Duas semanas depois
Aos olhos de Isabela
Quando por fim a ponta da caneta deslizou sobre o papel, o meu nome estava unido ao do último homem com quem um dia imaginei casar.
Nos olhamos brevemente, eu com um sorriso de orelha a orelha, Gallo com a mesma expressão imparcial de sempre.
O noivo conseguia estar ainda mais bonito trajando aquele paletó grafite de linhas retas e ajustado no seu corpo, desenhando os seus ombros com precisão. A lapela era fina e moderna, o tecido era de lã fria com acabamento acetinado.
A camisa era branca, de algodão egípcio. A gravata, um profundo tom de azul-marinho. As calças, mesma cor e corte do paletó. E para finalizar, o sapato social era de couro liso, polido e de design minimalista.
Já eu, a noiva, não levava mais do que um vestido de linho na cor vinho, com mangas soltas que terminavam antes dos cotovelos. O decote era contido, valorizando os meus s.eios no formato “ v”. A cintura levemente marcada e a barra mais solta, o suficiente para potencializar minhas curvas bem desenhadas. Nos pés, um scarpin clássico na cor p.reta, e para finalizar, um conjunto discreto de brincos, colar e pulseiras feitos em ouro amarelo com pequenos diamantes.
Nos levantamos da mesa logo após assinarmos o documento da nossa união, e fomos conduzidos para fora do recinto.
A falta de expressão do meu cônjuge começou a me incomodar.
— Deveria estar mais feliz para alguém que acaba de ganhar cinco milhões de dólares — provoquei o homem ao me ver a sós com ele.
Tínhamos acabado de sair do cartório e esperávamos, na calçada, enquanto o manobrista se aproximava com o meu carro.
— Tecnicamente só ganhei uma esposa, já que ainda não me fizeram nenhuma transferência.
Resisti a vontade de revirar os olhos.
— Não está tornando a nossa lua de mel mais fácil — provoquei.
— Não sabia que estava pensando tanto na nossa lua de mel — ele repuxou o canto da boca em um sorriso malicioso.
Abri e fechei a boca rapidamente. Pensei em dar uma resposta mordaz, mas nada me veio a cabeça. Desconfio que fiquei vermelha do pescoço até as maçãs do rosto, porque pela primeira vez ouvi Gallo emitir uma risada alta e grave.
— Vamos acabar com isso de uma vez. Tenho coisas importantes para resolver — falei, irritada.
O carro estava estacionado quando fiz menção de abrir a porta. Fui surpreendida com a mão de Gallo cobrindo a minha.
— Por favor… faço questão.
Recuei, e ele abriu a porta do carro para mim.
— Sabe ser cavalheiro quando quer — comentei, antes de me acomodar no banco de trás.
— Prometo que serei gentil.
O homem sentou ao meu lado logo em seguida. Suspirei, tentando ignorar o leve tremor nas pernas diante do tom malicioso dele.
Ao chegarmos no hotel, fomos direto para a Penthouse suíte. Observei com entusiasmo contido enquanto o meu marido avaliava o lugar.
Escada em mármore inspirada em Óscar Niemeyer. Jardim no terraço com mais de 250 espécies nativas. Jacuzzi artesanal de madeira e vistas panorâmicas da cidade.
— Vinho? — ofereci, tentando quebrar o silêncio.
Ele aquiesceu. Fui até o balde de gelo de frente a cama e peguei uma das garrafas de vinho branco Chardonnay da safra de 2006.
Tirei a rolha e servi as duas taças. Tive um leve sobressalto ao perceber o olhar insistente do outro sobre mim.
— Algum problema? — perguntei com a voz sufocada.
Gallo se aproximou antes de me responder com outra pergunta:
— Por que haveria?
— Odeio quando respondem minhas perguntas com outras perguntas — estiquei a taça na direção dele.
Ouvi-lo respirar fundo pareceu ainda mais irritante, principalmente diante de toda aquela calma. M.al conseguia sentir as minhas pernas, o maldito homem sorria e flertava como se estivesse em um encontro.
— Não há nenhum problema comigo, Isabela — Gallo segurou a taça sem soltá-la da minha mão.— Por que pensou que poderia haver?
Novamente aqueles olhos azuis implacáveis me encaravam fixamente, como se pudessem ler detalhadamente a minha alma.
