Mesa Posta

982 Words
Aos olhos de Isabela  — É um enorme prazer tê-la de volta, Doutora Isabela - falou o mordomo de forma gentil. — Fiquei apenas duas semanas fora, Jeffries, não é motivo para tanta cortesia - brinquei, dando um leve tapinha amigável no ombro dele. O homem alto, levemente robusto, e de porte elegante me estendeu a mão, ajudando-me a descer do banco de trás do carro. — Aqui por São Paulo, imagino. — Se está tentando sondar o seu presente, saiba que te trouxe um "Meursault" lá do Hotel Rosewood. Os olhos pequenos e azuis de Jeffries se esticaram, quando o homem sorriu - e ele quase nunca sorria. Embora o seu rosto estivesse com marcas consideráveis do tempo, a sua beleza permanecia conservada. — Agradeço a sua consideração, minha senhora — beijou o dorso da minha mão ao terminar de falar.— Pode deixar que cuido da sua bagagem. Um café da manhã em família aguarda pela senhora no jardim de inverno. Fiz um leve aceno com a cabeça antes de passar pelo portão de ferro que delimitava a propriedade. Respirei fundo ao analisar a mansão que cresci na cidade de São Paulo, num bairro chamado Morumbi. Tirei brevemente os meus óculos de sol ao admirar a fachada simétrica que exibia colunas altas em pedra, sustentando uma varanda contínua no pavimento superior. As janelas eram amplas, emolduradas por arcos discretos e esquadrias escuras - que contrastavam com as paredes de tom neutro, levemente envelhecidas pelo tempo. Segui o caminho de pedras até a porta principal, onde fui recebida por Lucinda, a governanta que me acompanhou até o jardim de inverno, onde as minhas irmãs, os meus dois sobrinhos e o meu cunhado, estavam reunidos numa mesa redonda posta para o desjejum: porcelanas claras, talheres de prata polida, e uma mescla de diversos aromas e cores que ia desde o café quente, até brioches, manteiga francesa, geleias, queijo canastra, torta de amora e frutas maduras como mamão, uvas, pêras e melão. — Olha só quem resolveu dar o ar da graça - comentou Beatriz, minha irmã mais velha. Na mesa, ela estava sentada ao lado direito de seu marido, que ocupava a principal extremidade - o lugar que sempre pertenceu ao meu pai. Me deparar com aquilo fez a minha bile arder na garganta. — Pensamos que não te veríamos tão cedo, já que saiu tão aborrecida da última reunião - continuou Beatriz, enquanto se servia com algumas frutas. — Essa casa também é minha, uma hora eu teria que voltar. Até porque os negócios não podem ficar muito tempo parados, e é preciso alguém que trabalhe de verdade — sentei-me na outra extremidade da mesa, ficando frente a frente com Lucas, meu cunhado. Embora o semblante fosse imparcial, senti o olhar dele me fuzilar. Eu, claro, retribui aquela tentativa de intimidação com um olhar firme. Beatriz pigarreou Marina pigarreou Rafael e Clara, os meus sobrinhos de 5 anos, se lambuzavam de geleia e manteiga. E o silêncio se prolongava entre Lucas e eu. — Agora que sou o presidente terei mais trabalho que o normal — falou o homem, por fim. A minha resposta foi uma risada curta, enquanto segurava o bule de porcelana e me servia com café. Lucas analisava atentamente as luvas p.retas que cobriam as minhas mãos. Embora nada tivesse sido dito, pude sentir os olhares tensos de Beatriz e a postura ansiosa de Marina - que sempre adorou uma boa intriga. — Chega disso. Acho melhor não falarmos de trabalho durante o café da manhã - sibilou Beatriz. — Você terá que superar isso em algum momento — Marina falou para mim.— Nós escolhemos o Lucas por achá-lo mais experiente e preparado. — Eu disse chega, Marina — rosnou Beatriz. — O papai me escolheu e vocês passaram por cima da vontade dele. A Beatriz, por devoção cega a esse pilantra. Já você, Marina... — fiz uma breve pausa após a insinuação. — Não entendi o que está querendo dizer — contestou a minha irmã do meio. — Você sempre teve ciúmes do papai comigo. Só fez isso para jogar contra. — Se eu quisesse, teria sido uma médica bem melhor do que você — Marina segurou a faca que estava apoiada sobre o " bread plate" e a passou sobre a manteiga. — Sempre fui mais inteligente. — Até mesmo porque você sempre foi a única a achar isso — provoquei. — Eu também acho — falou Lucas, em solidariedade. — Você não passa de um puxa-saco que lambe até o chifre do d.iabo para conseguir o que quer — retruquei. Beatriz arregalou os olhos ao perceber as crianças prestarem atenção na conversa. — Isabela, os meus filhos — alertou a mais velha, enquanto rangia os dentes. — Sei que nunca gostou de mim, mas sou marido da sua irmã e pai dos filhos dela. Ao menos poderia ter respeito na presença deles — Lucas não perdeu a oportunidade de tentar ser superior. — Sinto muito pela péssima escolha da Beatriz, e sinto mais ainda pelos meus sobrinhos terem cinquenta por cento do seu DNA. — Vou me retirar com os meus pequenos — Beatriz ficou de pé — Continuem com a guerra de vocês. — Um momento, Bea — também fiquei de pé. — Antes de você ir, preciso apresentar uma pessoa que vai participar do nosso café da manhã. — Não serei plateia para o seu espetáculo, Isabela. Os meus filhos também não. — Será necessário que seja, porque essa pessoa também faz parte da família — apressei- me em explicar. — Você está aprontando alguma coisa — afirmou Lucas — Percebi no instante em que chegou. Não precisei falar nada. Acompanhado por Jeffries, meu mordomo pessoal, Fred Gallo juntou-se a nós. Caminhei para o lado dele e segurei o seu braço, antes de comunicar: — Apresento a vocês Thomas Esposito, meu marido.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD