TESSA
Ao entrar em casa, encontrei minha mãe e minha irmã Ashley sentadas no sofá da sala, claramente à minha espera.
“Tessa, onde você estava? Fiquei preocupada… não atendia minhas ligações”, começou minha mãe, a voz carregada de ansiedade.
Soltei um suspiro pesado e deixei-me cair na poltrona. A exaustão, mais emocional do que física, pesava cada osso do meu corpo.
“Como vocês chegaram, aliás?”, perguntei, notando que haviam chegado antes de mim sem eu ver um táxi.
“Depois que você saiu, me despedi do Wilson. Ele foi um anjo e pediu ao motorista para nos trazer”, explicou minha mãe.
Acenei com a cabeça, entendendo.
“O que aconteceu com seu rosto?”, Ashley perguntou, seus olhos se fixando na minha bochecha que, sem dúvida, ainda estava avermelhada.
“O pai me bateu.”
“O QUÊ?!”, ela exclamou, levantando-se de um salto. “Por quê? Como ele…?” Não terminou a frase, correndo para a cozinha.
“Não devia levar isso tão a sério, Tessa”, minha mãe tentou, sua voz vacilante. “Se você tivesse apenas ignorado a Cassie, ao invés de…”
“Você está mesmo tentando justificar o que ele fez?”, cortei, o cansaço dando lugar a uma ponta de irritação.
“Minha querida, ele…”
“Aqui… pega isso.” Ashley voltou, entregando-me uma bolsa de gelo enrolada em um pano de prato. “Obrigada”, murmurei, pressionando-a contra a pele dolorida.
“Só estou dizendo”, minha mãe continuou, teimosa, “que se você não tivesse reagido à provocação da Cassie…”
“Então ela pensaria que pode nos pisar ainda mais!”, levantei a voz, incapaz de conter a frustração. “Você precisa superar essa fraqueza por ele, mãe. Ele nos odeia! Somos estranhas para ele!”
Lágrimas de raiva e mágoa queimaram meus olhos. Odiávamos ver minha mãe assim — tão dócil, tão incapaz de guardar rancor. Se fosse eu, só sentiria ódio. Mas ela… eu tinha certeza de que ainda guardava um cantinho para ele no coração. Era exasperante.
“Ele ainda é seu pai”, sussurrou ela, a voz falhando.
Não suportava continuar aquela conversa. “Vou para o meu quarto.”
Entrei no quarto e deixei-me cair sobre a cama, o peso do dia esmagando-me.
A única luz no fim do túnel era saber que o dia seguinte era sábado. Fim de semana. Uma trégua.
Deitei-me de costas, encarando o teto, a mente um turbilhão. Como enfrentaria o trabalho na segunda-feira? Quando, finalmente, minha vida teria um pouco de paz e felicidade genuína?
Cerca de uma hora depois, uma batida suave na porta anunciou Ashley. Ela entrou e sentou-se na beirada da cama.
“Ainda dói?”
Sentei-me e forcei um sorriso. Sempre quis ser a irmã forte, a que carregava os problemas, não ela. “Já está melhor.”
“Não deixa eles te abalarem, Tessa”, disse ela, seu olhar sério. “Eles não valem.”
“Você tem razão”, concordei, acenando com a cabeça.
“O que você precisa agora é encontrar um cara legal”, ela propôs, um sorriso maroto aparecendo.
Revirei os olhos. “Nem pense nisso. Depois do Marcus, acho que o amor não é pra mim.”
“Não fala assim! É só questão de continuar procurando… e, falando nisso…”, ela fez uma pausa dramática, “a mãe me encarregou de te avisar que uma amiga dela mostrou suas fotos para um professor. Ele quer muito te conhecer.”
“Ah, sabia!”, exclamai, caindo na real. “Toda essa conversa ‘amorosa’ tinha um motivo!”
Ela segurou minha mão. “Estou do lado da mãe nessa. Dá só uma chance. Quem sabe ele não é ‘o cara’?”
“O que você sabe de ‘o cara’?”, retruquei, deitando-me novamente. “Diz pra ela que vou pensar. Agora, quero dormir.”
Devo mesmo mergulhar de volta no mundo dos encontros? , pensei, enquanto o sono não vinha.
Nem todos os homens são como o Marcus.
Foi assim que, uma semana depois, me vi sentada em um restaurante elegante, diante do tal professor.
Ele usava calça azul-marinho, camisa branca impecável e óculos. Apresentou-se como Edgar Duke. Fizemos nosso pedido e a conversa começou.
Mas, sinceramente? Nenhuma faísca. Nenhuma boa vibração. Nem me via saindo com ele novamente.
Decidi, então, sabotar meu próprio encontro. Criaria uma impressão tão horrível que ele nunca mais quisesse me ver.
“Posso fazer umas perguntas?”, iniciei, com um sorriso falso.
“À vontade”, ele respondeu, genuinamente aberto.
“Em que tipo de casa você mora?” Pergunta de caçadora de fortunas. Homens odeiam isso.
“Tenho um duplex, onde vivo, e um pequeno complexo de apartamentos que alugo”, respondeu ele, sem nenhum sinal de ofensa.
Persistente. “Tem uma Ferrari?”
Seu sorriso se alargou. “Tenho uma Mercedes e um Land Rover. Mas se for seu sonho, uma Ferrari pode ser providenciada.”
Engoli em seco. Isso não está indo como planejado.
“Meu emprego não é tão bem pago… e tenho um pavio curto”, insisti.
“O salário não define ninguém. E quanto ao temperamento… todos temos nossos pontos a melhorar.”
Argh! Hora da verdade nuclear.
“Olha, você é professor, bonito, bem-sucedido. Homens como você não deveriam estar com mulheres como eu.”
“E o que há de errado com você?”, perguntou ele, parecendo verdadeiramente intrigado.
“Meu relacionamento com meu pai é inexistente. Moro com e ajudo a sustentar minha mãe e minha irmã. Meu ex terminou comigo porque, segundo ele, não sou ‘gentil ou delicada’ o suficiente.”
“Mais alguma coisa?”, ele sondou, e incrivelmente, ainda havia um sorriso nos seus lábios.
Balancei a cabeça, tomando um gole do meu suco. Agora ele vai desistir.
“Você é engraçada, Tessa”, disse ele, suavemente. “Odeio encontros às cegas, mas quando vi suas fotos, fiquei fascinado. Percebo que você não quer levar isso para um segundo encontro, e tudo bem. Mas podemos ser amigos, certo?”
Senti minhas defesas baixarem. “Sim”, respondi, com um sorriso real desta vez.
A partir daí, a conversa fluiu de forma leve e agradável. Para minha surpresa, acabei gostando da noite. Ele insistiu em me levar para casa, e eu, de bom humor, aceitei.
Fiquei esperando na calçada em frente ao restaurante enquanto ele ia buscar o carro no estacionamento.
“Tessa?”
Virei-me ao ouvir meu nome. Era Ethan Bascon, meu supervisor do trabalho.
“Boa noite, Ethan”, cumprimentei, surpresa.
Foi então que a porta giratória do restaurante se moveu novamente.
E Declan saiu, acompanhado por um homem de meia-idade importante.
Meus lábios se entreabriram.
Dentre todas as pessoas no mundo… ele.