Valerie
Não demorou muito para o dia chegar. Apenas três dias depois de saber do noivado deles, eu estava aqui, a caminho da minha antiga alcateia.
A floricultura ficou aos cuidados de Mina e, com a garantia e a despedida dela, me senti mais à v*****e para partir.
As estradas e cidades passavam voando pela janela da porta do carro contra a qual eu me encostava. Mudando ligeiramente de posição, espiei Alistair, ainda olhando para a frente enquanto o motorista à frente continuava dirigindo.
Ele havia delegado todas as responsabilidades ao Beta dele. Não havia enviados ou pessoas extras. Pelo período inteiro que ficaríamos na Alcateia do Eclipse, seríamos só nós dois representando a Alcateia da Lua Sombria.
Respirando fundo, me virei para longe dele em favor de dormir. Era melhor relaxar o máximo possível enquanto podia.
Foi a melhor escolha que fiz. Quando nos aproximamos da alcateia, horas haviam passado e o céu vespertino havia se tornado um tom laranja profundo, mais próximo da escuridão. Apesar de me preparar para isso, meu coração ainda martelava no peito quando entramos na alcateia.
Nada havia mudado muito, nem eu esperava que mudasse. Havia decorações por todo o lugar, no entanto, reminiscentes de um tempo no meu passado.
Ignorando a pontada no peito, peguei a mão de Alistair, saindo para o ar livre.
‘Lar doce lar’, pensei secamente, mesmo que não pudesse sentir isso.
Olhares me perfuravam por todos os lados, olhos me seguindo. Apertando o queixo, foquei em ficar ao lado de Alistair para ignorá-los enquanto nos movíamos, não importava o quão difícil fosse fazer isso.
Uma serva familiar nos cumprimentou. Ela m*l ergueu a cabeça assim que me viu.
— Saudações, Alfa Alistair e S-Senhora Valerie. Garantiremos que suas pertences sejam guardados nos quartos designados. Por favor, aproveitem a festa de introdução — disse ela, gesticulando para o Salão da Alcateia.
Os olhares penetrantes diminuíram quando entramos juntos.
‘Talvez porque haja mais Alfas de alcateias e representantes do que membros da alcateia’, raciocinei.
Braço no braço, atravessamos a sala, cumprimentando e trocando amabilidades com diferentes Alfas, Lunas e representantes de alcateias. Continuava o mesmo.
Todos pareciam alegres por estar ali. Duas semanas de celebrações antes de um casamento soavam tentadoras, mas só enviavam uma pontada através de mim.
Minha cerimônia de acasalamento não foi nada assim. Porque aconteceu tão cedo, menos de um ano completo depois que Tristan assumiu oficialmente o papel de Alfa. Ao descobrir meu laço de companheira com ele ao mesmo tempo que o resto da alcateia, uma cerimônia privada foi realizada dentro da alcateia. Foi corrida e prática.
— Não importa como parece — murmuraram os membros da alcateia na época. — Eles são companheiros predestinados. Isso é o que importa.
No final, anos depois, as palavras deles mudaram e não parecia importar muito.
Afastei esses pensamentos. Não eram importantes.
Talvez a Deusa da Lua quisesse me punir por pensar nisso, pois apenas alguns minutos depois, eu os vi à distância conversando com outro g***o.
Alyn parecia nas nuvens, o cabelo trançado em uma coroa intricada enquanto sorria amplamente para os convidados. Seus braços estavam enrolados nos dele, praticamente se encostando em Tristan.
Ela estava conseguindo tudo o que queria e não precisava mais me usar como isca para isso. Claro que estaria feliz.
Lutando contra um bufo, olhei para ele… e parei.
‘Que diabos-’
A festa continuava ao meu redor, mas não conseguia tirar os olhos dele. Não por nada além de como ele parecia.
Ninguém mais parecia notar, nem mesmo os membros da alcateia, mas eu via claramente.
Em comparação à alegria de Alyn, Tristan parecia rígido como uma tábua, as mãos m*l roçando nas dela no pódio. Sua expressão parecia tensa. Sem mencionar aquele olhar nos olhos dele.
Era um olhar estranho nele, um que parecia estranhamente similar a algo que eu havia visto antes.
Era o rosto que me saudava no espelho todos os dias no passado nesta alcateia, quando acordava e antes de dormir, tendo que carregar o fardo e o escrutínio da alcateia. Ele parecia…
Infeliz?
Por que ele parecia tão… infeliz? Esse era um bom dia para ele, não era? Ele deveria estar feliz.
Afastei o pensamento. Talvez eu estivesse só vendo coisas.
‘Não faça isso consigo mesma’, me adverti. Eu vim aqui por fechamento e era isso que ia conseguir sem interferir.
Por um breve momento, o olhar dele vagou e foi como agulhas picando minha pele quando seus olhos encontraram os meus. Ele pareceu chocado no início, antes de vagar para o lado, sem dúvida me vendo de braços dados ao lado de Alistair.
