Ponto de vista de Elena
Acordei com o som constante de um aparelho apitando e o cheiro forte de antisséptico no ar. Minha cabeça latejava quando tentei me mexer.
"Elena! Você acordou!"
Uma voz rompeu a névoa em minha mente. Virei a cabeça e vi May, minha melhor amiga. Ela estava bem ao lado da minha cama, com os olhos vermelhos e lágrimas escorrendo sem parar.
"Aquele desgraçado," ela disparou, apertando minha mão com força. "Como o Mark teve coragem de fazer isso com você? Te trair daquele jeito e ainda seguir em frente com aquele casamento sem vergonha. Se eu encontrar ele, juro que..."
"May..." Minha garganta estava seca. "O que... como você soube?"
Ela me olhou como se eu tivesse dito algo impensável. "Tá brincando? Está em todo lugar. A cobertura do casamento, todo aquele dinheiro e influência da família Thompson... Eu sabia que ver isso ia te destruir."
Fragmentos começaram a voltar — chuva torrencial, aqueles lobos rebeldes me cercando, o beijo dentro do carro luxuoso do Eric, e o cheiro dele ainda me assombrando. Senti meu rosto esquentar involuntariamente.
"Eu tô bem," murmurei. "Mas como você soube onde eu estava?"
"O hospital me ligou." Ela fungou, enxugando o rosto. "Você me colocou como seu contato de emergência. Graças a Deus fez isso. Quando me disseram que você desmaiou, quase fiquei maluca."
Assenti lentamente. Ela não mencionou mais ninguém. Nenhum Alfa. Nenhum homem com olhos penetrantes e uma voz que ainda ecoava nos meus pensamentos.
Olhei para o outro lado e disse a mim mesma para não ser tola. Eric era irmão da Bella e agora fazia parte da família de Mark. Ele era um Alfa poderoso. Alguém muito acima do meu mundo.
O que quer que tenha acontecido antes de eu desmaiar não significava nada e nem deveria ter acontecido, como ele mesmo disse.
A voz de May me tirou dos meus devaneios.
"Eu juro, Elena, não vou deixar isso passar," ela disse, com os punhos cerrados. "O Mark acha que pode te humilhar e sair impune? A gente precisa planejar uma vingança que ele nem sonhe em ver chegando. E eu já tenho algumas ideias... ele vai se arrepender de tudo até o último centavo."
"Não faça isso," cortei, em voz baixa.
Ela piscou para mim. "Por quê?"
Olhei para ela e depois desviei. "Não tenho tempo nem energia para planejar vingança contra o Mark," falei, calmamente. "Isso não vai mudar nada."
"Isso não é verdade," retrucou ela, irritada. "As pessoas não podem simplesmente te tratar como lixo e sair impunes."
"Podem," respondi, tranquila. "Especialmente pessoas como ele."
May franziu o cenho. "O que você quer dizer?"
"O Mark não é só o Mark agora," eu disse. "Ele se casou com a família Thompson. Ele tem poder. Dinheiro. Conexões. E eu sou o quê? Uma humana vinda do nada. Eu não posso lutar contra alguém assim."
Ela abriu a boca, mas logo fechou.
"E mesmo se eu tentasse," continuei, "o que eu ganharia? Mais problemas? Um processo? Eu preciso da minha rescisão. Preciso de um novo emprego. Preciso sobreviver."
Ela me encarou como se estivesse me vendo pela primeira vez. "Você... está bem?"
Soltei uma risada vazia. "Eu pareço bem?"
"Não," admitiu ela, baixinho. "Mas essa não é você, Elena. Você está agindo como se não doesse."
"É claro que doeu," eu disse. "Mas não posso me dar ao luxo de desabar."
A expressão dela suavizou. "Elena..."
"Eu não sou uma rica que pode se trancar no quarto e chorar por meses," continuei. "Tenho contas. Aluguel. Minha avó precisa de dinheiro para o tratamento dela."
