Capítulo 1

1875 Words

Dezoito horas... ainda. Eu estava exausto e não via a hora de fechar tudo e seguir para casa. Agora eu me arrependia de ter cedido aos apelos ronronantes de Victoria para sairmos mais tarde. Meu ânimo às treze horas era bem diferente de agora, cinco horas depois. A semana foi puxada não só na Fashion Magazine como também na Faculdade. Felizmente estava no final do último semestre e então minha vida entraria nos eixos.

Ia para faculdade todos os dias às seis e meia da manhã e de lá seguia direto para o trabalho, onde começava às treze e saía às dezenove. Ser sobrinho do dono de uma das maiores revistas de moda do país não me garantia nenhuma regalia. Eu trabalhava duro, e somente quatro anos depois de ingressar como estagiário eu consegui o posto de diretor de arte. E adorava o que fazia, embora muitas vezes fosse desgastante.

Minha posição na revista dava a errônea impressão de poder abrir portas para modelos em ascensão que muitas vezes se aproximavam de mim com o claro intuito de conseguir a capa da semana. Eu aceitava o que me ofereciam de bom grado, óbvio, mas deixava claro que eu não tinha autoridade nenhuma para isso.

Acredito que a coincidência de ter saído com Natasha Jenkins pouco antes de ela aparecer na capa tenha provocado todo esse reboliço. Além, é claro, do fato de eu ser sobrinho de Owen Smith, o dono da Fashion.

Joguei minha caneta sobre a mesa e estiquei meu corpo para trás, ponderando se deveria ou não ligar para Victoria e desmarcar nosso compromisso. Ela era uma negra linda e escultural capaz de levar um homem à loucura, mas mesmo assim eu tinha a impressão de que ela teria muito trabalho para me fazer entrar no clima. Admito que meu desejo era chegar em casa, tomar um banho e me jogar no sofá enquanto assistia a algum filme ruim ao lado da minha melhor amiga.

Retorci meus lábios em um muxoxo de desagrado ao pensar em Holly. Holly Watts era minha melhor amiga desde que nos conhecemos aos dez anos de idade. Eu ainda me lembro nitidamente do dia em que estava sentado à porta de casa, emburrado por ter tido minha bola furada pelo senhor Case quando meus novos vizinhos chegaram. Entre dois adultos e um garoto de quinze anos estava a menininha de pele clara e cabelos dourados. Ela era linda e eu não consegui deixar de olhar para ela, tanto que seu irmão Brennan me olhou de cara amarrada.

Ela então sorriu timidamente... e aquele, para mim, foi o sorriso mais lindo de todo o mundo. Nós nos tornamos inseparáveis desde então. Fizemos quase tudo juntos, inclusive fomos para a mesma faculdade e juntos alugamos um apartamento. Holly foi meu primeiro beijo, minha primeira transa, minha primeira amiga. Aliás, vez ou outra eu me pergunto porque não tentamos um namoro logo após termos feito sexo. Talvez fosse o meu medo de tudo desandar e eu perder a amiga que tanto adorava. Não sei como nem por que, mas seguimos o caminho da amizade e assim seguíamos até hoje.

Mas minha reação de desagrado não foi por pensar nela e sim por saber que hoje, sendo uma sexta-feira ela provavelmente sairia com o idiota com o qual vinha saindo no último mês. Era incrível a capacidade que ela tinha de escolher apenas caras estúpidos, aproveitadores e mal caráter para namorar. Que dedinho podre tinha essa minha amiga! Ja perdi a conta de quantas vezes eu a consolei depois de ter quebrado a cara com algum estúpido que não soube enxergar a garota incrível que ela era.

Bom, já que eu não teria sua deliciosa companhia, então o mais sensato seria sair com Victoria e tentar relaxar com o sexo quente que ela me prometia com seus olhares lascivos.

—E aí cara? Já está indo?

A voz surgiu ao mesmo tempo em que o vozeirão ecoou pela sala. Owen entrou e se sentou a minha frente, abotoando o terno caro e me encarando com seus olhos azuis. Era um homem de cinquenta e cinco anos, que aparentava trinta e atraía as mulheres como se tivesse um ímã colado ao corpo. Usava os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, o que de certa forma ajudava a compor o visual mais jovem.

—Ainda não. Faltam alguns minutos.

—Mas já terminou tudo o que tinha para fazer?

—Sim. Tudo pronto.

—Então vá para casa, garoto. A semana foi longa e exaustiva até para mim. Vá curtir sua noite de sexta com aquela gata que vi cercando você na hora do almoço.

—Pretendo fazer isso sim, mas vou esperar dar meu horário. Sabe que não quero ter privilégios.

—Não é questão de privilégio. Eu sou o chefe, estou mandando você ir.

—De jeito nenhum.

—Abusado, não é?. Mas e aí? Como está nossa querida Holly?

—Bem. Pelo menos até o momento em que nos despedimos mais cedo na faculdade.

—Aquela garota é um estouro, cara. Sabe que eu sempre me pergunto porque você nunca a reivindicou para si? O que há? Ela não o atrai? Duvido muito.

E era para duvidar mesmo. Holly realmente me atraía. Para ser completamente escroto... eu sentia um puta tesão por ela. Aquela bunda empinada que qualquer peça de roupa moldava com perfeição me fazia ver estrelas só de imaginar minhas mãos nela. Doce Jesus... eu a jogaria na cama sem pensar duas vezes se ela quisesse.

