Valerie
‘Impossível’, eu queria dizer, se minha respiração não tivesse ficado presa. Mas nem mesmo se eu quisesse, pareceria verdade.
Como mais, então, ele saberia que eu morri?
Eu queria empurrá-lo para longe, mas seu aperto era firme.
— Valerie — ele chamou, os olhos carregados das mesmas emoções.
— Responda. Por que você veio para cá? Alistair está te segurando? — ele perguntou, com a mesma estranha tristeza e desespero estampados no rosto.
Isso não podia estar acontecendo.
— Não — eu respirei instintivamente. Não estava respondendo à pergunta dele, mas o efeito foi o mesmo, pois ele recuou. Parecia magoado.
Mas eu não podia me importar menos com ele. Não quando eu não conseguia entender.
Por quê? Como ele sabia? Era algum tipo de piada doentia da Deusa?
— Você tem que ir embora. Me deixe em paz! — Eu finalmente explodi, empurrando-o com toda a minha força. Tropecei de choque, mas me recuperei rápido. Ele ainda parecia em transe.
— Valerie — ele chamou.
— Como você sabe? — Eu rosnei, assustada.
— Eu não... — ele disse, balançando a cabeça —, eu não sei como, mas vi há algumas semanas.
—O Alpha Tristan não tem sido o mesmo desde que desmaiou de repente.
Os sussurros da minha antiga alcateia, os mesmos que eu havia descartado, voltaram para me assombrar, e as peças do quebra-cabeça se encaixaram.
— Foi em fragmentos. Eu não consigo lembrar de tudo completamente, mas sei o suficiente. — Ele ergueu o olhar.
— É verdade, não é? Que você foi morta. Não tem como aquilo ter sido imaginação minha. Não quando você está aqui. Não quando você reagiu desse jeito.
A forma como ele falava tão inseguro... mencionando fragmentos. Isso significava... ele não sabia de tudo.
Eu agarrei a superfície da árvore mais próxima para me acalmar, mesmo que o resto de mim ainda estivesse tenso. Eu não sabia se ria ou chorava com a percepção.
Tristan tentou se aproximar de novo. Eu recuei em resposta.
— Não se aproxime de mim, Alpha Tristan — eu disse, enfatizando o título dele. Ele parou, mas parecia haver mágoa em seu olhar.
Se fosse no passado, eu teria aceitado tudo isso. Sua preocupação e a tristeza em seus olhos. Infelizmente, era uma vida atrás, literalmente.
Endireitando-me, ergui o queixo para olhá-lo bravamente.
— Nossa história acabou há muito tempo, Alpha Tristan, é melhor manter assim — eu disse. Quanto mais rápido eu lidasse com isso, mais rápido eu poderia ir embora.
Ele resistiu, balançando a cabeça.
— Valerie, eu sei que cometi erros. Todos nós cometemos. Eu não via o quanto você fazia por nós. Você fez tanto. — Ele engasgou.
— Mas agora eu posso consertar. Não é tarde demais. — Ele disse desesperadamente, os olhos brilhando com lágrimas como se implorasse para que eu entendesse.
Quantas vezes eu fiz o mesmo? Quantas vezes desejei que ele me entendesse? Que visse o amor que eu tinha por ele? Que me visse e não se concentrasse em Alyn?
Agora ele estava oferecendo tudo em uma bandeja de prata, mas era tarde demais.
Desde o momento em que acordei renascida, já era tarde demais.
— Apenas vá embora — eu disse, tentando passar por ele só para sua mão me parar.
— E quanto ao nosso bebê, então? — Ele implorou, me fazendo congelar no lugar.
— Eu me lembro agora da nossa noite bêbada de uma noite só. Isso foi meses atrás, o que significa que você já está grávida. — Ele disse.
Dessa vez, eu fiquei menos surpresa. Pelo que ele disse, aqueles ‘fragmentos’ da vida passada devem ter revelado a gravidez para ele. Eles provavelmente também refrescaram sua memória sobre nossa noite juntos.
‘Talvez fosse isso que o estava segurando dessa vez’, percebi. Tinha que ser o bebê.
Não importava o que Tristan soubesse, ele nunca teria vindo me procurar ou agido assim sem o bebê.
Isso e culpa, mas eu duvidava que ele tivesse se aproximado de mim apenas por culpa.
Toda essa preocupação que ele estava mostrando. Essa nova ternura e tristeza em seus olhos, aquele olhar terno. Essas emoções recém-descobertas que eu um dia quis tanto, eram só porque eu estava grávida.