May engoliu em seco. "Sua avó..."
"Eu mando dinheiro para casa todo mês," eu disse. "Isso não vai parar só porque o Mark se revelou um monstro."
Ela balançou a cabeça lentamente. "Você é forte demais para o seu próprio bem."
"Não é força," corrigi. "É só realismo."
Recostei-me no travesseiro. "Se for para dizer alguma coisa, deveria ser gratidão."
"Gratidão?" ela repetiu, incrédula.
"É." Um sorriso triste apareceu em meus lábios. "Pelo menos eu descobri quem ele realmente era antes de entregar mais de mim mesma. Antes de desperdiçar mais anos."
Consegui esboçar um leve, irônico sorriso. "Pequenas misericórdias, né?"
May parecia querer discutir, oferecer consolo ou explodir de raiva, talvez até pensar em planos imprudentes. Mas antes que pudesse dizer algo, a porta se abriu.
Um médico entrou, segurando uma prancheta.
"Hora de uma checagem rápida," disse ele.
May se calou, mas seu olhar permaneceu fixo em mim, pesado de preocupação não dita.
"Bom dia, Elena," cumprimentou o médico, com um tom profissionalmente agradável. "Como você está se sentindo?"
"Melhor," consegui dizer, embora minha cabeça ainda parecesse estar cheia de algodão. "Quando eu posso ir embora?"
"Em breve," ele me garantiu com um aceno. "Você chegou com febre alta e em estado de choque severo, mas respondeu surpreendentemente bem ao tratamento."
Enquanto ele falava, meus olhos vagaram pelo quarto — janelas enormes, móveis de luxo, um banheiro privativo no canto. Um aperto desconfortável cresceu em mim.
"Doutor," arrisquei, cautelosa, "esse quarto… é bem bonito."
Ele sorriu, tranquilo. "Você está em uma das nossas suítes VIP."
Meu coração falhou. "Suíte VIP?" Tentei me endireitar. "Tem algum engano. Eu não posso pagar isso."
"Não se preocupe," ele disse com naturalidade. "Todos os custos já foram pagos."
Fiquei imóvel. "Pagos? Por quem?"
O médico checou o tablet. "Alfa Eric Thompson. Ele está cobrindo tudo — o quarto, os medicamentos, qualquer acompanhamento que você precisar."
Um calor estranho encheu o ambiente. "Ah," suspirei, pequena, perdida.
Ele assentiu, educado. "Descanse bem." E saiu.
O silêncio caiu pesado.
May me encarou, boquiaberta. "Pera. Eric Thompson? Tipo… o irmão da Bella?"
Baixei o olhar para minhas mãos. "Sim."
Os olhos dela quase saltaram. "Elena, você nunca disse que conhecia alguém assim."
"Eu não conheço, de verdade," eu disse rapidamente—rápido demais. "Não desse jeito. Ele apenas... ajudou. Depois do ataque dos renegados, ele interveio."
Eu tentei soar casual, objetiva. Mas não era tão simples assim, e eu sabia disso. Havia algo entre Eric e eu—mesmo que existisse apenas na minha imaginação febril.
Ainda assim, uma sensação de vazio se instalou no meu peito. Ele não veio. Nem sequer me visitou. May teria me contado se ele tivesse. Só isso já me dizia tudo o que eu precisava saber sobre o meu lugar nessa história. Então por que pagar por tudo?
Talvez culpa. Pelo que quase aconteceu no carro dele. Dinheiro pra me manter calada. Ou uma compensação—porque a irmã dele tinha se casado com o homem que me destruiu.
Fechei os olhos, com os pensamentos girando na minha cabeça.
Seja lá o que fosse isso, não podia me dar ao luxo de interpretar demais. Homens como Eric Thompson não fariam nada sem um motivo bem calculado.
E, de alguma forma, esse pensamento doeu mais do que se ele tivesse aparecido.