Ponto de vista de Liora
Me apoiei na borda da pia, encarando a porta do banheiro enquanto ela continuava a balançar nas dobradiças.
Kade havia fugido rápido. Seu terno estava encharcado, o cabelo em desordem — nada parecido com o homem perpetuamente arrogante que eu lembrava.
A porta bateu na moldura e voltou com um baque surdo.
Fechei os olhos e pressionei as palmas trêmulas contra a bancada de mármore frio, me forçando a respirar. A náusea no meu estômago não havia diminuído. Minha pele ainda parecia se lembrar de onde ele havia me tocado. Esfreguei o braço com força, como se pudesse apagar a sensação.
Se Rowan não tivesse aparecido... o que ele teria feito?
Só o pensamento fez meu estômago revirar. Quase desejei tê-lo matado quando tive a chance.
Seu miserável.
"Você é cruel."
A voz preguiçosa ecoou do outro lado do banheiro. Abri os olhos.
Rowan estava encostado na pia oposta, braços cruzados sobre o peito, uma sobrancelha erguida, aquele sorriso torto familiar puxando seus lábios.
"O pobre i****a parecia que ia se mijar de medo. Você é mais assustadora do que eu."
Abaixei a mão e endireitei a espinha. "O que você está fazendo aqui?"
Eu não queria falar nada sobre Kade nesse momento.
Ele inclinou a cabeça, o sorriso se aprofundando, mas não respondeu. Em vez disso, se afastou da bancada e caminhou em minha direção — sem pressa, confiante, como se soubesse que eu não tinha para onde ir.
Instintivamente, dei um passo para trás até que minha cintura encostasse na borda da pia. O frio do mármore trouxe a realidade à tona.
Eu estava encurralada.
Ele estava perto demais. Perto o suficiente para eu captar seu cheiro. Perto o suficiente para me arrastar de volta àquela noite.
O calor subiu até minhas bochechas.
"No que você está pensando?" Sua voz baixou, quase um sussurro. "Já corando?"
Pressionei os lábios e me forcei a olhar para cima. Seu olhar estava baixo, pesado e intenso, me estudando como se quisesse gravar o momento na memória.
"O que você quer?"
Ele ergueu a mão e afastou um cacho solto da minha bochecha, passando-o atrás da minha orelha. Seus dedos roçaram a borda da orelha, me enviando um arrepio sutil.
"Quero o seu agradecimento. Afinal, te salvei."
Respirei fundo com calma. "Tá bom. O que você quer? Dinheiro?"
Ele balançou a cabeça. A forma como ele se inclinou mais perto me silenciou completamente.
"Dinheiro não significa nada." Seus olhos escureceram. "Quero algo mais valioso."
"Seu beijo."
Virei a cabeça para o lado. "Não."
É claro que ele não obedeceu. Baixou o rosto devagar, deliberadamente, me dando tempo de sobra para detê-lo.
E eu detive.
Minha palma subiu entre nós, pressionando com firmeza contra seu peito. Era sólido, quente, inabalável. Ele não recuou. Em vez disso, se deslocou levemente, uma curva maliciosa puxando seus lábios.
Seus lábios desceram, não até minha boca, mas até minha clavícula.
Uma respiração afiada prendeu em minha garganta.
Bem onde ele havia me marcado naquela noite, ele pressionou um beijo demorado, depois roçou o mesmo lugar com os dentes.
A sensação foi intensa o suficiente para que eu não conseguisse suprimi-la completamente. Um som fraco e traidor escapou dos meus lábios antes que eu pudesse detê-lo.
Rowan recuou, uma satisfação faiscando em seus olhos, sua boca corada e úmida.
Engoli em seco, lutando contra o impulso irresponsável de agarrá-lo e beijá-lo de verdade. Na luz fraca, seus olhos pareciam mais vivos do que nunca.
"Você gostou," ele provocou.
Eu queria negar. Realmente queria.
Mas a pergunta que me escapou não era a que eu havia planejado.
"Por que você me marcou?"
No momento em que as palavras saíram da minha boca, me arrependi. Mas já era tarde demais.
