Valerie

1564 Mots
Alyn Eu conseguia ouvi-los. As cores azuis do quarto me cercavam. Sempre lá. Sempre zombando. Amargura inchava dentro de mim. Não saía para fora há dias. Todos os olhares eram demais. Outrora me olhariam com sorrisos, pendurados nas minhas palavras. Me apoiavam. E agora eu era uma pária. Odiava isso. E era tudo culpa dela. Suas vozes abafadas ecoavam pelo quarto enquanto chegavam. Alguns momentos atrás, vieram à minha porta me assegurando resolver as coisas, falar com Tristan. Agora que estavam de volta, deviam ter alguma boa notícia. Era noite, então sem dúvida pensavam que eu estava dormindo. Bom. Me encostei na porta, esperando pelo que diriam. Estava quieto no início. Quieto demais. Não deveria estar quieto. — Alyn cometeu um erro. Foi… tem que ter sido um erro. Esperança encheu meu peito. Meus bons e doces pais. Eles sempre foram tão bons para mim. Tão fáceis. Sempre pulando para me defender. Mas isso não importava. Ainda estavam do meu lado. Se pudesse falar com eles, derramar mais algumas lágrimas, garantiriam que eu falasse com Tristan. Então poderia fazê-lo ver. O lembrete da presença dela perto dele me fazia querer arrancar algo com as unhas. Apertei as mãos com força. — Mas ela fez mesmo assim — a voz do meu pai ecoou e tensionei. — Não podemos negar o fato de que ela enganou a alcateia, nos enganou e desculpamos. O que ele estava dizendo? Ele deveria estar ajudando. Me apoiando. — O que o Alfa Tristan disse estava certo — meu pai suspirou e meu estômago apertou. — Se os papéis fossem invertidos… não estaríamos falando disso. Era como uma garra na minha garganta. Tristan disse mesmo isso? ‘Não. Não!’ — Faz muito tempo desde que ela era uma criança rogue. O que ela fez… ela tem que assumir responsabilidade e pedir desculpas. ‘Não…’ Balancei a cabeça freneticamente. Pedir desculpas? Pelo quê? Não fiz nada errado. Era tudo culpa dela. Dela! — Primeiro foi o incidente com a Alcateia da Lua Sombria — continuou meu pai e amargura inchou no meu peito com o lembrete de como aquilo foi. — Se não tivesse sido resolvido, teria se tornado uma guerra legítima. A apoiamos nisso, mas se uma guerra tivesse realmente estourado, teria sido culpa de todos nós. — Jude… — Marie — suspirou ele. — Quero defendê-la, mas é demais. Só estou percebendo isso agora. Há quanto tempo estamos mimando ela? Onde os limites acabam? Sou o Beta da alcateia, jurei no túmulo do Alfa e da Luna proteger a alcateia e o filho dele, e ainda assim esses dois incidentes estão todos ligados a ela. O que posso dizer? — E ainda assim, nada do que ele disse se compara a tudo mais. Veio silêncio antes de minha mãe falar. — Quanto mais penso nisso, mais vejo — fungou ela. — Quando foi a última vez que perguntamos sobre o bem-estar dela? Não lembro da última vez que eu… Algo ecoou como um soluço engasgado antes de- — Nós realmente falhamos? Valerie… ela estava certa? Essa foi a gota d'água. Me calei instantaneamente. Cada som sumiu com a menção do nome dela. Valerie. Valerie, Valerie, Valerie. Sempre a maldita Valerie. Odiava ela. Do momento em que fui levada para a alcateia, ela era a que não suportava. Em meio à alcateia havia duas crianças. Ainda assim, eu era a adotada, abandonada pelos meus pais e ela? A filha biológica dourada. Ela tinha a vida que eu queria. Era injusto. Eu queria. E assim fiz tudo o que pude. Constantemente a fazia parecer r**m na frente dos pais dela, era favorecida por eles, pela alcateia. Diabos, até comecei a tingir o cabelo de loiro platinado quando pude para imitá-la. Mas não era suficiente. Ainda parecia errado demais, sempre um tom claro demais. Diferente demais, falso demais. E era por causa dela. Ela ainda estava lá, constantemente me provocando com seu ar frio e inabalável, sua aparência. A única coisa que a abalava eram minhas maquinações. Revelava para cada um. Enquadrando-a, culpando-a e então indo até o fim para confortá-la. Ela caía nisso, toda vez e eu me deliciava com sua tristeza. Era o que merecia por me provocar. Mas então veio a gota d'água com Ele. Tristan. Do momento em que ele segurou minha mão quando fui trazida para esta alcateia, prometendo garantir que eu nunca ficasse sozinha, soube. Me apaixonei por ele instantaneamente. Ele era meu príncipe encantado. Ele deveria ser meu. Mas aquelas esperanças foram tiradas. Ela tirou isso ao ser a companheira dele. O universo sempre a favorecia, e quase me enlouqueceu. E assim usei meus truques para me infiltrar nas vidas deles. Não havia nada entre eles mesmo e Tristan se importava