CAPÍTULO 1 Stella

790 Words
A chuva golpeia meus sapatos conforme caminho na calçada de uma das avenidas mais movimentadas da cidade, rezando para que dessa vez eu não chegue atrasada. O som do meu estômago roncando faz com que eu solte uma das mãos da sombrinha e agarre meu próprio corpo. Lidar com a chuva pode até ser fácil, eu poderia tentar secar o cabelo no secador de mãos do banheiro novamente, mas hoje trabalhar será difícil, não conseguirei passar na padaria e contar minhas últimas moedas. Nem chegamos à metade do mês e meu salário já foi quase inteiro embora. Paro em frente ao sinal e espero abrir para atravessar em direção ao prédio da Fiori Security, uma das filiais da maior empresa de segurança italiana e por um milagre depois de ter sido demitida do meu último emprego de babá consegui uma vaga se secretária. Deus abençoe minha mãe no dia em que me obrigou a fazer aquele curso. Meu pé desliza dentro do salto molhado quando entro no saguão de mármore branco e dourado, chamo o elevador e subo para o vigésimo andar da presidência. Não consigo perder tempo admirando a vista das janelas panorâmicas, sigo direto para as portas duplas de vidro onde minha mesa vazia está a minha espera. — Bom dia, Stella. O clima está h******l hoje. Minha chefe abre a porta da sua sala separada e se aproxima da minha mesa carregando uma pilha de papéis. — Senhora Bianchi, me perdoe, o trânsito estava h******l, eu tente... — Não precisa se explicar — ela levanta um dedo — Recomponha-se e comece o trabalho, sei que conseguirá compensar. — Sim, senhora. Espero até que o barulho dos seus sapatos se encerre ao fechar a porta e desabo na minha cadeira. Fiorella Bianchi é a representante e CEO da filial brasileira, braço direito do seu irmão, uma mulher bem-sucedida e um pouco ranzinza, mas que me estendeu a mão. Sempre com os cabelos castanhos perfeitamente ondulados e perfeitos caindo pelas costas, em vestidos italianos caros e finos e uma postura impecável. Seus olhos azuis são muito afiados e detectam erros a metros de distância. Ela é bonita que chega a me faltar o ar, e fico me perguntando como devem ser seus outros dois irmãos. Ao todo a Fiori possuí duas filiais, no Brasil, e Bélgica, além da matriz em Roma, cada uma muito bem regida por um dos irmãos Bianchi. Já procurei foto dos três na internet, mas elas não fazem menção a beleza real, pelo menos não da minha chefe. Se bem que isso não me interessa muito. Desde que eu mantenha meu bom rendimento e continue deixando sua vida funcionando de forma organizada, consigo ter um bom dia de trabalho e receber um salário descente no final do mês. Empurro a cadeira e sigo para a copa no final do corredor das outras salas, coloca a cafeteira para funcionar e encosto no balcão conferindo as contas que ainda não foram pagas. Ainda estou quitando os custos do tratamento da minha mãe. Um câncer a levou de mim, minha única família restante e além de um coração dilacerado, fiquei com as suas dívidas hospitalares que há três meses estão acabando com a minha saúde financeira e me obrigaram a mudar para um cômodo em um dos piores bairros de São Paulo. — Bem, o banco vai ter que esperar mais um mês, posso não ter armários, mas ainda preciso colocar comida nas gavetas que me restam. Sirvo o café na xícara e antes de sair, Amanda a secretária que trabalha para um dos nossos advogados me encontra. — Bom dia, Stella. Dia péssimo, quase caí em uma poça do lado de fora. Ela pega uma das xícaras e se serve. — Não tive muito mais sorte que você, o ônibus quebrou e precisei fazer o resto do percurso a pé. — Meu Deus amiga, será que em algum momento nós vamos ter sorte? Ela me acompanha pelo corredor, mexendo nas pontas loiras do cabelo. — Preciso acreditar que sim, pelo menos nas histórias que eu leio. — Por falar em histórias, ficou sabendo que o chefão estará aqui amanhã? Aperto os olhos um pouco confusa. — O chefão? — Matteo Bianchi, o irmão da sua chefe, ele chega amanhã. Está vindo supervisionar a empresa de perto. Balanço a cabeça pouco interessada. — Bom, isso não mudará nada para nós, meras secretárias. — Não, mas pelo menos poderemos admirar o bonitão. — Fale por você, tenho cinco pautas para digitar meus olhos ficarão apenas no computador. Me despeço de uma das minhas poucas amigas, puxo a cadeira, respiro fundo e estico os dedos, pronta para enfrentar mais um dia. Pronta para desejar que as coisas mudem, preciso acreditar.
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