Ponto de vista de Liora
Entrei no restaurante e a primeira coisa que meus olhos avistaram foi a última pessoa que eu queria ver. Kade. Ele estava sentado lá, um curativo visível na testa, e Selene ao seu lado com uma expressão irritada. Ele estava dizendo algo que a fazia franzir bastante a testa. O que esses dois estavam fazendo aqui? Franzi a testa e tentei não pensar muito sobre isso.
Não hesitei em andar com confiança. Meus saltos faziam um som ritmado contra o chão de mármore, anunciando minha presença. Foi então que ela se virou e me notou.
"Inacreditável," Selene disse, alto o suficiente para metade do restaurante ouvir. A voz dela era irritante e mordaz. "Ela está nos perseguindo agora, é isso?"
Nem mesmo olhei na direção dela. Pelo menos não ainda. Eu sabia o que ela estava tentando fazer e não ia participar dos joguinhos infantis dela.
Ela sabia que eu tinha ouvido e percebeu que eu a havia ignorado, o que a deixou ainda mais furiosa. Selene se levantou, praticamente derrubando sua cadeira no processo. "Sem vergonha nenhuma, né? Você realmente vai entrar aqui, vestida desse jeito, ainda tentando chamar a atenção dele?" Ela esbravejou comigo, atraindo olhares de algumas pessoas no restaurante.
Me virei para ela devagar. Ela me olhou de cima a baixo com o lábio curvado, claramente esperando uma reação. Não lhe dei nenhuma.
"Não sei qual fantasia você construiu nessa cabeça superprocessada," falei calmamente, "mas confie em mim, Selene. Minha presença aqui não tem nada a ver com nenhum de vocês dois."
"Ah, claro," ela zombou. "Você simplesmente aparece no mesmo restaurante, na mesma hora, o quê? Esperando mostrar suas garras e reconquistar ele? Você sempre foi patética assim—"
"Selene," Kade disse baixinho, se mexendo na cadeira. Meus olhos foram até ele com displicência. Foi a primeira vez que ele falou.
Ela o ignorou, fixando os olhos em mim. "Ele te largou, acabou com você e você ainda não consegue aceitar. Todo mundo sabe que você era obcecada por ele, agindo como se fosse uma heroína trágica, quando na verdade era apenas uma garota grudenta, ciumenta e—"
Dei um passo à frente. Suas palavras machucavam, mas não do jeito que ela queria. Não mais. Ela não sabia que eu já tinha enfrentado e superado aquela dor. Eu não me importava mais com ela ou com Kade, mas também não ia deixar que ela falasse comigo daquele jeito.
"É melhor você se sentar," disse a ela de forma fria.
"Ou o quê?" ela riu. "Vai chorar nos meus sapatos? O que você está fazendo aqui, afinal? Alguém como você não pertence a um lugar como esse. A menos que esteja fazendo uns b***s de garçonete agora? Todo mundo sabe da sua posição social, sua coisinha patética. Deve ter dormido com alguém influente para—"
Eu a interrompi, não com palavras, mas com a minha mão. Não respondi. Simplesmente levantei a mão, e antes que ela pudesse se esquivar ou parar de falar, eu a esbofeteei. Com força.
O som ecoou como gelo rachando sob pressão. As conversas pararam. Os talheres congelaram no ar. Selene recuou cambaleando, uma mão parada contra a bochecha. Ela me encarou em choque.
"Isso," eu disse com frieza, "foi leve. Comparado ao que você realmente merece."
Sua boca se abriu, mas nada saiu. Ela continuou me encarando e abrindo a boca como um peixe fora d'água, mas eu a ignorei. Não ia ficar aqui trocando palavras com ela — ela não valia isso.
Me virei para Kade, que havia se levantado pela metade da cadeira, olhos arregalados, lábios entreabertos como se tivesse acabado de se lembrar de como respirar.
"Não estou aqui por sua causa," eu disse. "Não quero você. Nem suas desculpas."
"Liora," ele começou, a voz rouca. "Você —"
"Não." Levantei a mão. "Você teve chances. Tantas chances. E as desperdiçou todas. Não sou um erro que você pode consertar com desculpas agora." Eu disse a ele com uma voz fria.
Continuei antes que ele pudesse falar de novo. "Tudo que senti por você virou cinza. Não serve para nada. E se qualquer um de vocês dois achar que pode me falar da forma que ela acabou de fazer de novo..." Olhei para Selene, cujo rosto estava vermelho, os olhos brilhando de humilhação ou lágrimas — não me importava qual. "...da próxima vez, não vai parar em um tapa."
