Vítima

1549 Mots
Valerie — Ah, bom, todos estão aqui — Alyn riu em um tom quase histérico. — Deixem todos verem isso se vieram por um show. O vazio no meu estômago cresceu ainda mais. Ela agia como se não houvesse nada a perder. E isso? Isso me assustava de verdade. Sua outra mão apontada para mim ainda não vacilava apesar de seu agitar. — Alyn! — ouvi Tristan gritar entre o clamor. Antes que pudesse pensar, ela se moveu mais perto, a cabeça metálica da arma a centímetros de distância. — Se alguém se mover mais perto, atiro agora — anunciou Alyn. O lugar se aquietou imediatamente e todos presentes na entrada permaneceram lá. — Alyn, pare com o que está fazendo agora. Que diabos deu em você — a voz do meu pai latiu. — Papai. Mamãe — sorriu Alyn. — Vocês dois sempre me apoiaram. Nunca questionaram nada do que eu dizia. Vocês eram sempre uns tolos malditos — zombou ela. Jurei ouvir meus pais ofegarem através dos barulhos e do sangue correndo nos meus ouvidos. — Vocês não conseguiam perceber quando eu mentia sobre algo envolvendo Valerie. Sempre colocavam minha palavra acima da dela… Mas no final não conseguiram ficar leais. Alyn deu um passo para trás, aumentando ligeiramente a distância, mas sua mira permaneceu firme enquanto encarava a multidão. — Já que estamos todos aqui, posso muito bem contar tudo. Dar a vocês um motivo para me julgarem de verdade — zombou ela. — Sim, eu menti sobre minha gravidez. Não, isso nem é o começo, é? — balançou a cabeça. — Ouvi os boatos. Como isso é tão diferente de mim. Todos gostavam da minha personalidade. A doce e inocente Alyn. Ninguém jamais acreditaria que ela faria algo tão enganoso. Ninguém acreditaria que ela espalhava rumores contra sua querida irmã também. Mas eu fiz. Enquadrei-a inúmeras vezes, manipulando constantemente as coisas a meu favor. A tensão era quase insuportável. Não conseguia acreditar no que estava ouvindo, como ela despejava a verdade tão descaradamente. — Mas quem se importa? Claro, eu menti muito. Enquadrei Valerie, mas foi pelo meu próprio bem. Não é culpa minha se ela me provocava com sua atitude perfeitinha e sua vida. ‘O quê?’ Fiquei completamente e totalmente atordoada, minha mente quase em branco. Eu já havia feito suposições uma vez, mas nunca esperei algo assim? Vida perfeita? Provocação? — Eu odeio ela. Odeio ela demais — fungou ela, uma mudança rápida de humor que me deu um choque. Enquanto olhava para ela, reconheci as lágrimas brilhando. — Ela tinha tudo. Pais, a alcateia, Tristan. Ela não merecia nada disso. Eu deveria ter Tristan como meu companheiro. Eu deveria ter sido a filha. E daí se conspirei e menti?! Era o que eu precisava fazer para tomar tudo dela — gritou ela. — Eu deveria ter tudo o que ela tinha. Eu mereci. Fiz tudo para ser ela. Olhem. Eu até tenho o cabelo dela — sua voz parecia crescer enquanto sacudia os fios loiros sujos com a outra mão para todos verem. Inacreditável. — Mas um pequeno erro e agora todos estão do lado dela? Eu odeio isso! Por que ela arruína tudo?! — gritou ela, batendo os pés e parecendo mais criança que mulher. Finalmente fez sentido para mim. As palavras que ela disse antes, me culpando por arruinar tudo. Bile subiu na minha garganta. Isso era verdadeiramente insano. Era assim que ela sempre se via? Como uma vítima maldita? Algo quente e amargo inchou dentro de mim. A ansiedade diminuiu para um sussurro baixo e tudo o que eu conseguia ver era ela. Alyn, que constantemente me colocava contra eles, suas palavras tão facilmente aceitas. Quem eu um dia acreditei. A mesma Alyn que era adorada por todos, de Tristan, meus pais e a alcateia, que — em uma vida — foi defendida pela alcateia ao ponto de guerra. Enquanto eu era deixada para trás para juntar os pedaços, recebendo apenas insultos, críticas e responsabilidade sozinha, sem cuidados até agora. Era assim que ela justificava a si mesma? Suas ações? Tudo o que ela fez contra mim, e ainda se via como a parte ferida. — Não é justo — Alyn gritou. — Eu tomei tudo o que ela tinha. Por que sou eu a que está perdendo! — E me diga, quem pediu para você fazer tudo isso? Minha voz rompeu o silêncio, ecoando alto apesar da multidão de pessoas. Jurei que conseguia ouvir Tristan me chamando. Meu lobo rosnou por instinto ao perigo que viria, mas não me movi um centímetro enquanto Alyn virava de volta para mim. — O quê? — rosnou ela, o fogo nos olhos retornando, mas nesse momento eu não conseguia me