Capítulo 4

1136 Words
  PONTO DE VISTA DE ELIZA   A manhã seguinte chegou mais rápido do que o esperado — não porque eu tivesse dormido, mas porque não consegui. Nem por um segundo.   A traição gravada nos meus ossos se recusava a desaparecer. A audácia de Derek. O sorriso arrogante de Maya. O silêncio de Diana. Todos rodopiavam na minha mente como urubus, dilacerando qualquer vestígio de paz que me restava.   Joguei a última peça de roupa na mala e fechei o zíper com finalidade. Era isso. Chega.   Rolei a mala para fora, as rodinhas ressoando atrás de mim como um tambor de guerra. Este prédio deveria ser um lar. Um refúgio. No entanto, virou um cemitério para tudo o que eu havia construído.   Quando cheguei ao saguão, pronta para deixar tudo para trás, uma voz áspera como vidro quebrado atingiu meus ouvidos.   "Finalmente saindo da mansão. Já era hora de perceber que você não é bem-vinda."   Maya.   Parei, minha espinha se enrijecendo.   Ela estava ali, com um sorriso de quem achava que tinha ganhado. A voz dela pingava veneno.   Não respondi. Ela não valia a pena. Eu estava farta disso tudo.   Mas ela não desistia.   "O Rei Lycan viu o que todos sabíamos. Você é inútil", ela zombou. Uma Luna que não consegue lutar pela própria alcateia não vale mais do que a sujeira embaixo dos meus pés."   Minha respiração travou. Meu sangue rugiu.   Me virei devagar.   Um m****o da equipe passou. Entreguei a mala a ela. "Leve isso ao carro," disse.   Agora, estávamos a sós.   "Quer falar sobre ser inútil?" comecei, dando um passo à frente. "Vamos falar sobre você. A mulher que achou aceitável se intrometer em um casamento que não era seu. Me diga, Maya, foi desespero? Ou você é tão vazia assim por dentro?"   Ela abriu a boca, mas eu levantei a mão.   "Não," eu avisei. "Você não tem o direito de falar quando estou falando."   Deixei minhas palavras cortarem o ar.   "Você acha que usar roupas de couro e se colocar no campo de batalha te faz uma heroína? Por favor. Ninguém acredita que você realmente lutou. Você foi, no máximo, uma distração bem colocada e no momento certo. E o Derek? Ele sempre teve fraqueza por distrações."   Os lábios dela se abriram, surpresa. Seu rosto ficou pálido.   Ótimo.   Ela precisava entender que garras podiam ser verbais também — e as minhas eram mais afiadas do que as dela jamais poderiam ser.   Antes que ela pudesse se recuperar, outra voz cortou o ar.   "Não fale com a futura Luna dessa forma."   Derek.   Claro.   Ele entrou na sala como se fosse dono do lugar, um sorriso desdenhoso nos lábios enquanto foi direto a Maya e a puxou para perto.   "Aceita, Eliza," ele cuspiu. "O laço que tenho com Maya é real. Forte. Você nunca poderia entender o que temos."   Cruzei os braços.   "O que vocês têm é traição, Derek. Uma conexão construída em mentiras e infidelidade. Parabéns."   "Cuidado com a língua!" ele gritou. "Você não é nada. Um fracasso. Maya arriscou a vida por essa alcateia. Você? Se encolheu atrás de livros contábeis e tratados. Você nunca será o que ela é."   Olhei para ele. Já tinha ouvido essas palavras bastante.   "Você quer ela como sua Luna?" eu disse, com a voz afiada. "Ótimo. Mas vai me devolver cada centavo que me deve."   Os olhos dele se arregalaram.   "Te pagar? Tá falando sério?" Ele zombou. "Tudo que você tinha veio de mim. Das minhas vitórias. Você viveu no luxo por minha causa, e agora quer uma compensação?"   Então ele disse.   "Sua ingrata desgraçada."   Aquela palavra. Aquela palavra imunda e amarga.   Minha loba parou.   E algo dentro de mim se quebrou.   Aquela palavra. Aquela palavra imunda e amarga.   Minha loba se aquietou.   E algo dentro de mim se quebrou.   Com três passos decididos, fechei o espaço entre nós e dei um tapa forte no rosto dele. O som estralou pelo ar como um chicote, ecoando pelas paredes de mármore.   Minha mão ardia, mas foi uma sensação deliciosa.   "Finalmente," minha loba rosnou, satisfeita. "Dê ao traidor o que ele merece."   A cabeça de Derek virou de lado, seus olhos se inflamaram, seus punhos se fecharam como se fossem explodir.   Não lhe dei essa chance.   Virei nos calcanhares e saí, o som dos meus saltos batendo no piso foi a única pontuação que dei aquele momento.   "Como você ousa levantar a mão para ele?!" Maya gritou, mas sua voz agora não passava de estática para mim.   Não olhei para trás. Saí daquela casa e não parei mais.   Lá fora, entrei no carro e dirigi. A Alcateia Lua Crescente foi sumindo no espelho retrovisor. Assim como tudo que eu pensava conhecer.   Uma hora depois, a paisagem começou a mudar—árvores altas, ar denso, solo úmido de lembrança.   A Alcateia Lua Prateada.   Lar.   Meu peito se apertou conforme o cheiro de terra molhada enchia o carro. Era familiar demais. Real demais.   E então as lembranças vieram.   Sangue. Fogo. Gritos.   Estacionei o carro nos escombros da casa onde cresci. A estrutura estava parcialmente desmoronada, paredes enegrecidas, bandeiras rasgadas e manchadas.   Saí do carro, devagar e trêmula.   Lá, ao lado da casa destruída, estavam os túmulos. Da minha mãe. Da minha avó. Da minha família.   As lágrimas embaçaram minha visão enquanto eu me aproximava.   Uma vez, aquele lugar havia sido cheio de risos. Sessões de treino que duravam horas. Minha mãe cozinhava sob as estrelas. Os dedos dela no meu cabelo enquanto ela sussurrava histórias da Deusa da Lua.   Meu pai corria pela floresta, sua voz ecoando ao treinar meus irmãos. O calor. O amor.   Acabou.   Tudo isso acabou enquanto eu estava longe — enredada nas políticas de outra alcateia, cega à tempestade que devastava meu verdadeiro lar.   Caí de joelhos. A dor me atingiu como uma onda.   Soluços silenciosos sacudiram meu corpo. Cada lágrima uma lembrança. Uma ferida.   "Não acabou," minha loba sussurrou. "Nós vamos fazê-los pagar. Por tudo."   Sua voz era calma. Firme. Uma promessa.   E eu acreditei nela.   Inclinei minha cabeça diante dos túmulos, deixando o silêncio ser minha oração.   Então me levantei.   Tinha uma última coisa a fazer.   De volta ao carro, alcancei a bolsa e tirei o celular.   Um nome. Uma pessoa em quem eu podia confiar.   Lily.   A chamada tocou duas vezes antes que ela atendesse.   "Lily," disse.   "Luna Eliza! Onde você está? A gente acabou de receber notícias do Alfa Derek—"   Suspirei. "Eu sei. Esquece isso por enquanto. Preciso que você me reserve um voo."   "Para onde?"   "Para o Reino Lycan. Primeiro voo amanhã."   Não houve hesitação. "Claro, Luna."   Encerrei a chamada e me deixei cair no banco do motorista.   Eu ia até o Rei Lycan.   Ia fazer Derek pagar por tudo que me devia.   E quando isso estivesse feito —   Faria cada um deles se arrepender de ter cruzado meu caminho.
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