Dei as costas para os dois e caminhei de volta em direção à recepcionista.
"Senhorita Liora, estamos prontos para a senhora," a recepcionista disse com uma expressão gentil mas levemente assustada.
"Obrigada," eu disse, ajeitando a borda do meu casaco enquanto um garçom se aproximava para me levar à sala de jantar reservada.
Eu sentia os nervos à flor da pele, estava trêmula, mas precisava me acalmar. Não podia me deixar abalar por causa de Selene e Kade. Sim, eles eram irritantes, mas como eu tinha dito, não valiam minha presença nem meu tempo. Não deveria ficar pensando neles.
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Ponto de vista de Kade
Eu não me movi. Fiquei ali, em choque. Mesmo depois que ela se afastou, ombros firmes, cabeça erguida, como se não tivesse acabado de tirar o ar do ambiente, eu continuei sentado. Atônito. Congelado.
Liora.
Deuses! Eu nunca imaginei que Selene e eu daríamos de cara com ela nesse restaurante. O que ela estava fazendo aqui? Como ela podia bancar um lugar desses?
Ela não tinha mudado, e ao mesmo tempo tinha. Parecia mais afiada do que eu me lembrava. Os mesmos olhos, mesma postura, mas agora mais fria. Sempre foi confiante e perspicaz, algo que sempre me atraiu nela.
Senti algo apertar no meu peito.
Eu ainda podia sentir o cheiro dela. Mesmo com o perfume marcante de Selene, aquele aroma ainda me afetava. Mesmo agora. Depois de tudo.
"Ah, sério?" Selene interrompeu, cortando meus pensamentos com sua voz firme. "Você ainda fica olhando ela ir embora como se tivesse arrependido?"
Pisquei, devagar. "O quê?" murmurei, tentando voltar ao presente.
"Você nem reagiu quando ela me deu um tapa," ela sibilou, explosiva. "Ficou sentado aí, que nem um i****a. Você acha isso normal?" Ela me encarava, furiosa.
Ela estava certa. Eu fiquei lá, olhando enquanto Liora dava um tapa em Selene, sem dizer uma palavra, sem ao menos me mover para defendê-la. Liora sempre foi ousada, e agora parecia ainda mais ousada. A aura dela exalava uma confiança que quase me intimidava. Eu não conseguia fazer ou dizer nada — estava paralisado e meus olhos não conseguiam se desprender dela.
"Ela me pegou de surpresa," consegui dizer a Selene, que estava ali furiosa.
Os olhos de Selene se estreitaram. "Você não superou ela." Ela me acusou do nada e meus olhos se arregalaram.
Me virei para ela então, o maxilar se tensionando. "Não começa." Eu disse a ela friamente.
"Vou começar sim, Kade. Porque aquela cena patética lá atrás?" Ela apontou na direção de Liora, mesmo que ela já tivesse ido embora há tempo. "Ela me humilhou, e você deixou. Ainda está aí com aquele olhar de quem teve o coração partido."
"Não estou," eu disse, rápido demais.
Selene cruzou os braços. "Então por que você está com essa cara de quem acabou de levar um chute na alma?" Ela ergueu as sobrancelhas para mim.
Respirei fundo. "Porque não estava esperando que ela aparecesse, tá bom? Me pegou de surpresa. É só isso." Eu disse a ela — não era inteiramente uma mentira. Ela nos pegou de surpresa a nós dois.
Selene não acreditou. Ela me olhou como se estivesse tentando descascar minha pele com os olhos. "Não acredito em você."
Esfreguei a nuca, os dedos roçando o curativo. "Ela não foi quem eu escolhi, Selene. Foi você." Quase soltei um suspiro de cansaço — não queria ter essa conversa agora.
Selene soltou uma risada amarga. "Não é a que você escolheu, mas claramente ainda é a que você quer."
Não respondi. Não imediatamente. Porque a verdade? A verdade de verdade?
Liora estava abaixo de mim. Ou... havia estado. Sem nome. Sem linhagem. Apenas uma loba de uma alcateia desconhecida do norte que m*l tinha o suficiente para se sustentar. Ela não deveria ser alguém com quem eu fosse destinado. Eu pensei que estava sendo generoso. Pensei que ela seria grata. Pensei que ela aceitaria ser minha amante.
Ela não aceitou.
"Não amo ela, Selene. É você, você é quem eu amo, não tem nada com que se preocupar." Essas palavras queimaram minha garganta ao serem proferidas.