Perspectiva de Scarlett
Quando acordei, o cheiro familiar de desinfetante invadiu minhas narinas. O hospital da alcateia — eu já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha acabado ali. Através da janela, entrava um raio de sol fraco, frio e distante, como um reflexo do estado do meu coração.
O som de uma cadeira raspando no chão me trouxe à consciência. Virei a cabeça e vi o rosto ansioso do Coby. Ele parecia exausto, com o cabelo loiro desalinhado e os olhos cinza-azulados cheios de uma preocupação evidente.
"Scarlett, finalmente acordou," ele soltou um suspiro de alívio e segurou minha mão com suavidade. "Como está se sentindo?"
"O que aconteceu? Por que estou no hospital?" perguntei, confusa. A marca no meu pescoço ainda ardia com intensidade.
"Você desmaiou na fábrica de embalagens. A Ruby a encontrou e entrou em contato comigo," explicou o Coby, a voz carregada de preocupação.
As memórias da noite anterior inundaram minha mente — Alexander e Faye aparecendo novamente. Depois de explicar tudo ao conselho, pensei que me ajudariam. Entre todas as espécies sobrenaturais, os lobisomens valorizam o vínculo do companheiro acima de tudo. Foi precisamente por isso que permanecemos fortes durante tanto tempo.
Mas o Alexander já não se importava com isso. A alcateia dele era agora a segunda mais poderosa, atrás apenas da Nightshade. Ele podia fazer o que quisesse. Acho que a pressão finalmente me derrubou, e desmaiei.
Senti a preocupação do Coby me envolvendo como um cobertor. Forcei um sorriso fraco e balancei a cabeça, embora a culpa surgisse profundamente dentro de mim. "Desculpe… preocupar você outra vez, Coby."
O rosto dele ficou tenso, as sobrancelhas franzidas. "Você não tem de se desculpar para mim. O Alexander é quem deve pedir desculpas. Nenhum Alfa trata a sua companheira assim — é uma traição à promessa mais sagrada da nossa espécie."
Soltei um suspiro suave e fechei os olhos por um momento. Os rostos frios dos membros do conselho surgiram novamente na minha mente. "Mas o conselho não vai interferir. O Alfa Reno deixou claro — eles não se metem em assuntos internos de uma alcateia."
Coby cerrou a mandíbula, os punhos se apertando. "Então devemos ficar sentados vendo eles a destruírem você?"
Não! Pensei de repente no irmão da Kathleen — Lucien. Os olhos dele me vieram instantaneamente à mente: profundos, intensos, e sempre com um fogo possessivo. "Vou entrar em contato com o Alfa da Alcateia Nightshade. O Lucien."
"Alcateia Nightshade? Você quer dizer que o Alfa da alcateia mais poderosa do país nos apoiaria?" perguntou Coby, visivelmente chocado.
Lembrei da única vez em que nos encontramos, e a dúvida começou a surgir. Balancei levemente a cabeça. "Não tenho certeza. Ele nunca me mostrou nenhum tratamento especial, nem por eu ser a melhor amiga da Kathleen. Ele sempre manteve a sua posição… indefinida."
Coby ficou em silêncio, passando a mão nervosamente pelo cabelo. "Ainda assim, temos que tentar."
"Sim. Assim que tiver alta, vou entrar em contato com a Kathleen. Talvez ela possa nos ajudar." Concordei com determinação.
Mal terminei de falar, a porta se abriu subitamente. Faye entrou sem ser convidada, vestida com uma camisola de grávida, uma mão acariciando suavemente a barriga, com um sorriso hipócrita no rosto. A expressão de Coby escureceu instantaneamente. Ele nem se deu ao trabalho de se levantar para cumprimentá-la — simplesmente a ignorou.
O sorriso de Faye vacilou por um instante, antes de se tornar mais afiado. "Coby, você vai mesmo me ignorar? Não se esqueça de quem eu sou."
Coby soltou uma risada fria. "Quem é você? Uma destruidora de lares com título de amante? Que tipo de identidade é essa que merece respeito?"
Mas Faye não se irritou — pelo menos, não exteriormente. Ela sabia usar bem a máscara.