demais comigo para me negar qualquer coisa. Isso, misturado com a pressão dos meus pais, e sob minha influência, ela cedeu. As mentiras e acusações se formavam sozinhas e as deixei voar, todas as comparações a meu favor. Eu era a melhor. Estava tudo funcionando. Não sabia o que possuiu Valerie para partir, mas após confirmar que ela se foi para sempre, precisei de tudo em mim para não pular de alegria. Agora nada podia me parar. Teria Tristan. Tudo seria perfeito. Era como deveria ser, e ainda assim… Não sabia como a mudança começou. De repente Tristan ficou distante, mesmo um dia saindo furioso do jantar. E então ele desmaiou e virou uma pessoa diferente antes de ela aparecer de novo. Tudo o que fiz culminou em agora. Fui desgraçada na alcateia, minha imagem sumida e não podia fazer nada além de ferver. Porque era tudo culpa de Valerie. Tudo se somava. Tristan se importava comigo, mas me afastou agora. Ele nunca se importou com ela. Deveria ser impossível. Não queria acreditar até aquela noite no corredor do hotel quando ele disse o nome dela. — Valerie… Precisei agir rápido, e assim fiz. Ele estava bêbado demais para fazer qualquer coisa, mas não importava. Deitar com ele era suficiente. Quanto mais rápido nos acasalássemos, ele estaria comigo e se lembraria. Quando eu ‘abortasse’, ele mostraria simpatia por mim, e então o teria. Valerie estaria longe há muito. Meus planos… todos sumidos. Todos destruídos. Arruinados. ‘Culpa dela.’ O mantra gritava para mim. O quarto estava completamente silencioso agora. Bom. Não queria ouvi-los mesmo. Levantando-me na escuridão, peguei meu reflexo no espelho. Como desejava poder socar meu reflexo. Me ver tão desleixada era uma coisa, mas a pior parte era ver aquele cabelo. Raízes marrons sem graça cresceram, uma mancha no loiro que se movia por todo. Manchando minha imagem. Sempre garantia retocar antes de piorar assim, mas com o isolamento cresceu. Com isso, não parecia nada com a mulher que queria ser. Com aquela mancha marrom, parecia com ela. Não Alyn Valentine, mas a anterior. Como aquela menininha assustada que foi abandonada pelos pais. Aquela garota inútil, assustada, nada que não era de uso para os pais dela. — Não — murmurei, balançando a cabeça, mas não conseguia me livrar daquele reflexo. Não era uma rogue. Não era abandonada. Era Alyn Valentine, filha do Beta Jude e Marie Valentine. Irmã de- Bile subiu na minha garganta. Não, isso não soava certo. Não era irmã dela. Não podia ser irmã dela. ‘Claro que não é’, a voz de Valerie ecoou na minha cabeça. ‘Porque você não é família. Não é filha de ninguém. Você é uma fraude.’ Raiva profunda nos ossos ferveu dentro de mim. Estava quase tremendo com o impulso de quebrar o espelho. Não queria ver isso. ‘Isso é quem você verdadeiramente é’, sua voz cantou, me provocando. — Cala a boca… cala a boca! — gritei, sem me importar com nada antes de olhar para longe. Ainda assim, continuava se infiltrando. Olhando para esse quarto. Me instalei aqui pouco após o casamento dela. Pedir para reclamar o quarto dela não era diferente e os pais dela… meus pais me deram livremente. Das paredes azuis às decorações prateadas. Não, mesmo se esfregasse as paredes limpas e pintasse novas, nunca pararia. A mancha dela sempre estaria lá, me provocando. Porque sempre foi dela primeiro. Por que nunca foi meu? Ri. Claro, não era óbvio. Valerie. Isso era tudo culpa dela. Ela era por que nunca podia ser uma verdadeira m****o dessa alcateia. Dessa família. Por que não podia estar com Tristan. Podia tomar tudo dela, mas ela ainda ousava me ofuscar. E agora virou todos contra mim. Tudo pelo que trabalhei em anos. Minha cerimônia de acasalamento, minha reputação. Meu laço com Tristan, todos aqueles anos pelo ralo graças a ela. Por que ela não parava de me fazer sofrer? Um soluço se acumulou na minha garganta antes de balançar a cabeça. Antes que soubesse, estava rindo. Gargalhando. Claro, era tão simples. Ela tomou tudo de mim. Arruinou a vida perfeita que deveria ter. Então o que mais, eu não arruinava a dela? Deveria ter pensado nisso no início. Há muito tempo. Era jovem demais. Inexperiente demais. Bondosa demais com ela. Se tivesse feito isso há muito tempo, a vida dela teria sido verdadeiramente minha. Quanto mais pensava nisso, era uma boa coisa. Agora que não havia nada a perder, já que estava caindo, a levaria comigo. Fechando os olhos, conseguia imaginar seu corpo ensanguentado vividamente. Parada sobre ela, eu venci. Seria perfeito.
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