— Valerie — Tristan chamou, e náusea subiu dentro de mim enquanto ele estendia a mão, segurando minhas mãos suavemente.
— Podemos falar sobre isso depois, depois que voltarmos. — Ele disse.
‘O quê?’
O que ele acabou de dizer?
Eu quase recuei. Não demorou muito para entender o que ele quis dizer. Mesmo agora, ele ainda esperava que eu o seguisse para a Alcateia do Eclipse.
— Eu juro, as coisas vão ser melhores. Por enquanto, temos que sair desse lugar. Essa alcateia é perigosa. Eles te mataram uma vez. Eu me recuso a deixar isso acontecer de novo. — Ele disse teimosamente.
— Eu cometi muitos erros, mas vou tentar compensar. Vou garantir que você esteja segura. Nosso bebê vai estar seguro.
Era só isso que terminava para ele? Meu bebê?
E quanto à dor que ele me causou? A forma como, mesmo na minha morte, ele estava impiedosamente focado em Alyn?
Manchas cresceram na minha visão e sua mão parecia mais como brasas quentes queimando minha pele.
Eu não aguentava mais.
— Vá embora. — Eu disse na voz mais calma que consegui reunir.
— Talvez o que você viu fosse a verdade. Talvez eu tenha morrido e voltado para cá. Talvez essa fosse minha segunda chance de consertar minha vida, longe da dor e do perigo que você, minha família e a alcateia me colocariam antes de eu morrer, esquecida e não apreciada por todos que amei e me sacrifiquei.
Enquanto eu falava, eu via lentamente o sangue sumir do rosto dele.
Era estranho vê-lo tão sem palavras em contraste com o passado, quando ele me repreendia, e isso fazia o laço rompido doer.
— Talvez agora eu seja mais sábia e tenha saído antes que qualquer um de vocês pudesse me machucar ainda mais. O que importa é que eu parti. Eu nunca vou voltar. — Eu disse, vendo-o se encolher.
Quando saí, foi com a certeza de que havia deixado minha vida passada para trás. Rejeitá-lo doeu, mas eu me preparei para isso, sabendo que ele não se importaria.
Encará-lo agora parecia mais doloroso do que naquela época.
— O conflito que causou tudo isso foi resolvido. Considere isso meu último presente para você, Tristan. — Eu disse, ignorando o nó queimando na minha garganta e as lágrimas se acumulando nos meus olhos.
— Valerie...
— Não. — Eu rosnei, o pânico subindo. Eu tinha que ir embora.
Eu passei por ele, desesperada para voltar à festa. Qualquer lugar menos aqui.
Mas seus passos me seguiram. Por que ele era tão insistente?
Senti sua mão agarrar a minha.
— O bebê...
Essas duas palavras foram meu último fio.
— O bebê se foi! — Eu gritei, virando para ele.
O silêncio seguiu imediatamente depois, a tensão sufocando o ar com minhas quatro palavras. Eu não esperava dizer algo tão brusco, com implicações de que nosso bebê estava...
O rosto dele estava frouxo, olhos arregalados em um olhar chocado que eu só havia visto dele algumas vezes antes, nunca direcionado a mim.
Uma parte de mim queria voltar atrás, mas enquanto uma lágrima escorria do meu olho, eu falei de novo, cimentando seus pensamentos.
— Não há nada para consertar. Não mais. — Eu disse, em uma voz quebrada, refletindo os pedaços estilhaçados do meu coração.
Eu não sabia se deveria sentir arrependimento nesse momento, quando meu bebê ainda crescia na minha barriga. Eu lutei contra o instinto de tocar minha barriga para confirmá-lo.
Enquanto encontrava seus olhos cinzentos, quase vacilei.
O desespero havia derretido, em algo que eu só havia visto uma vez anos atrás, no dia em que seus pais, o antigo Alpha e Luna, morreram. Parecia que o mundo dele havia sido arrancado.
Eu não queria nada disso. Eu só precisava que ele me deixasse em paz.
O rosto dele parecia destruído, mas parecia que ele também ia dizer algo. Se era um protesto, eu não sabia. Estávamos em um impasse e de alguma forma eu não conseguia me mover, ou perder o contato visual.
Antes que qualquer um de nós pudesse dizer algo, o som de alguém pigarreando cortou o ar, me fazendo me encolher. Havia mais alguém aqui?
— Está acontecendo algo aqui?