"Impulso," ele disse levemente.
Impulso.
Abri os lábios, uma centena de perguntas se acumulando na minha garganta.
O que isso significava? Ele agia por impulso com toda mulher? E agora?
Mas não perguntei.
Algo vazio se abriu no meu peito, e eu não conseguia nomear o sentimento.
Antes que eu pudesse me recompor, ele se inclinou de novo, com a intenção de me beijar.
Me afastei abruptamente.
"Você está só tentando provocar o Kade. Só queria arruinar o que quer que ele estivesse planejando. Para você, não sou nada além de uma ferramenta. Não é?"
Rowan parou. Não argumentou. Não negou. Apenas deu de ombros, quase como se concordasse.
"Isso importa?" ele disse com indiferença. "Gosto dos seus beijos. Você gosta dos meus. Não é suficiente?"
Eu o encarei—aquele malditamente indiferente semblante, aqueles olhos impossíveis de ler.
Maldito.
Malditos todos os homens.
Eu queria dar um tapa nele. Queria apagar aquele olhar cínico de seu rosto. Mas, mais do que isso, eu queria fugir, fugir do calor que se formava no meu estômago, da tola sensação em meu peito, desse emaranhado caótico de emoções que eu não conseguia compreender.
"Saia," eu disse friamente.
O empurrei de lado e caminhei em direção à porta.
Meus passos eram rápidos. Rápidos demais.
Como se eu estivesse fugindo.
Ele não me chamou de volta.
O ar fresco do corredor me envolveu enquanto eu saía do banheiro. Eu não olhei para trás.
O caminho até a sala privada parecia estranhamente curto.
Assim que entrei, forcei um sorriso no rosto—fraco e vazio.
Raya estava segurando uma taça de vinho, os olhos brilhavam e as palavras saíam sem parar da sua boca.
"Aí está você!" ela disse animada. "Retocar a maquiagem ou arquitetar um crime? Você demorou uma eternidade."
"Fila longa," menti, tentando manter a voz firme.
Ela não acreditou. O sorriso dela se transformou em um gesto travesso. "Você perdeu a melhor parte—adivinha o que eu fiz?"
Eu pisquei, aliviada pela mudança de assunto. "Não faço ideia. Pediu mais três garrafas?" Levantei uma sobrancelha. Isso seria bem típico dela.
"Por favor, não sou tão previsível assim." Ela praticamente pulava na cadeira, os cachos escuros caindo sobre os ombros. "Eu inscrevi uma das suas peças antigas—o colar de granada e obsidiana, lembra? Enviei para o Showcase Carla usando seu pseudônimo, 'Nine'."
Meu estômago revirou.
"Raya…"
"Foi premiado, querida. Primeiro lugar. 'Nine' acabou de entrar no holofote!" Ela deu um gritinho animado ao ver minha expressão de choque.
Eu agarrei a borda da toalha de mesa, os dedos se apertando com força. "Você foi mexer no meu trabalho sem perguntar," disse em um tom baixo.
"Sim, porque você teria dito que não. Mas olha o que aconteceu!" Ela empurrou o celular para mim. Na tela, havia um e-mail — logotipo limpo, fonte serifada em negrito declarando: Parabéns.
Eu fiquei olhando para aquilo.
"Joalherias importantes já estão entrando em contato," ela disse, quase tremendo de empolgação. "Você está prestes a ficar famosa."
"Isso é... incrível," consegui dizer. "Realmente incrível."
Mas minha voz parecia distante aos meus próprios ouvidos, como se eu ainda estivesse presa naquele banheiro escuro, tentando processar o que acontecera com o toque de Rowan.
"Você não parece animada," Raya observou com uma expressão de dúvida.
"Eu só estou... processando."
"Eu sei que é muito para absorver. Agora que tantas pessoas querem trabalhar com você, precisamos comemorar." Ela abriu um sorriso radiante.
Eu assenti.
Era uma notícia incrível. Sem dúvida.
Se Kade não tivesse tentado me atacar... se Rowan não tivesse despertado sentimentos que eu preferia não enfrentar... talvez eu estivesse mais feliz.