Minha respiração prendeu na garganta. Desviei os olhos a tempo, mas senti os dele permanecerem.
Quando os aplausos terminaram e a festa continuou, uma coceira se formou sob minha pele. De repente, não suportava mais estar ali.
Depois de falar com a quarta ou quinta pessoa após aquele momento, soltei meu braço do de Alistair, me desculpando.
Ao entrar no corredor ligeiramente menos lotado, fechei os olhos na janela mais próxima. Precisava de ar.
— Valerie — uma voz me fez virar e eu enrijeci.
Eram meus pais.
Seus rostos ainda estavam corados, sem dúvida com vinho e felicidade, mas enquanto me olhavam havia uma leve carranca.
‘Claro.’ Suspirei por dentro. Uma parte de mim esperava isso. Com Alistair e eu circulando pelo salão, não tinha dúvida de que já havia se espalhado pela alcateia inteira que eu estava ali.
Sabia, sem dúvida alguma, que o que quer que quisessem dizer provavelmente não era bom. Antes, eu conseguia aguentar tudo em silêncio. Agora, não tinha paciência para falar ou lidar com eles, me deixando com apenas uma escolha.
Virei-me, correndo de volta para o salão e ignorando a culpa residual que irrompeu.
— Valerie- — as vozes deles se misturaram à música enquanto eu me juntava às pessoas no salão.
Só hoje já era esmagador. Talvez amanhã eu tivesse paciência para lidar com tudo, mas não agora.
Procurei por Alistair e o encontrei não muito longe, esperando por mim. Antes que ele pudesse dizer uma palavra, o interrompi.
— Estou exausta. Vou me retirar para a cama cedo — disse. Era verdade, apesar de ter dormido metade da viagem.
Talvez fossem as memórias que vinham com esse lugar. Talvez fosse a sensação do olhar de Tristan ou talvez o breve momento com meus pais, mas eu já me sentia esgotada.
Graças a Deus, ele aceitou com um aceno, apertando meu braço.
— Boa noite, então — sussurrou ele. Um suspiro de alívio escapou de mim enquanto eu me afastava.
A noite já havia caído, deixando a rua praticamente vazia, o que era um alívio para mim. Uma sensação estranha me preencheu enquanto entrava no ‘Hotel’ da Alcateia reservado para os convidados. Eu nunca havia estado nesse lugar, considerando como passei minha vida na casa do meu pai antes de residir na Casa da Alcateia com Tristan como sua Luna. Mas parecia similar o suficiente para desencadear algumas memórias.
Entrando no quarto reservado para mim, todos os meus pertences estavam no lugar. Ignorando tudo o mais, troquei para o pijama e me afundei nos lençóis, tentando me livrar das memórias persistentes que vinham com esse lugar.
Fechei os olhos, me enterrando nos lençóis e esperei pelo oblivion.
…
— Tristan, me ouça-
— Não quero ouvir uma palavra sua. Vá pedir desculpas a Alyn.
— Não. Eu te disse que não fiz de propósito. Não sei como aconteceu…
— Essa é a sua desculpa — sua risada ecoou.
— Por que você n******e só me ouvir? Sou sua companheira! n******e confiar em mim dessa vez!
BAM!
Acordei sobressaltada enquanto o som alto ecoava através de mim antes de desaparecer no nada. Era só um sonho. Um sonho e uma memória dos primeiros meses do meu acasalamento com ele.
Não conseguia reconhecer exatamente de quando era ou o que o iniciou. Eventualmente, todos os argumentos fracassados que tivemos se misturaram e sempre terminavam da mesma forma. Algo acontecia com Alyn e eu era culpada. Eu argumentava e suplicava pela minha inocência só para ele sair no meio, batendo a porta e calando qualquer palavra que eu tivesse a dizer.
Eventualmente, parei de lutar. Ainda suplicava pela minha inocência toda vez, mas sempre sabia que terminaria da mesma forma. Eventualmente, se espalhou para outros tópicos e o resultado continuava o mesmo. Eu segurava minhas palavras cada vez mais.
Era mais fácil aceitar a derrota cedo do que lutar uma batalha fútil. Uma batalha que frequentemente terminava com aquela mesma porta batida e mais coração partido.
Um som alto me fez pular. Teria pensado que era imaginação, considerando como era familiar com o sonho que acabei de ter, então aconteceu de novo.
Batidas.
Virei a cabeça para o lado, checando o celular. Havia passado menos de vinte minutos desde que saí da festa. Não estava nem perto de terminar. Quem estaria aqui?
Me movi para a porta com as sobrancelhas franzidas, destrancando e abrindo para ver…
Meu coração afundou.
Tristan estava do outro lado, seus olhos verdes parecendo uma tempestade antes de ele falar.
— Posso entrar?