Não deixei de notar o quanto foi ín.timo ouvir o meu nome na boca dele.
Engoli em seco e tive certeza que ele percebeu.
— Não sei. É que você estava quieto e me olhando…
— Se quer saber, só estava te admirando.
Pisquei os olhos algumas vezes, talvez rápido demais.
— M-me admirando?
— Sim — ele respondeu como se aquilo fosse óbvio.— Admirava a sua naturalidade com a sofisticação. A sua educação, gentileza… e porque não, a sua beleza.
Arfei, sem conseguir sibilar uma única palavra. Gallo tirou a sua taça de minha mão e a ergueu, oferecendo um brinde. Peguei a minha que estava sobre a mesa central e encostei na dele.
— À sua gestão nas Indústrias Valente, à derrocada do seu cunhado, e aos meus cinco milhões de dólares.
Assim que terminou de falar, levou imediatamente para a boca. Não pude deixar de observar os lábios masculinos deslizando pela borda do objeto.
Repentinamente senti a minha própria boca seca demais.
— Ficou quieta tão de repente — observou, arqueando uma das sobrancelhas loiras.— Não vai beber? Não pode brindar e não beber.
— Tem razão.— virei o cálice de uma só vez, ingerindo todo o líquido levemente dourado.
— Uau… pensei que você fosse do tipo…
— Que gosta de degustar o vinho? Sim, eu gosto — o interrompi.— Sim, o que fiz foi imperdoável para qualquer pessoa razoável que sabe apreciar um bom vinho, mas hoje é um dia especialmente tenso.
— Especialmente? — o tipo cruzou os braços.— Não diga… essa tensão é por mim?
O tom de condescendência me fez ruborizar.
— Não seja pretensioso. Não esqueça que o nosso casamento é a primeira parte de um plano bem maior!
Ao invés de retrucar qualquer coisa, Gallo estendeu a mão na direção do objeto de cristal que eu ainda segurava.
— Posso?— perguntou com gentileza.
Respirei fundo antes de entregá-lo. Gallo colocou as duas taças sobre a mesa, antes de se voltar para mim mais uma vez. Aproximou-se o suficiente para que eu visse com exatidão a cor loira dos seus cílios, e o esboço perfeito dos seus lábios. Ele levou uma de suas mãos a segurar a curva do meu pescoço, fazendo todos os meus músculos retesarem.
— Até o final da noite, vamos fingir que não se trata de um plano, que é apenas uma noite de núpcias comum.
Olhei para a boca dele enquanto falava e percebi que ele já olhava para a minha.
— Pode ser? — perguntou, esperando que eu dissesse algo.
— Claro — murmurei ao concordar.
A minha respiração já estava ofegante quando Gallo terminou com a distância entre nossos rostos. O beijo começou calmo, como se precisássemos um explorar o gosto do outro.
A língua de Gallo pediu passagem, e então foi recebida pela minha, que a encontrou com domínio. Ele lambeu e mordiscou o meu lábio inferior, me fazendo sorrir sem nem saber o motivo.
Suas mãos grandes desceram pelos meus braços, acariciaram as minhas costas e chagaram até a minha cintura.
— Se quer saber, passei uma noite inteira pensando no que poderia fazer com você — a voz morna soprou baixa no meu ouvido.
Suficientemente rouca para me fazer estremecer. Gallo apertou a minha cintura com um pouco mais de força e consequentemente pressionou o meu corpo mais ao seu - o que me fez arquejar como uma adolescente inexperiente.
Fechei os olhos, apenas me permitindo sentir os beijos alcançarem a lateral do meu pescoço, e depois as minhas clavículas.
— E no que você pensou? — provoquei, arqueando a coluna como se me oferecesse, assim que o rosto dele se aproximou dos meus s.eios.
Ouvi o som abafado da risada, e tive quase certeza do sorriso travesso estampado no rosto dele.
Antes de me responder, em uma tortura silenciosa, Gallo deslizou o indicador sobre a curva cheia do meu lábio inferior.
— Eu vou devorar você. Vou engolir cada centímetro do seu corpo, e vou repetir até que implore por mais.
Um calor estranho se acumulou no final da minha barriga, e eu só tive tempo de abrir a boca para receber outro beijo.