deixar para trás todo mundo que eu conhecia e tudo o que construí na minha vida inteira. Mas também significaria me libertar dessa experiência infernal. Significaria viver. Eu fechei os olhos com força. Correndo para a minha escrivaninha, peguei rapidamente um pedaço de papel para planejar. A vida ia ser diferente, mas valeria a pena. Eu tinha economias que raramente tocava, exceto pelo bem da alcateia. Com isso, eu podia começar uma nova vida e sobreviver no mundo humano. Algumas cidades faziam fronteira com territórios de outras alcateias, mas eu não planejava ser notada. Se eu mantivesse um perfil baixo, poderia viver pacificamente entre os humanos. A esperança cresceu no meu peito. Isso poderia ser a solução. Um novo começo para redescobrir minha identidade, sem correntes. Eu não estaria mais nesse lugar onde permanecia impotente e vulnerável. Talvez a Deusa da Lua tivesse realmente tido pena de mim. De qualquer jeito, eu não ia desperdiçar essa oportunidade. Afinal, não era esse o propósito do renascimento? De repente, a porta se abriu e eu me virei para encontrar Mina ali com uma bandeja.
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