Capítulo 5

1354 Words
  Ponto de vista de Elena   Mudei-me para o apartamento da May assim que recebi alta. O apartamento dela era pequeno, nada comparado ao espaçoso que Mark me tinha fornecido antes, mas, por enquanto, era o suficiente.   "Elena, tô falando sério," disse May, encostada no batente da porta com aquele ar de quem já repetiu a mesma coisa umas cem vezes. "O Alfa Eric Thompson tá interessado. Dá pra sentir o cheiro daqui."   Balancei a cabeça enquanto alisava uma blusa amarrotada. "Você tá exagerando. Ele ficou com culpa, só isso. A irmã dele roubou meu namorado, lembra? Ele provavelmente só quis equilibrar as coisas."   "Uhum." A risada da May foi sapiente. "Homens como o Eric Thompson não sentem culpa. Também não fazem favores por diversão. Ou eles querem alguma coisa, ou não perdem tempo."   Fiquei em silêncio.   Mas imagens começaram a passar pela minha cabeça – aquele olhar intenso e escuro que ele tinha no elevador, o jeito como ele me olhava, como se pudesse me devorar sem nem me tocar. Aquilo parecia desejo. Interesse, talvez. Mas eu me recusei a pensar mais sobre isso. Não ia me enganar de novo.   "Olha," continuou May, com um brilho travesso nos olhos, "mesmo que seja por culpa, aproveita. Agradece ele. Seduz, se for preciso. Faz o Mark se engasgar com o próprio arrependimento."   Virei imediatamente. "Não. Nem pensar."   Ela piscou. "Por quê?"   "Porque eu terminei com isso." Minha voz saiu firme, definitiva. "Chega desses joguinhos de vingança. Quero minha vida de volta – um emprego, estabilidade. Não quero a caridade do Eric. Eu vou pagar ele de volta… cada centavo… quando eu estiver em pé de novo."   May soltou um risinho de desdém. "Você é ingênua ou só estúpida de tão nobre? Tem ideia de quanto tempo vai levar pra pagar alguém como o Eric Thompson?"   "O tempo que for necessário," respondi seca, encarando ela. "Acabou. Não vou mais servir homem poderoso nenhum. Nem ser entretenimento conveniente de ninguém. Quero algo real dessa vez. Gente real. Vida real."   May suspirou e finalmente arredou o pé. "Você é impossível."   Ela deixou o assunto morrer, mas dava pra ver na cara dela — achava que eu estava desperdiçando algo valioso.   Virei-me de volta para continuar desfazendo as malas, mantendo minhas mãos ocupadas para não pensar nele. No cheiro do Eric, no calor do toque dele, em como a voz dele parecia ecoar na minha cabeça, por mais que eu tentasse esquecer.   ***   Dois dias depois, entrei na Thompson Enterprises como se ainda pertencesse àquele lugar. Quatro anos eu tinha dado a essa empresa — fins de semana, feriados, noites viradas. Não voltei pra implorar. Vim pelo que era meu por direito.   Fui até a mesa do RH e falei claramente. "Eu preciso dar andamento no meu pacote de rescisão."   A mulher atrás do balcão levantou os olhos rapidamente e começou a digitar. Ela franziu a testa para a tela, clicou mais algumas vezes e franziu a testa de novo. Finalmente, olhou para mim. "Elena, certo?"   "Sim. Elena Grey. Eu trabalhava com o Mark—"   Ela levantou uma mão. "Não precisa explicar. Me dá só um minutinho para localizar o seu arquivo."   Algo no tom dela fez meu estômago apertar. Ela girou um pouco o monitor em sua direção, estreitando os olhos para a tela. "Isso é estranho."   "O que é estranho?" perguntei, inclinando-me um pouco para a frente.   Ela se recostou na cadeira. "Seu nome não está aparecendo em lugar nenhum no banco de dados."   Soltei uma risada confusa. "Isso não é possível. Eu trabalhei aqui por quatro anos."   Ela voltou a digitar, agora mais devagar, com cuidado. "Nenhum contrato de trabalho. Nenhum registro de folha de pagamento. Nenhuma inscrição em benefícios com seu nome."   Meu sorriso desapareceu. "Então, como eu recebi o salário?"   Ela me encarou diretamente agora. "Segundo o sistema, todos os pagamentos associados ao seu nome vieram de contas pessoais do Mark."   O ar saiu dos meus pulmões. "Espera. O que isso significa?"   Ela cruzou os braços. "Isso significa que você nunca foi oficialmente contratada por esta empresa. Legalmente falando, você não era nossa funcionária."   