Fardo

1306 Mots
PRESENTE Tristan Engoli em seco com o lembrete. Encarando-a agora, aquela memória parecia nada. Ainda não tinha ideia do que ela sabia ou lembrava daquela noite, ou a versão dos eventos que Alistair contou a ela. Ainda assim, enquanto ela veio até mim no meu escritório no dia seguinte, culpa inchou em mim. A afastei como prometi a mim mesmo, deixando nenhum espaço para contato. Havia um motivo para ela ter partido em primeiro lugar, afinal, e comigo no banco de trás da mente dela junto com o problema que passou, ela seria mais feliz longe. No momento em que a porta bateu no meu escritório naquele dia, repeti aqueles pensamentos como se para me convencer, mas o arrependimento já havia se instalado. E agora… Seus olhos impressionantes de corça perfuravam os meus. Estive em silêncio por um tempo agora. Engolindo em seco, minha mente corria. Mas o que mais havia a dizer além da verdade? — Eu estava com medo — finalmente admiti. Com três palavras, suas sobrancelhas franziram em um olhar de confusão que não conseguia evitar achar bonito. — Medo do quê? — perguntou ela. — Medo de que ao me aproximar de você, você se machucaria de novo e me odiaria. A admissão em voz alta me deixou mais leve. — Antes de tudo isso, você vivia feliz. Me faz questionar se era lá que pertencia. Não nesta alcateia. Não perto de mim. Tinha medo de que minha presença fosse fardo suficiente. Não era difícil continuar falando após isso. — Pegue essa cerimônia de acasalamento. Coloquei esse fardo em você e você foi além por mim, mesmo quando não merecia… — minha voz engasgou, mas me forcei a continuar. — Esse é o problema. Você ajuda mesmo quando não merecem. Assim como- — Você é e******o? Pisquei de choque de todas as coisas que pensaria, a última seria ela me insultando. — Você acha que é o único que mudou? Eu mudei também. Do momento em que parti, me recusei a ser a mesma. Sou tão egoísta quanto, focando na minha própria sobrevivência. Diabos, o acordo que fiz para trabalhar com Alistair foi pelo mesmo motivo — disse ela. — Se acha que te ajudei por algum nonsense auto sacrificial. Estaria errado. Além disso, estou aqui agora. Estou nesta alcateia por dias e não houve dano algum, então do que tem medo? Uma parte de mim queria mencionar o incidente quando a encontrei colapsada no corredor, a mistura de terror e raiva que me invadiu quando vi seu estado, mas pensando nisso agora, isso importava mesmo? Era tão simples quando ela explicava. — Você está certa. Sinto muito — pausei antes de adicionar. — Sou um i****a. — É mesmo — bufou ela, mas não havia raiva nisso. — Então não ouse fazer de novo — enquanto falava, as linhas de hesitação que outrora estavam no rosto dela sumiram. Parecia aceitação. Parecia a melhor coisa que já aconteceu. O peso carregado no meu peito escorregou, seguido por uma sensação vertiginosa. Menos de três minutos de honestidade livraram o que pareceu uma eternidade de ombro frio. Por que diabos não considerei isso antes? ‘Porque raramente considerei falar’, o pensamento ecoou, desaprovador. Então de novo, não era a mesma coisa de antes? Um pedido de desculpas, uma admissão, tudo sincero trouxe perdão por coisas das quais ainda me arrependia. Valerie… era boa demais para mim. Ela estava certa. Eu era realmente e******o. Olhando para a escadaria, ela se moveu para trás para colocar distância entre nós. Pânico me agarrou no instante em que notei suas pernas trêmulas. — Está tarde — disse ela, a voz saindo com cuidado. — Preciso… preciso… Enquanto virava para sair, seus olhos se tornaram desfocados. Ela tropeçou, corpo se movendo à frente, caindo. — Valerie — respirei, pegando-a bem a tempo. Seus braços seguraram os meus por apoio e meu queixo apertou enquanto sentia sua pele ligeiramente mais quente que o normal. Era o efeito