Aliança na Sala Preta
Aos olhos de Gallo
Respirei fundo umas duas ou três vezes antes de entrar na “ sala p.reta”.
Um lugar de tamanho mediano, preenchido por algumas cadeiras de ferro… e nada mais além disso.
A primeira visão que tive foi dos fartos cabelos escuros da mulher que caiam em ondulações provocantes sobre os ombros, quase espremidos pela sacola escura que cobria a cabeça dela.
Ao lado da minha visitante surpresa, havia um homem muito alto e de terno, também com o rosto coberto pelo mesmo objeto.
— Eu não pretendia trabalhar hoje, sabe? Não gosto de ser convocado para interrogatórios na minha folga — Fiz uma pausa proposital enquanto caminhava de um lado para o outro.
— Te darei a chance de explicar o que está sondando na minha área — Estiquei a mão na direção da capturada e puxei a sacola de uma só vez.
Senti uma fisgada estranha na virilha ao me deparar com os olhos grandes e dourados da mulher. Ela me encarava sem nenhuma expressão de temor, com os lábios cheios e bem desenhados projetados em uma linha firme.
Invejei imediatamente aquela capacidade de auto-controle.
— Sou Isabela Valente, senhor — Falou, sem titubear.
Inclinei o tronco para a frente, de modo a deixar o meu rosto tão próximo do dela, que tive certeza que o meu hálito quente sopraria na sua pele quando eu falasse.
— Sei exatamente quem você é. A minha pergunta foi: O que está sondando na minha área?
— Vim propor ao senhor uma aliança — Respondeu Isabela, sem desviar os olhos do meu.
Dessa vez, a fisgada estava na lateral do meu pescoço. Talvez já fosse o efeito do uísque escocês na minha corrente sanguínea, ou apenas o meu corpo reagindo a uma bela e corajosa mulher ( com um pouco mais de estímulo do que o normal).
Olhei para os meus capangas que estavam logo atrás, todos com a testa enrugada, curiosos com o que uma madame poderia querer com um mafioso inescrupuloso.
— E por que alguém como a senhorita gostaria de se aliar a um homem como eu? — Dessa vez, fiz sinal para que um de meus homens me trouxesse uma cadeira.
Santiago, o meu braço direito nos negócios, logo me deu o que pedi. Sentei-me de frente para ela, ainda a encarando com curiosidade.
— Imagino que conheça as indústrias Valente…— a moça começou a explicar.
— Como não conheceria? É a minha maior concorrente — não escondi o tom sarcástico da minha voz.
A sala logo foi preenchida por risadas graves em uníssono. Pela primeira vez, desde que falou comigo, vi os lábios da Dra. Isabela tremerem. Instintivamente olhei para eles e precisei resistir à vontade de passar o indicador sobre o inferior, bem devagar, apenas para sentir sua textura.
— Era vontade do meu pai que eu assumisse a presidência da empresa, mas as minhas irmãs me sabotaram e colocaram o p.ilantra do meu cunhado no poder.
— Então se trata de uma briga de herança — constatei.— Está começando a ter a minha atenção, continue. Por que o seu cunhado é alvo de tanta simpatia da sua parte?
Dessa vez a pupila do olho de Isabela dilatou. Talvez por raiva da família, talvez por raiva das minhas provocações.
— Primeiro de tudo, o meu pai nunca confiou nele. O meu cunhado sempre se mostrou trapaceiro, mentiroso, oportunista e desleal. Recentemente, descobri algo que torna tudo ainda p.ior, mas não tenho como provar nada.
— Eu até entendo que a sua irmã que é casada com o tal p.ilantra tenha passado por cima da vontade de seu pai. Mas e a outra? Qual justificativa por não ter ficado ao seu lado? — Perguntei.
Isabela mordeu a própria boca enquanto parecia pensar. Por um breve momento, seus olhos desviaram dos meus.
Aquilo estava começando a me deixar desconfiando, quando ela falou:
— Poderia aproximar-se para que eu contasse?
Inclinei a cabeça para o lado enquanto tentava ler as expressões do rosto dela, mas não havia nada aparente. Me aproximei o suficiente para que ela sussurrasse no meu ouvido.
— Hum…— foi o único som que consegui emitir.— Agora tudo começou a fazer mais sentido. Mas ainda não entendi exatamente como posso ajudá-la e me beneficiar dessa ajuda.
— Nada melhor do que um vigarista qualificado para enfrentar outro vigarista.
Minha sobrancelha ergueu diante daquela resposta.
— Um vigarista menos qualificado, eu espero, ou ficaria terrivelmente ofendido.
— A julgar por sua fortuna sem precisar dar o golpe do baú, eu diria que sim.
Foi impossível não sorrir diante do senso de humor ferino da minha visitante. Estava começando a me divertir na presença de Isabela.
— Seja mais clara com a sua proposta, Doutora — Provoquei.
— Poderia soltar as minhas mãos, por favor?
Fiz um sinal para o Santiago, autorizando o pedido. Como sempre, ele prontamente me atendeu.
— Estudei todo o seu dossiê antes de procurá-lo, senhor Gallo. Manipula um comércio grande e clandestino com desvio de medicamentos, venda de injetáveis falsificados, práticas de testes ilegais… estou esquecendo de algo? — ela levou a mão ao queixo, enquanto pensava. — Não importa. É exatamente o tipo de homem que preciso.
— Quer a minha ajuda para boicotar a empresa da sua família? É isso? Ou quer que matemos o seu cunhado para que haja uma nova eleição…
— Não, Jesus Cristo. Não continue com isso, por favor — a moça falou em tom de súplica.— Como disse logo no início, senhor Gallo…— levou a mão ao bolso de sua calça enquanto se explicava.— Quero propor uma aliança.
Os meus olhos quase saltaram das órbitas quando vi uma caixinha vermelha de veludo nas mãos dela.
Aquilo seria um…
— Vim até aqui para pedir que se case comigo e se torne um Valente.