Aos olhos de Isabela
Nunca havia sentido a garganta tão apertada como quando fiquei frente a frente com os olhos azuis glaciais do tal Frederico Gallo.
O maldito homem me fez estremecer com um simples bater de cílios, mas não me deixei abalar.
Quando finalmente consegui fazer a proposta, fiquei satisfeita ao ouvir apenas o silêncio. O poderoso chefão e todos os seus lacaios pareciam incapazes até de balbuciar. Gallo me encarava fixamente, como se tentasse digerir tudo o que acabou de acontecer.
— Você trouxe uma aliança? — ele perguntou, a linha firme da boca se desfazendo com um sorriso.
O homem passou a mão pelos cabelos loiros e levemente espessos, antes de cair na gargalhada.
O bando de hienas começaram a fazer o mesmo.
— É um anel de compromisso — retruquei com rigidez.
— Para você mesma, imagino, a julgar pelo tamanho — provocou.
— A menos que você queira ser a noiva — caminhei alguns passos para a frente, diminuindo a distância entre nós.
Para a minha surpresa, Gallo se aproximou mais um pouco, seu rosto estava perigosamente a alguns centímetros de distância.
— Acho que não ficaria bem de véu e grinalda — ele respondeu, mantendo o bom humor.— Mas você…
Embora estivesse com todas aquelas roupas, me senti n.ua quando fui analisada de cima para baixo.
A frase não foi finalizada, mas foi o suficiente para que qualquer um entendesse.
Pigarrei para limpar e garganta - e tentar disfarçar o meu desconcerto - antes de falar:
— Tem algum lugar mais privado para esclarecermos alguns pontos?
— Vamos para o meu escritório — Gallo fez menção de caminhar até a porta.
— Ah, espere — segurei o seu cotovelo.
O mafioso se deteve, com os mesmos olhos inexpressivos me encarando.
— Será que poderia pedir para tirarem essa sacola da cabeça do Pierre? E se não for pedir muito, essas amarras também incomodam bastante.
— Deixem o mordomo mais confortável, e ofereçam algum aperitivo — Ordenou Gallo.
O mais alto dos homens, de pele morena e cabelos meio dourados, foi imediatamente cumprir as ordens do patrão.
Deixamos a sala p*reta logo em seguida.
…
— Agora diga, Dra. Isabela, qual a utilidade do nosso casamento? Não me poupe dos detalhes.
Empolgado, Gallo buscou de seu bar o seu velho amigo escocês, e nos serviu com o líquido amarelado.
Dei uma generosa golada, antes de prosseguir com o meu plano:
— O nosso casamento, obrigatoriamente, fará com que haja uma nova eleição, já que o senhor ganhará cinco por cento das ações da Indústria Valente, o mesmo percentual que meu cunhado…
— E por que isso implicaria em uma nova eleição?
— Haverá uma redistribuição das ações. Foi uma regra implementada pelo meu pai, para garantir que todas as irmãs Valentes tenham o mesmo número — Expliquei, impaciente por ter sido interrompida.
— Entendi.
— Como eu estava dizendo, o nosso casamento implicará em uma reeleição. Dessa forma, ganharei quinze dias para convencer a minha irmã Marina a votar em mim, e com a ajuda do senhor, promoveremos um pequeno escândalo.
A sobrancelha esquerda de Gallo se arqueou, antes mesmo de sua dúvida ser pronunciada:
— Qual seria esse escândalo?
— Na verdade, será um escândalo em pequenas proporções, porque não deixaremos passar da diretoria — fiz uma pequena pausa antes de continuar. — Preciso que um lote inteiro dos seus injetáveis falsificados seja armazenado no estoque da nossa matriz.
— Quer insinuar que o seu cunhado está usando as indústrias Valente para faturar por fora com um procedimento ilegal, e assim queimá-lo com os diretores da empresa?
— Não duvido que ele já tenha feito mesmo isso. Os falsificados têm uma produção com custo bem inferior, além de que não tem toda a burocracia com órgãos federais.
— É um plano muito inteligente, preciso admitir. Estou surpreso, não esperava isso da doutora.
Dessa vez trinquei o maxilar.
O que aquele cretino queria insinuar?
— Está dizendo que pensou que EU fosse burra? — cruzei os braços.
— Seria incapaz de deduzir isso a respeito da senhora…
Estreitei os olhos diante do tom de condescendência dele.
— Só não imaginei que uma médica tão renomada e conhecida na mídia por ser extremamente honesta, pensaria em algo tão vilanesco.
Eu estava prestes a argumentar, quando uma palavra me chamou a atenção.
— Vilanesco? Ora, o senhor as vezes parece um personagem de livro.
— O vilão, eu espero.
Revirei os olhos diante do comentário - aquele gesto fez o irritante Fred Gallo sorrir.
— Agora me diga… o que vou ganhar sendo seu marido?
— Não pretendo deixar as ações da Valente’s no seu nome quando nos divorciarmos, mas pagarei pelo valor delas, o que significa, no mínimo cinco milhões de dólares.
— Hum…
Por mais que Gallo não tenha demonstrado empolgação, sei que ninguém em seu juízo perfeito recusaria tamanha fortuna.
Ele se serviu com mais um pouco de uísque, e fez o mesmo no meu copo.
— Espero que esteja ciente dos deveres de uma esposa — o homem não perdeu a oportunidade de insinuar algo malicioso.
— O casamento será consumado, e essa será a única vez que o senhor me tocará.
— Agora está começando a falar como uma esposa.
Dessa vez, não puder conter a risada.
— Aceito sua proposta de casamento, mas assinaremos um contrato com todas essas condições.
— Hum… — franzi a testa.— Não vou me sentir ofendida. Imagino que no mundo que o senhor vive, palavras não valem muito.
— Pelo contrário. No mundo que a senhora vive só vale o que tem no papel.
— Acho que estamos acertados — fiquei de pé, sem esconder a irritação.— Precisa pensar em um pseudônimo. Não posso apresentá-lo como Fred Gallo à sociedade para não comprometer…
— O precioso nome das indústrias Valente, imagino — completou o homem, também ficando de pé.
— Sim — concordei, carrancuda.
— Se me permite… — Gallo esticou a mão na minha direção.
A principio, não entendi muito bem do que se tratava, até ver os seus olhos compenetrados na caixinha vermelha ao meu lado, sobre a mesa de mogno dele.
— Ah! — emiti um som desconcertado, antes de entregar o objeto para o outro.
Sem hesitações, Gallo tirou a jóia que estava lá dentro e a colocou no meu anelar esquerdo. Pousou um beijo sobre o meu dorso, sem desviar o contato visual por um único segundo.
— Tem olhos muito bonitos, Doutora Isabela. Só não são mais atraentes do que os cinco milhões de dólares do nosso acordo.