Ok, às vezes eu me sinto péssimo por ter esses pensamentos com minha melhor amiga. E mais ainda, por saber que ela inocentemente sequer imaginava isso. Pelo menos eu quero crer que ela nunca percebeu.

Porém, embora ela também me olhasse às vezes com certa gula, ela preferia continuar no nível da amizade. Muitas vezes quis perguntar se nossa primeira vez tinha sido tão ruim a ponto de ela nunca mais querer sexo comigo. Claro que na época foi bom para mim, afinal não passava de um adolescente cheio de hormônios e que acabava de experimentar o sexo de uma mulher.

Mas sei que não foi o mesmo para ela. Acredito que nunca será para uma garota que perde a virgindade com um garoto tão inexperiente quanto eu. Sei que fui rápido demais e hoje me envergonhava profundamente disso. Muitos homens podem se envergonhar de dizer, mas eu jamais negaria que sendo a primeira mulher da minha vida, ela me marcou muito.

—Somos amigos, tio. Qualquer tentativa de levar isso adiante poderá ter consequências que nenhum de nós dois deseja. Eu não quero perder a amizade dela. Nunca.

— E quem disse que vai perder, garoto bobo? A amizade é parte fundamental em um relacionamento. Uma amizade colorida... nem que seja isso. Já pensou? Você terá aquela coisinha linda na sua cama todas as noites e de quebra nem vai precisar correr desse monte de alpinista que vive te cercando.

— Você só pode estar brincando.

— Claro que não. Sabe… eu já vivi algo assim. Fomos amigos por um bom tempo até que nos envolvemos sexualmente… e depois sentimentalmente. Nós nos apaixonamos e nosso relacionamento foi a coisa mais deliciosa que já vivi. Infelizmente acabou.

Eu franzi a testa porque desconhecia essa historia do meu tio.

– E por que acabou?

— Não acabou por motivos que possa estar pensando. Não posso nem dizer que acabou. Digo que foi interrompido. Ela morreu. E eu fiquei aqui.

Eu engoli seco o encarando sem saber o que dizer. De repente a ideia de não ter Holly mais nesse mundo quase me fez sufocar e eu senti lágrimas nos olhos. James se levantou dando um tapinha no meu braço.

— Pense no que falei, Jay. Não perca tempo com pensamentos negativos do tipo E se a amizade acabar? O que vocês tem é forte e verdadeiro. E ca entre nós… eu posso até estar enganado, mas para mim, entre vocês existe muito mais do que amizade. Ou vocês ainda não viram isso ou têm medo de assumir. O que é uma grande lástima.

Eu encarei James buscando algum indício de deboche. Mas ele falava sério. E o pior é que aquela ideia me pareceu atraente demais naquele momento. Holly e eu… amigos com benefícios. O que poderia dar errado, afinal?

*****

Às vinte e trinta eu já estava de banho tomado, usando apenas a calça jeans enquanto tomava um suco e pulava de canal em canal em frente a TV da sala. Daqui a meia hora eu teria que sair para encontrar Victoria, leva-la a um hotel qualquer, me esbaldar em seu corpo e depois dar adeus. Esse era o ritual. Trazer qualquer transa casual para o apartamento era algo totalmente descartado do meu acordo com Holly.

Nem mesmo seus namoradinhos estúpidos frequentavam nosso cantinho. Eu os conhecia apenas da faculdade, das boates e bares. Aliás, nesse momento ela já devia estar se preparando para sair com o estúpido Briggs. Ao chegar vi que a porta do seu quarto estava fechada, então certamente ela estava se arrumando para sair.

E isso era até um tanto intrigante, já que normalmente Holly chegava uns vinte minutos depois de mim. Seu trabalho como gerente em um banco era ainda mais desgastante do que o meu.

Fui pego de surpresa quando ouvi a porta do quarto ser aberta e pouco depois ela passar por mim em direção à cozinha. Primeiro minha boca se abriu enquanto meus olhos percorriam aquele corpaço de cima a baixo. Vestia aquele shortinho azul de pijama com a camiseta da mesma cor. Acho que ela não fazia ideia de como aquela pecinha de roupa assombrava meus sonhos molhados.

Porém isso não foi o suficiente para afastar da minha mente o que estava realmente acontecendo. Ela já estava de pijama em plena sexta-feira. E mais do que isso. Eu convivo com ela há treze anos e sei o que aquela postura derrotada significava. Praguejei uma imprecaução e segui atrás dela. Ela estava de frente para a porta, com as costas contra a pia, por isso não teve tempo de se virar para esconder o rosto vermelho e banhado pelas lágrimas.

—O que aquele filho da puta fez?

Esbravejei já sabendo que só podia ser coisa daquele infeliz. Holly abaixou a cabeça e um soluço ecoou pela cozinha. No mesmo instante eu estava à sua frente, puxando-a para os meus braços.

—Não chore, floquinho... não por ele. Nem por ninguém. Absolutamente ninguém merece a droga de uma lágrima sua.

—Ele me traiu, Jay. Ele me traiu com aquela vadia da Eliza Gill.

Eu arregalei meus olhos, quase sem acreditar. Claro que a loira era linda, tanto que eu já tinha planos de aceitar suas investidas, mas nunca, jamais seria superior a Holly. O que aquele babaca tinha na cabeça?

—Qual o problema comigo hein? Porque sempre sou traída, abandonada?

Sei que minhas palavras poderiam parecer clichê naquele momento, mas expressava a mais pura verdade.

— O problema não é com você, linda. Eles são o problema. Agora venha comigo... eu vou cuidar de você.

E depois, quem sabe, eu perderia meu tempo cuidando do Briggs também.




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