Ponto de vista de Liora
Na manhã seguinte, meu celular começou a tocar antes mesmo de eu me levantar da cama.
Número desconhecido. Deixei cair na caixa postal.
Depois veio outra ligação – de um código de área diferente. E então os e-mails começaram a chegar sem parar. Antes do meio-dia, minha caixa de entrada parecia o chão de uma casa de leilões em plena guerra de lances.
Joalherias que eu jamais ousaria mencionar nem nos meus mais loucos devaneios estavam implorando para colaborar com "Nine".
Nine. Não eu.
Eles não sabiam que Nine usava o meu rosto. Eles não sabiam que Nine era eu—Liora.
Eu ignorei cada uma das mensagens.
Até o convite da corporação da família Selene — o império de platina que o pai dela governava como um monarca.
Se ela descobrisse, provavelmente teria um ataque.
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Dois dias depois, ali estava eu, sozinha, na base da grande escadaria do salão de baile.
Meu avô deveria me acompanhar, mas tinha sido abatido por um resfriado repentino e estava confinado na cama. Por isso, vim sozinha.
Os lobos mais poderosos do território estavam reunidos esta noite, vestidos em alta-costura e cobertos de diamantes, com risadas que carregavam aquela aura sutil e opressiva que só a verdadeira autoridade possui.
Eu segurava uma taça de champanhe e me posicionava ao lado de duas socialites – é claro, não por acaso. Elas pareciam demonstrar bastante interesse na minha presença.
"Ouvi dizer que a herdeira misteriosa do Alfa Quinn vai estar aqui esta noite," uma delas sussurrou – em um tom que estava longe de ser realmente um sussurro.
"Ah, por favor," a outra zombou. "Ela deve ser uma invenção. Ninguém nunca a viu. Quem sabe se ela realmente existe? Talvez o Quinn só tenha inventado essa história pra ganhar tempo com o problema da sucessão."
"Faz sentido."
Eu estava a menos de três passos delas, tomando um gole devagar, enquanto segurava o sorriso que ameaçava surgir nos meus lábios.
Se soubessem que o assunto da conversa estava parado bem ao lado delas, de taça na mão, observando-as…
Só de pensar, já era engraçado.
Mas elas nunca saberiam. Mesmo quando seus olhares passavam por mim, faziam isso da forma que se olha para um móvel sem graça.
Exatamente como eu preferia.
Eu estava prestes a me mover – talvez pegar mais um pouco de champanhe – quando uma mudança na entrada me fez parar.
Não foi um som.
Foi o ar. Uma leve alteração na pressão. O aperto instintivo que se sente antes que o perigo entre no ambiente.
Segui aquela sensação invisível e levantei o olhar.
Selene e Kade.
Eles entraram com uma sincronia quase ensaiada. Ou melhor – Selene entrou assim.
Ela entrelaçou o braço no de Kade, andando com passos calculados. Seu olhar percorreu o salão antes mesmo de seus pés avançarem, como uma rainha inspecionando seus domínios.
Então, os olhos dela pararam.
Em mim.
Por um único segundo, o sorriso impecável dela congelou—sem disfarces.
Ela inclinou a cabeça e murmurou algo no ouvido de Kade. Vi ele seguir a direção do olhar dela. Sua testa se franziu levemente. Ele respondeu algo em voz baixa e levantou discretamente a mão, como se fosse para detê-la.
Parece que meu aviso anterior deixou alguma impressão.
Mas Kade ainda não entendia Selene.
Tentar contê-la só faria com que ela se aproximasse mais rápido.
Como esperado, ela hesitou por não mais de um segundo antes de se livrar da mão dele e caminhar direto em minha direção.
Os convidados ao redor perceberam imediatamente. As conversas diminuíram. A multidão instintivamente abriu caminho, criando uma passagem livre para ela.
Ninguém falou.
Mas todos observavam.
Afinal, o que havia de mais entretenimento em um evento como esse do que uma confrontação pública?
"Segurança!" ela chamou quando estava a cinco passos de distância, sua voz cortando o salão com precisão. "Tem uma ladra aqui. Expulsem-na imediatamente!"
Que cansativo.
Coloquei calmamente minha taça sobre a mesa e tirei o convite da bolsa. "Olhe com atenção," falei com firmeza. "Eu tenho um convite."
Os olhos de Selene passaram pelo objeto por um breve instante. Então ela estendeu a mão, palma aberta, com um tom carregado de autoridade indiscutível.
"Me dê isso."
Olhei para sua mão esticada.
Com um movimento leve, deslizei o cartão entre meus dedos, girei suavemente para o lado e o coloquei de volta na minha bolsa, fechando-a firmemente, como se a mão suspensa dela simplesmente não existisse.
O convite trazia o nome do meu avô em letras destacadas. Qualquer um com olhos entenderia claramente quem eu era.
Mas deixá-la anunciar minha identidade?
Nem pensar.
Quem ela achava que era?
Meu gesto era em si uma provocação óbvia. Eu sabia disso. Todos ali sabiam.
Uma onda de suspiros baixos se espalhou pelo salão.
Após uma fração de segundo de silêncio atônito, Selene se recuperou.
E ela sorriu.
Aquele sorriso era mais perigoso do que a raiva. Mais feio do que o constrangimento.
"Falso," ela declarou com rispidez, o olhar me percorrendo da cabeça aos pés como se estivesse avaliando uma falsificação barata. "Impressionante, Liora. Onde você conseguiu um convite falsificado? O que você vendeu para pagar esse vestido? Abriu as pernas por ele?"
Eu havia prometido a mim mesma que não responderia a nenhuma das suas provocações.
Mas nem eu consegui deixar de franzir a testa diante de algo tão grosseiro.
"Você—"
"Selene."
Antes que eu pudesse terminar, a voz de Kade cortou o ar. Ele deu um passo à frente, com um tom carregado de aviso.
"Chega—"
"Chega!"
A mesma palavra. O mesmo momento.
De uma direção diferente.
As duas vozes se sobrepuseram no ambiente—mas a de Kade foi prontamente ofuscada.
Não pelo volume. Pelo peso.
Ninguém olhou para Kade.
Todos se viraram. Incluindo eu.
Rowan estava na borda da multidão que havia se aberto. Eu nem tinha percebido quando ele chegou.
Antes que eu me desse conta, uma mão quente havia pousado contra minha cintura.
Ele analisou o salão devagar, de forma intencional, antes de fixar seu olhar em Kade—cuja expressão já estava se contorcendo de fúria.
Então Rowan falou.
"Kade, controle sua amante. Se ela incomodar minha acompanhante novamente… Você sabe o que vai acontecer."