Valerie
Minha mente ficou em branco pela segunda vez.
Pensei que já havia recebido choques suficientes por hoje, primeiro com a chegada dele e o pedido de desculpas e agora isso?
Ele não dormiu com Alyn ou acreditava que não?
Se sim, qual era o sentido de todo o casamento? O anúncio da gravidez de Alyn?
Não havia palavras que eu pudesse pensar em dizer. O silêncio durou segundos até que ele falasse de novo.
— Eu… eu acho, eu sei, mesmo que não haja prova — disse ele apressado, sua expressão caiu, parecendo o oposto de ‘certeza’.
‘Então, foi a segunda opção’, pensei para mim mesma. Ele havia respondido minha própria pergunta sem saber.
— O que quer que tenha acontecido entre vocês dois não é da minha conta, pelo que me diz respeito — disse, tentando reviver a distância entre nós.
— Mas simplesmente como observadora, acho melhor você resolver isso dentro de si mesmo. Nunca desejei esse tipo de união para você, mas se está criando ideias para justificar tudo isso-
— É isso que você pensa de mim? — interrompeu ele, me pegando de surpresa.
Seu rosto ainda estava aberto, mas aquele tom h******l do passado escapou dele, enviando uma onda de irritação.
‘O que diabos eu deveria pensar?!’
As palavras estavam na minha garganta, mas segurei a réplica.
Tudo o que ele disse aqui era uma surpresa completa para mim, virando de cabeça para baixo as visões com as quais eu literalmente morri. Primeiro ele disse que não gostava de Alyn dessa forma, contradizendo tudo o que eu vi e como fui tratada, e agora?
— Por que você acha que não dormiu com ela, então? — cuspi. Estava cansada de discutir qualquer coisa com ele.
— Eu estava bêbado — disse ele, e não havia mais nada.
Pela primeira vez, uma faísca de raiva verdadeira fervilhou dentro de mim, dessa vez brotando do passado. O que isso deveria significar?
— Essa não é a primeira vez que você engravida alguém com uma noite de bebedeira — dessa vez, fui incapaz de manter a amargura longe da voz.
O silêncio depois foi gélido e precisei de toda a minha força para não me entregar tocando a barriga. Era um lembrete para nós dois, mas especialmente para ele, que acreditava que minha gravidez havia sumido.
Por um momento, a luta escapou dele e vi uma mistura de dor e arrependimento nos olhos.
Não conseguia me importar menos com isso agora, no entanto. Não amenizava as palavras dele. Não quando usava a desculpa da bebedeira para negar suas ações enquanto eu era prova do contrário. Não quando tentava evitar o que havia feito.
Tristan me machucou de muitas formas, mas pelo menos na época nunca o tomei por covarde.
— Eu sei — disse ele, a voz falhando ligeiramente, mas não deixei me afetar. — Eu sei que é difícil acreditar. Não tenho prova e não sei como explicar, mas sei que não dormi com ela. Mesmo bêbado, só sabia no fundo que não. Isso não é como da última vez.
Ele balançou a cabeça freneticamente.
— Eu nem conseguia andar direito, Valerie — disse ele. — Eu até caí antes de tudo ficar em branco. De todas as memórias borradas que tive, foi dessa. Não me lembro de nada depois, nem com o tempo. Quando Alyn anunciou a gravidez que iniciou esse noivado, eu estava meio certo, mas é tarde demais. A alcateia está feliz, todo mundo está, e não sei o que fazer com isso.
O silêncio durou mais do que pensei, mas meus pensamentos continuaram girando.
Ele estava dizendo a verdade? Era só outra desculpa? Importava?
Por que, em nome da Deusa, ele estava me contando?
Parecia que uma eternidade passou antes de eu falar de novo.
— Por que você está me contando tudo isso? — perguntei vazia. Ele pareceu surpreso com minha pergunta, mas estreitei os olhos.
A menos que…
Ele esperava que eu o ajudasse? O apoiasse?
O olhar no rosto dele dizia que sim.
‘Inacreditável.’