daquela d***a maldita de novo. Ela parecia enevoada por um momento, os olhos se fechando por um instante antes de balançar a cabeça. — Desculpe — riu ela autodepreciativa. — Acho que o encontro com meus pais me esforcei demais. Só vá. Vou ficar bem em alguns minutos. Uma mistura de incredulidade me invadiu. Ela achava que ainda conseguia andar nesse estado? Maldita. Sempre tentando ser forte. Mas hoje não havia necessidade. — Pensei ter te dito — disse, plantando meu braço mais baixo nos joelhos dela. — Não há necessidade de se desculpar. Em um movimento só, a ergui do chão, equilibrando-a nos meus braços. Ela se agarrou a mim instantaneamente. Virando-me, ignorei seu olhar investigativo enquanto focava em me mover à frente. Poucos servos ainda estavam presentes, mas se os que nos viram acharam anormal, não disseram uma palavra. Bom. Meu lobo se animou dentro de mim. Escuridão enchia o quarto dela, as únicas luzes vindo das janelas. Em retrospecto, deveria ter sido mais cauteloso com os arredores. Só alguns centímetros longe da cama, colidi com um banquinho que não notei, nos enviando caindo. Consegui me pegar a tempo antes da colisão, o colchão guardando nossa queda. — m***a — xinguei. — Está tudo bem — sussurrou ela. Através da escuridão, podia ver quão perto estávamos e minha respiração prendeu. Estava na metade em cima dela. Seu peito roçava contra minha pele, o calor macio do corpo dela e o cheiro gentil de lilás me invadindo. A pior parte era o rosto dela, só alguns centímetros do meu. O lembrete daquela noite antes, quão perto estávamos, piscou na mente. Era imaginação, ou os olhos dela percorriam para baixo? Ecoando o mesmo movimento, meus olhos percorreram para baixo para um local particular. Seus lábios. Seria tão fácil nesse momento. Me inclinar e tomar aqueles lábios. Como ela teria gosto? Se me inclinasse um pouco mais perto, ela- ‘Pare.’ Recuei a tempo, o raciocínio de fração de segundo me invadindo. Dessa vez tinha certeza de que não era imaginação quando a pontada de decepção que carregava ecoava na expressão dela. Escapando da cama, minha mente corria para dizer qualquer coisa. Um pedido de desculpas? No final, me contentei com um simples boa noite. — Você precisa dormir. Vou- — Tristan. Antes que pudesse me afastar, sua mão circulou meu pulso. Virei de volta e a visão dela sob o brilho leve das janelas fez minha respiração prender. — Fique — respirou ela. — Só até eu dormir. Na escuridão não conseguia ver, mas uma parte de mim se perguntava se suas bochechas eram verdadeiramente tão coradas quanto pareciam. E com as palavras dela, com aquele rosto maldito, por que negaria a ela? Meu coração parecia cheio enquanto assentia. — Vou ficar — ecoei. Pegando uma cadeira para ficar ao lado da cama, sentei ao lado da cama, a uma curta distância da silhueta descansando dela. Nada mais aconteceu pela distância, nenhuma palavra foi dita e nenhum de nós se estendeu ao outro, mas não carregava decepção. Em questão de minutos, sua respiração virou lenta e estável. Ela estava dormindo e essa era minha deixa para sair. E ainda assim, ainda fiquei. ‘Só mais um minuto, para ter certeza de que ela não acordaria’, tentei me convencer. Um minuto virou dois… cinco… sete. Em algum ponto parei de contar, unicamente focado nas respirações suaves que enchiam o quarto. Seu cheiro me invadia e sentia meus olhos crescendo mais pesados. — Pare — sussurrei para mim mesmo, mesmo enquanto me inclinava sobre o lado da cama, braços afundando no espaço vazio. A posição praticamente pedia por uma dor nas costas, mas nesse momento, meu corpo não parecia se importar. Ia sair em alguns minutos. Só mais um minuto para ter certeza… Enquanto contava os segundos, não soube quando a escuridão tomou conta.
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