Minha voz saiu baixa, quase sem acreditar. "Então tá dizendo que eu não existo no sistema de vocês?"   Ela deu de ombros. "Correto."   Senti meu rosto pegar fogo. "O Mark era meu supervisor," eu disse, tentando manter a voz firme.   Os lábios dela se curvaram em um sorriso c***l. "Parece mais que ele era o seu tutor."   A raiva me levou a avançar até ficar apoiada na mesa dela. "Eu não estou aqui pedindo esmola. Estou aqui pela minha rescisão. Eu trabalhei por isso."   O olhar dela percorreu meu rosto, devagar e avaliador. "Senhora Grey, Ponto de vista da empresa, você não foi demitida. Você foi... dispensada de um acordo privado."   "Um acordo privado?" repeti, incrédula.   Ela assentiu. "E agora está exigindo uma compensação à qual não tem direito."   O significado das palavras dela caiu sobre mim—feio e humilhante. Agarrei a borda da mesa dela. "Então quatro anos de trabalho não significam nada?"   Os olhos dela endureceram. "Eu diria que você tem muita ousadia de aparecer aqui desse jeito."   A sala parecia ter encolhido. O ar ficou pesado. Finalmente entendi—isso não era um erro. Era uma humilhação calculada.   Ela se inclinou para frente, baixando o tom de voz. "Toda proposta que você pôs a mão tinha o nome do Mark primeiro," ela disse. "Divisão de lucros, crédito, aprovações—tudo dele."   "Isso não apaga o meu trabalho!" retruquei. "Eu elaborei aquelas propostas. Gerenciei aqueles projetos. Pergunte pra qualquer um do andar."   Um sorriso fino apareceu. "E como exatamente nós poderíamos verificar isso?"   "Verifica os registros," exigi. "E-mails. Atas de reunião. Relatórios de desempenho."   Ela balançou a cabeça. "O acesso ao sistema foi revogado. Você está bloqueada."   Meu coração disparou. "Então puxem as gravações de segurança!" insisti. "Vocês vão me ver aqui todos os dias. Chegando cedo. Saindo tarde. Quatro anos da minha vida não foram uma ilusão!"   A expressão dela endureceu. "As gravações são confidenciais."   "E roubar o trabalho dos outros não é?" rebati.   Os lábios dela se apertaram. "Cuidado, Srta. Grey."   "Cuidado?" Uma risada amarga escapou de mim. "Cuidado com o quê? Que eu dei quatro anos da minha vida para essa empresa e não sou nada além de... o quê? A sombra do Mark?"   Ela não respondeu de imediato. Então, com uma voz fria e precisa, disse: "Talvez suas... contribuições... não se limitassem ao âmbito profissional."   O silêncio caiu como um peso. Eu a encarei. "O que isso quer dizer?"   Ela inclinou a cabeça levemente. "Mark estava à frente em todos os projetos. Quem pode dizer o que você realmente trouxe à mesa?"   Minhas mãos tremiam. "Diga claramente!" exigi.   Ela me encarou sem hesitar. "Alguns podem presumir que seu… desempenho… veio de outro tipo de envolvimento."   A acusação me atingiu como um soco. "Você está me acusando de ter usado outra forma de conseguir meu lugar nesses quatro anos de trabalho?" sussurrei, perplexa.   "Estou dizendo," ela respondeu calmamente, "que, Ponto de vista da empresa, Mark Dalton era o verdadeiro ativo. Não você."   Algo dentro de mim se rompeu. "Vou tornar isso público," declarei. "Agora mesmo."   Ela apertou um botão em sua mesa. "Segurança," falou no interfone. "RH, por favor."   Dois seguranças apareceram na porta segundos depois.   "Essa mulher não trabalha mais aqui," ela disse, levantando-se. "Acompanhem-na para fora."   Eu recuei. "Você não pode fazer isso."   Ela encarou meu olhar. "Nós já fizemos."   Os seguranças avançaram. Eu não lutei. Não conseguia. Enquanto me conduziam para fora, cabeças viravam, sussurros me seguiam.   Quatro anos. Apagados. E eu estava sendo expulsa como uma intrusa, como se nunca tivesse pertencido àquele lugar.   No momento em que fui empurrada para fora do escritório, tropecei direto em um peito sólido.   Quente. Familiar. Firme.   Eu congelei. Não precisava olhar para cima. O cheiro—profundo, terroso, com um toque de perigo—me envolveu como uma rede. Minha respiração travou antes que eu pudesse evitar.   E então a voz dele veio, baixa e inconfundível.   "Por que sempre que eu te encontro... parece que acabou de ser mastigada e cuspida pelo mundo?"
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