Toda vez que queria ajudá-lo antes, sempre era recebida com rejeição ou palavras, ombro frio completo. Agora, com o conhecimento dele da minha morte e um pedido de desculpas, ele achava que apagaria tudo mais? Que eu o ajudaria com sua suspeita?
A única vez que ele pedia ajuda e era por causa disso.
Bile amarga encheu minha boca enquanto a náusea surgia. Eu havia passado dos sintomas de enjoo matinal, mas sabia por experiência que retornaria em ocasiões raras nos próximos meses. Não conseguia dizer, no entanto, se isso era um dos sintomas ou meus próprios sentimentos.
Isso era demais.
Mirei na cama para acalmar minha vertigem só para tropeçar no caminho. Estendi a mão em busca de apoio para sentir pele quente se enrolar ao meu redor, me guiando até me acomodar no que sem dúvida era a cama.
— Valerie? Você está bem? — Sua voz me forçou a abrir os olhos e olhar para cima.
Suas mãos estavam enroladas nas minhas, um apoio superficial agora que eu estava na cama. Enquanto em pé, ele se inclinava para mim. O que mais me afetava, no entanto, eram seus olhos.
Seu olhar procurava por qualquer problema, ansioso e preocupado, vagando ao meu redor como se para avaliar o problema. Sabia que meu segredo ainda estava seguro e isso tornava tudo ainda mais estranho e pior.
Essa tinha que ser a primeira vez em muito tempo que ele era tão gentil comigo.
Quantas vezes desejei um momento como esse? Quantas vezes fui arranhada, desrespeitada e ansiava por conforto dele.
O lembrete do meu sonho mais cedo era um lembrete amargo.
Mesmo durante minha morte, estendi a mão para ele, mas ele não se importava menos comigo.
Era o chute final para fortalecer minha resolução.
Empurrei as mãos dele com a força restante em mim, ignorando ele se movendo para trás ou o frio deixado para trás antes de encará-lo com um olhar frio.
— Se você está aqui procurando simpatia ou alguém que o apoie cegamente, veio ao lugar errado — disse gélida. — Não faço parte desta alcateia, não sou sua amiga e, com certeza da Deusa, não pretendo ser nada além de uma estranha. Não estou aqui para acreditar em você ou apoiá-lo em nada e não preciso. Você sabe melhor do que ninguém que tudo o que disse é só isso, desculpas para evitar assumir responsabilidade.
Uma memória amarga encheu minha mente, essa a mesma em ambas as vidas. Os dias seguintes à noite que passamos juntos.
No início, tive a audácia de esperar, a ousadia de me preocupar se ele se lembraria. Preocupei-me se ele me veria sob uma luz melhor ou pior só para o resto do dia passar e tudo continuar o mesmo.
O desespero veio depois. Foi minha primeira vez e mesmo nas circunstâncias bêbadas em que estávamos, fiquei feliz que fosse ele. Feliz que mesmo por um pequeno momento houvesse esperança.
E ele não se lembrou de nada. A vida continuou para ele como de costume enquanto eu arcava sozinha com as consequências da nossa noite.
— Há algumas consequências que você n******e evitar, Alfa Tristan. Está na hora de entender isso — disse.
Ele nunca parou de me olhar. Parecia sofrendo. Eu poderia jurar que havia um brilho de lágrimas nos olhos dele e isso tornava tudo muito pior.
— Saia do meu quarto — ordenei, mantendo a voz nivelada e fria. Não suportava vê-lo assim. Como ele ousava?
Olhando para longe, contei os segundos até que ele saísse. Levou quase quinze segundos antes que seus passos ecoassem e no vigésimo quinto a porta do meu quarto bateu.
De repente, os lençóis não eram suficientes para me estabilizar. Corri para o banheiro e consegui chegar à pia a tempo de vomitar.
Minutos depois, após me limpar e me refrescar. Meu estômago parecia tão vazio quanto eu me sentia. Usei o telefone para pedir comida do serviço de quarto antes de me jogar no sofá.
Por que, então, eu sentia como se tivesse feito a coisa errada?