Sorriu docemente para ele. "Eu só quero paz, Coby. Agora somos todos parte da mesma família. Ou… pelo menos, alguns de nós ainda somos."
"Você só pode estar brincando," esbravejou Coby, com as veias do braço pulsando. Estendi imediatamente a mão para detê-lo. "Coby, não arrume problemas por minha causa."
Ele olhou para mim com relutância, levantou-se com um suspiro frustrado e saiu, batendo a porta.
O quarto ficou em silêncio. Virei-me para Faye com um olhar gelado. "O que você está fazendo aqui?"
Ela colocou a mão na barriga novamente e falou suavemente: "Vim compartilhar boas notícias, claro. Você lembra que eu reclamei de dor de estômago ontem? O Alexander estava tão preocupado — disse que este era o único filhote dele, por isso tinha que ter certeza de que estava tudo bem. Mas o médico acabou de confirmar — o nosso filhote está perfeitamente saudável."
Meus dedos agarraram os lençóis. Eu não sabia por que nunca tinha conseguido conceber com o Alexander. Meu silêncio apenas alimentou a confiança de Faye.
Ela elevou a voz dramaticamente. "Ah, Luna Scarlett, você não precisa se sentir culpada por não conseguir ter filhos. Eu faço isso por você. Afinal, o Alexander e eu já fomos companheiros. O nosso filhote será forte. Ele vai crescer e se tornar o melhor herdeiro."
Do lado de fora do quarto, notei membros da alcateia ouvindo. Suas expressões mudavam, como se as palavras dela fizessem um sentido perturbador. Senti o peso dos seus olhares, e meu coração afundou ainda mais.
Curvei os lábios num sorriso calmo. "Faye, você é tão atenciosa. Obrigada por assumir uma responsabilidade tão grande. Mas me preocupo com você, sabia? Não faz muito tempo, aconteceu uma situação parecida na Alcateia do Norte. O Alfa trouxe uma amante grávida. Mas, assim que a criança nasceu, ela foi expulsa. Não tinha um lugar verdadeiro — apenas um útero. Espero que você tenha mais sorte do que ela."
O sorriso de Faye congelou. Sua expressão mudou ligeiramente — claramente, ela não esperava que eu revidasse usando as próprias táticas dela. Seus olhos escureceram com um toque de ressentimento.
De repente, ela agarrou a barriga e desabou com um grito. A porta se abriu com força. Alexander entrou, com a fúria estampada no rosto.
"Alexander… Luna… ela — ela usou os feromônios dela em mim… minha barriga…" Faye choramingou, fraca e tristonha. "Eu disse a você — fiquei grávida pelo bem da alcateia, não para tomar o título de Luna dela. Mas ela está tão zangada, quer me ver morta…"
Alexander se ajoelhou ao lado dela, segurando-a protetivamente nos braços. Virou-se para mim com um olhar que poderia cortar a pele. "Scarlett, você está louca? Atacou uma mulher grávida?!"
O golpe no meu peito pareceu literal. m*l conseguia respirar. "Você prefere acreditar nela do que na sua própria companheira?"
Os olhos de Alexander estavam afiados e frios. "Como posso acreditar em você? Suas atitudes não têm andado desequilibradas ultimamente? Scarlett, pare de me provocar — antes que eu perca toda a paciência que ainda tenho por você!"
Ele a levantou nos braços com um movimento rápido e saiu, chutando a porta na sua raiva.
Lá fora, os murmúrios dos lobos voltaram a ecoar.
"Quero dizer, realmente precisamos de filhotes, especialmente agora que somos a segunda alcateia. Isso vai atrair mais inimigos…"
Alexander ouviu. Sua postura ficou rígida. Virou-se para mim.
"Leve a Luna Scarlett de volta para a fábrica. Até eu dizer o contrário, ela não pode ficar perto da Faye."
Com isso, o Gamma dele, Carson, avançou. "Luna, por favor, venha comigo."
Cerrei os punhos. Tinha que entrar em contato com o Lucien — e rápido. Se não o fizesse, minha situação só iria piorar.
Arranquei o soro, ignorando os olhares dos outros, levantei-me e segui o Carson para fora da sala — pronta para lutar.