importar menos. Uma vez pensei que já havia superado o esquecimento, ansiosa para seguir em frente, mas isso me trouxe a um estado que nunca senti antes. Nesse momento não conseguia me importar com a arma apontada para mim. Talvez eu estivesse louca. Ou talvez tivesse sido levada aos meus limites por causa dela. Mas nesse momento, eu sentia uma raiva verdadeira. Erguendo a cabeça alta para encará-la, continuei. — Ninguém pediu para você mentir, conspirar e me enquadrar várias vezes só para parecer melhor. Ninguém mandou você tingir o cabelo, mudar sua aparência ou fingir sua personalidade. Para se encaixar. Ninguém pediu ou quis que você fizesse isso. Você e sua mente distorcida causaram isso sozinha — cuspi. — O que realmente torna isso pior é por quê? Você diz que eu tomei tudo, mas você também esteve nessa alcateia, não esteve? Não foi criada aqui também? Ou se sentiu ameaçada por causa… por causa das suas origens? Minhas palavras pareceram causar impacto e eu soube que minhas suposições estavam certas. — Ninguém se importava com isso além de você, Alyn. Seu olhar ficou instável enquanto tropeçava para trás, piscando freneticamente. — Isso não é verdade — disse ela, balançando a cabeça e eu vi vermelho. — Você era uma rogue, abandonada pelos pais nas fronteiras da Alcateia do Eclipse! Todo mundo sabe disso! Olhe ao seu redor, Alyn. Está vendo algum rosto surpreso? — gritei em igual medida e por um momento ela ficou atordoada. — Eu nunca tentei te provocar e você nunca precisou roubar e conspirar por nada quando foi dado livremente a você. Talvez seus pais não quisessem você, mas aqui? Você era desejada, valorizada acima de tudo. Todo mundo, a alcateia, Tristan, minha mãe e meu pai, aceitou você como era. Você não precisava conspirar ou me arrastar para baixo. Eles teriam aceitado você como era, da mesma forma que aceitaram aquela garotinha frágil em trapos que trouxeram à sua maldita porta. Ela se encolheu, tropeçando mais para trás e meu queixo apertou. — Apesar de todas as suas fingimentos, eu um dia te aceitei como irmã — um nó se formou na minha garganta com essa confissão. — Nunca te vi como competição. Sempre que você vinha, se desculpando e implorando inocência por qualquer acidente que você causava que acontecia de ser ‘culpa minha’, eu acreditava em você. Porque eu também te aceitava. Até descobrir sua verdadeira face na morte, talvez eu continuasse acreditando nela. Nunca fomos próximas, admito que uma parte de mim a ressentia. Mas nunca desejei m*l a ela ou qualquer infortúnio. Mesmo agora, apesar de tudo. E essa era a diferença entre nós. Ainda conseguia lembrar das palavras finais dela na minha morte. Como ela falava sobre vencer. Não tinha me atingido até agora. Contra quem ela achava que estava vencendo? Pensei que reconhecer meus traços nela era a coisa mais digna de pena que já vi, mas ouvir suas palavras, seus gritos, sua dor fez isso afundar ainda mais. Olhando para ela agora, eu nem sentia pena. Ela não havia aceitado a si mesma e se trancou em um jogo autoinfligido, me derrubando para se sentir bem consigo mesma, e ainda assim nunca era suficiente, era? — A única pessoa que pensava em si mesma como segunda melhor era você, Alyn — minhas palavras bateram no salão. O silêncio era ensurdecedor. Graças à reação dela, a distância entre nós aumentou. Sua silhueta inteira vacilou enquanto a arma parecia baixar. Ela ainda era volátil, mas esse era o momento em que estava mais desprevenida. Talvez esse fosse o melhor momento para oferecer palavras calmantes para acalmá-la, mas não conseguia me encontrar para fazer isso. A raiva havia derretido, junto com o último fardo da vida passada em relação a ela. Não havia dor ou raiva ou ressentimento enquanto falava minhas próximas palavras, só a verdade fria e dura. — Você se vê como vítima nisso, Alyn, mas a única coisa que consigo ver é uma louca, iludida e tola. Qualquer dor que você passou sempre foi de sua própria autoria — disse eu. No momento em que as últimas palavras saíram dos meus lábios, eu sabia o que havia feito. Acendi os fósforos em uma câmara de gás. E agora tudo ia explodir. — Para o inferno com você! — guinchou ela, erguendo a arma. Meu coração voou para a garganta. Jurei que ouvi passos explodirem, ruídos altos sendo chamados ao meu redor, a multidão. — Pare! — Valerie! Fechei os olhos. Um estrondo alto ecoou pelo salão.
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